quarta-feira, 22 de novembro de 2017

O QUE TORNA OS PROFESSORES FORTES


Assistimos ainda hoje a outras tentativas e subalternizar o papel dos professores. Darei outro exemplo: há países em que as entidades responsáveis pela Educação compram a empresas privadas o currículo, os materiais, os livros e mesmo a supervisão do processo educativo. Este “franchising” educacional leva a que o professor se converta num mero “entregador” do currículo, tendo somente seguir e cumprir rigorosa e atempadamente os planos que a empresa fez para ele. Tem-se chamado a este modelo de “currículo à prova de professor”. Segundo o modelo planeado, o modelo só pode não funcionar se o professor não cumprir obedientemente os ritmos, os conteúdos planeados e não usar os materiais que lhe são fornecidos.



António Sampaio da Nóvoa publicou em 1987 um ensaio notável e seminal sobre “O tempo dos professores” (Le temps des professeurs: analyse socio-historique de la profession enseignante au Portugal (sec. XVIII – XX). Trata-se de um livro de leitura indispensável que, além de traçar a evolução da profissão docente ao longo de 300 anos, mostra como os professores surgiram e como à custa de longos e penosos processos se puderam afirmar como uma classe profissional indispensável ao(s) desenvolvimento(s) humano(s).
Mesmo recentemente não deixaram de aparecer duvidas sobre o caráter imprescindível da profissão de professor. Lembro, por exemplo, que quando surgiram as primeiras e desastradas experiências de introdução das Tecnologias Digitais na Educação, havia teóricos que profetizavam o desaparecimento a curto prazo dos professores porque seriam substituídos (e segundo eles com vantagem) pelos computadores. Dizia-se para anunciar o “admirável mundo novo” dos computadores na Educação que eles eram mais pacientes que os humanos (aqui havia uma incompreensível confusão entre ser paciente e ser repetitivo…), os computadores eram mais disponíveis, mais versáteis, etc. O certo que cedo se verificou que todas estas vantagens eram inúteis se não existisse um professor que contextualizasse as aprendizagens, que explicasse as suas dificuldades e implicações, um professor, enfim, que falasse humanamente com os alunos. Assistimos ainda hoje a outras tentativas e subalternizar o papel dos professores. Darei outro exemplo: há países em que as entidades responsáveis pela Educação compram a empresas privadas o currículo, os materiais, os livros e mesmo a supervisão do processo educativo. Este “franchising” educacional leva a que o professor se converta num mero “entregador” do currículo, tendo somente seguir e cumprir rigorosa e atempadamente os planos que a empresa fez para ele. Tem-se chamado a este modelo de “currículo à prova de professor”. Segundo o modelo planeado, o modelo só pode não funcionar se o professor não cumprir obedientemente os ritmos, os conteúdos planeados e não usar os materiais que lhe são fornecidos.
Muito mais exemplos poderiam ser dados de tentativas (felizmente mal sucedidas) de substituir o professor, de acabar este “Tempo dos Professores” com lhe chamou Sampaio da Nóvoa. O facto destes exemplos caricaturais terem sido desmontados não deve esmorecer a nossa vontade de encontrar respostas para a questão de “Como se pode reforçar e valorizar o trabalho dos professores?”
Os últimos anos de governação em Portugal foram um verdadeiro laboratório sobre como retirar relevo e autonomia aos professores. Muitos aspetos se poderiam evocar mas referir-nos-emos a três que nos parecem mais importantes:
Os professores tornam-se mais fortes quando se reforça a autonomia e a possibilidade de gerirem o seu trabalho pedagógico. Isto quer dizer que currículos extraordinariamente extensos e complexos vão “engessar” o professor e retirar-lhe tempo e disponibilidade para usar com os alunos outros métodos que não sejam os estritamente transmissivos. Com currículos destes escasseia tempo para que os alunos aprendam a resolver questões em grupo, para apoiar os alunos que “descolem” da “velocidade de cruzeiro” a que são transmitidos os currículos e não permite qualquer veleidade de interdisciplinaridade ou mesmo de aplicação a contextos reais. A tão criticada opção governamental de reforçar os exames faz parte deste problema: as escolas usam a desculpa dos exames para justificarem práticas ainda mais tradicionais e conservadoras no seu trabalho pedagógico.
Em segundo lugar não se desenvolveram modelos que incentivem, encorajem e recompensem o trabalho cooperativo dos professores. Sabe-se hoje que um professor que trabalhe sozinho tem uma enorme probabilidade de ser incompetente dado que os problemas que se lhe deparam são de tal complexidade que só em colaboração com outros docentes e mesmo outros técnicos é possível encontrar respostas adequadas. A organização da escola, a avaliação dos professores, o modelo de resolução de problemas na escola passa sempre por um professor solitário, e único responsável por assuntos em que na verdade ele não é capaz de resolver sozinho.
Por fim, precisamos de professores apoiados. A formação em serviço precisa de ser reconcetualizada para que possa desempenhar o papel fundamental de inovação e de supervisão do trabalho docente. A formação em serviço tem passado quase sempre ao lado das reais necessidades dos professores e das reais necessidades das escolas. Precisamos de professores apoiados e, assim sendo, fortalecidos para enfrentar os complexos problemas do quotidiano escolar.
Hoje, como antes, estamos - como escreveu Sampaio da Nóvoa - o tempo dos professores. Não dos professores, sozinhos, dos professores sabe-tudo, mas no tempo de uma classe profissional que tem cada vez mais de entender como se convence e seduz os alunos para a importância do conhecimento, da inovação e da pesquisa. Mas também como é que se chega a estes objectivos usando valores e práticas que sejam humanas, solidárias e participativas. É este o tempo presente dos professores.

Autor: David Rodrigues
Presidente da Pró-Inclusão / Associação Nacional de Docentes de Educação Especial, Conselheiro Nacional de Educação.
Fonte: Público

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

PARABÉNS ESCOLA DO CURRAL. PARABÉNS PROF. JOAQUIM SOUSA. PARABÉNS A TODO O CORPO DOCENTE


A comunidade educativa da Escola 123PE do Curral das Freiras (Madeira) está de parabéns. Hoje, na Fundação Calouste Gulbenkian, o Dr. Joaquim José Sousa (Director) e a própria Escola serão distinguidos no âmbito das "Personalidades com Corações que Constroem". O Professor foi convidado a integrar a mesa de debate "O Poder da Educação na Conquista da Igualdade". A cerimónia, entre outras figuras, registará a presença do Senhor Presidente da República.


Esta distinção não surge por mero acaso. É consequência de estarmos em presença de uma ESCOLA que, paulatinamente, tenta ser diferente das demais, apesar das constantes ameaças e perseguições da tutela. Ao contrário do que seria desejável, entusiasmarem e criarem as condições para que a escola em causa funcione como um laboratório de experiências, isto é, de mudanças paradigmáticas organizacionais e pedagógicas, susceptíveis de serem universalizadas a toda a Região, há políticos que têm dado a entender que não gostam de perder palco quando outros avançam, inovando e rompendo com as caducas estruturas do sistema educativo, apenas motivados pelo princípio que um aluno "não é um número, mas um indivíduo".
Felizmente, outros reconhecem aquilo que cá dentro parece ser gerador de dores de cotovelo! Parabéns a todo o corpo docente, liderado pelo professor Joaquim José Sousa.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

POLÍTICA EDUCATIVA - AGORA NUNCA É TARDE... PARA SONHAR



Pedro Barroso foi Professor de Educação Física durante vinte anos. 
Caríssimos Professores, por favor, oiçam este texto: "nunca é tarde de mais para exigir e para sonhar.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

LAMBEM PARA CIMA ESCOICEIAM PARA BAIXO


Este é um desabafo. Inabitual, da minha parte, sobretudo pela frontalidade e crueza das palavras. Estou cansado de ver sinais dados por alguns políticos que tentam secar tudo à volta. Normalmente escolhem ou os menos bons ou, intencionalmente, zangam-se com os melhores, gerando entropia nos serviços que tutelam, para que eles próprios sobressaiam. Subtilmente, como se ninguém estivesse a ver o jogo, descomprometem-se relativamente aos seus pares, baralham o jogo, habilidosamente perseguem, silenciosamente fazem o que lhes dá na real gana, mas vergam-se ao "chefe", isto é, como é vulgar dizer-se, "lambem para cima e escoiceiam para baixo". E lá vão sobrevivendo no meio político sem que lhes descubram a careca e o vazio interior que faz eco. O poder está entregue, em alguns sectores, a desmiolados, a pessoas sem conceitos, "analfabetos" naquilo para que foram convidados, jurando pela honra cumprir com lealdade as funções confiadas. Lealdade ao "chefe", obviamente que sim, porque, facilmente, sabem que lhes podem ser oferecidos um par de patins e lá vão avenida abaixo! Lealdade e humildade em função da grandeza do acto de bem governar, com visão de futuro, isso aí, calma, primeiro o lugarzinho, depois, a imagem pública, depois, ainda, o que fica para o futuro. Se ficar...


O drama desta situação é pensarem que são donos da verdade, demonstrarem excesso de vaidade, desejarem ser referência de qualquer coisa, passarem, até, a imagem de excelência, quando, ao fim e ao cabo, existem tantos na sociedade, de professores universitários a investigadores com "cabeça", capacidade e mestria. Até alunos melhores! Então, julgo eu, eriçados pelo ciúme, com o receio de perderem o pódio, tentam fazer a vida negra aos outros, àqueles que trazem o novo e conseguem resultados entusiasmadores. Instauram processos disciplinares, mandam inspecionar desde a tasca à escola, porque todos devem vergar-se à padronização e à centralização do poder. Vergar-se ao seu "chefe", melhor dizendo. O egoísmo é tal que não conseguem olhar para o lado, ver e aplaudir o que de bom alguns fazem com enorme paixão. Aí, alto e parem o baile, porque "eu sou o presidente da junta", o meu umbigo é o centro do mundo e tudo tem de passar pelo meu crivo. Entristece-me gente assim. Magoa-me quando vejo alguém magoado por andar com a coluna direita.
Não é novo este quadro de tentativa de apagão e de, intencionalmente, provocarem o conflito onde não existe, para fazerem os outros baixar os braços, pelo que pensam, pelo que dizem e pelo que fazem. Ao longo da minha vida profissional assisti a tantas situações com esta raiz de pensamento abstruso e indigno. Até um tolinho me instaurou um processo disciplinar na lógica da perseguição maquiavélica e ao jeito político de "para os amigos tudo, para os inimigos nada e para os restantes aplique-se a lei". Hoje, olho à volta e detenho-me não nessa apregoada "renovação", mas na frase histórica que ditava a mentirosa "evolução na continuidade". Não suporto políticos medíocres, que infernizam a vida dos outros, que preferem a rotina do passado a demonstrarem um rasgo portador de futuro. Olho com preocupação para sujeitos científica e culturalmente fracos que ocupam lugares institucionais e vê-los atravessar a passerelle como iluminados. Não conseguem irritar-me, mas fico em estado de desassossego sobre o futuro. Este é um desabafo. Um dia destes, sei lá, regressarei com a denúncia. Vão mas é bugiar!
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

"CONTRA A IDEOLOGIA DAS COMPETÊNCIAS A ESCOLA DEVE ENSINAR A PENSAR"


O Sistema Educativo bloqueia o pensamento. O aluno ouve, memoriza, debita e é avaliado.


De Immanuel Kant

"Espera-se que o professor desenvolva no seu aluno, em primeiro lugar, o homem de entendimento, depois, o homem de razão, e, finalmente, o homem de instrução. Este procedimento tem esta vantagem: mesmo que, como acontece habitualmente, o aluno nunca alcance a fase final, terá mesmo assim beneficiado da sua aprendizagem. Terá adquirido experiência e ter-se-á tornado mais inteligente, se não para a escola, pelo menos para a vida.
Se invertermos este método, o aluno imita uma espécie de razão, ainda antes de o seu entendimento se ter desenvolvido. Terá uma ciência emprestada que usa não como algo que, por assim dizer, cresceu nele, mas como algo que lhe foi dependurado. A aptidão intelectual é tão infrutífera como sempre foi. Mas ao mesmo tempo foi corrompida num grau muitíssimo maior pela ilusão de sabedoria. É por esta razão que não é infrequente deparar-se-nos homens de instrução (estritamente falando, pessoas que têm estudos) que mostram pouco entendimento. É por esta razão, também, que as academias enviam para o mundo mais pessoas com as suas cabeças cheias de inanidades do que qualquer outra instituição pública. (...)"

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O PARADOXO DAS "BOAS PRÁTICAS NOS CONTEXTOS EDUCATIVOS"


Volta e meia lê-se, por aí, uma qualquer declaração onde vem à baila as "Boas Práticas nos Contextos Educativos". Ainda há dias, sobre um protocolo visando a participação de psicólogos no sistema educativo, falavam de uma "escola saudávelMente" no quadro das tais "boas práticas nos contextos educativos". Interrogo-me: afinal, o que são, hoje, as tais pressupostas "boas práticas nos contextos educativos", quando o sistema estruturalmente é sempre igual? O que é uma escola de "mente saudável"? Ora, só podem existir boas práticas quando, a partir da experiência vivida e reflectida, se conclui da necessidade de uma mudança estrutural do sistema. Mudança que deve assentar, sempre, naquilo que enforma a palavra processo, enquanto acto inacabado e contínuo. Se assim não acontecer, quando, estruturalmente, não se altera a matriz do sistema, então podemos dizer que as "boas práticas" correspondem a pensos rápidos sobre uma ferida profunda. Em uma aproximação ao sistema educativo dir-se-á que tapa a ferida, mas não resolve a questão de fundo. 


Significa isto que qualquer actuação nas margens, distante de uma visão global, compaginada a montante e a jusante do sistema, não só não resolve como não atenua a dor sentida, fundamentalmente, por professores e alunos. Aliás, se trazem à baila as "boas práticas nos contextos educativos" é pela assumida percepção que a resposta do sistema é frágil e denuncia insuficiências. Não ir ao encontro das causas parece-me tempo perdido. Parece-me, não, é tempo perdido! Uma doença grave não se resolve com aspirinas. É, portanto, espantoso e revelador de insuficiências ao nível do pensamento estratégico, ao invés de, primeiro, estudar e determinar para onde desejam ir, preferir a insistência em uma estrutura inconsequente à luz dos nossos dias. Trata-se de um paradoxo. 
Lembro, a propósito, que, em Maio de 2011, o então secretário regional da Educação da Madeira, propôs a colocação de sociólogos nas escolas da Região. Já não bastariam os psicólogos! A esse propósito escrevi um texto (aqui) que visou equacionar esta inútil proposta política. A páginas tantas, salientei: 

"(...) A Sociologia, enquanto ciência humana, que estuda as múltiplas unidades que formam a sociedade, as suas interdependências, a(s) sua(s) cultura(s), salvo melhor opinião, não se coaduna com a proposta do secretário. Parece-me absolutamente desadequada tal proposta à luz da Escola que se quer e do futuro desempenho profissional. A prioridade não é essa. Aliás, são muitas, desde a reorganização da rede escolar, a cultura organizacional, a formação inicial, complementar e especializada dos professores, a efectiva autonomia administrativa e pedagógica, o adequado financiamento, os problemas resultantes do currículo e dos programas, deles expurgando a "tralha" e, a montante, os problemas da família, da economia (emprego) e da pobreza. Se o secretário demonstrasse empenhamento nessas áreas de intervenção conjugando-a em parceria com outras pastas do governo, estaria a prestar um bom serviço. Agora, sociólogos na Escola....". 

Vive-se a onda dos psicólogos e, por pouco, julgo eu, a onda dos sociólogos não passou de uma mera proposta. Sempre a política do "penso rápido", jamais, pelo menos, a fuga à tentação de andar atrás dos acontecimentos. Não vejo os responsáveis políticos preocupados em mexer na estrutura com medidas portadoras de futuro. Mais um "projecto" aqui, outro ali, enfim, "projectos" é coisa que não falta nas escolas. Depois, genérica e globalmente, dão vivas à ponta do icebergue, aos tais que conseguem vinte valores a tudo, enaltecem a meritocracia (mesmo os piores sistemas geram resultados de topo), e assobiam para o lado perante a falange de insucessos e abandonos, por mais que abordem essas tais "boas práticas nos contextos educativos". Por favor, parem e pensem. Pensem no significado, por exemplo, da Web Summit face à "tralha" que hoje invade a Escola! Isto é, se o Sistema Educativo está em linha com os desafios do futuro. Se aquilo que transmitem tem alguma ligação com os empregos do futuro".
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 4 de novembro de 2017

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA TOCOU NA FERIDA


"Os portugueses, de facto, verdadeiramente não dão primazia à Educação como prioridade nacional, (...) quantas famílias votam, nas diferentes eleições, dando primazia à Educação? Tenho para mim que muito poucas. (...) Votam olhando para a situação económico-financeira, para as questões do emprego, da segurança, porventura da saúde ou da segurança social. Não para a Educação. E isso é muito preocupante", afirmou o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no discurso de encerramento do 1º Congresso das Escolas.


O Presidente falou, ainda, da necessidade de um novo olhar para os currículos e para os programas, o que pode significar, complementarmente, um novo olhar sobre a esfera pedagógica. Uma intervenção certeira que me escorreu garganta abaixo como mel. Faltou-lhe acrescentar, pelo menos não me apercebi, um novo olhar para as políticas de família, para as responsabilidades que a estas competem no processo educativo e para uma nova visão organizacional da sociedade. Mais trabalho não significa melhor trabalho com ganhos na produção, da mesma forma que mais escola não significa melhor escola com ganhos nos resultados da aprendizagem. Infelizmente, é essa mentalidade que há muito perdura.
Mas, não perdendo o fio à meada, as palavras do Presidente encaixam-se na perfeição em algumas experiências que tenho feito. Em qualquer rede social, coloca-se uma fotografia, muitas vezes sem qualidade e logo aparecem, dezenas ou mesmo centenas de "gostos" e  de comentários; um assunto sobre Educação passa completamente ao lado dos visitantes. Uma maçada! Só mais um exemplo: assino este blogue, aberto a textos e comentários, desde que devidamente assinados, (www.educacaopensamentoautonomia.blogspot.com), iniciado em 19.10.2016, o contador de visitas regista escassas 3.700 entradas (média de 9 pessoas/dia), mas, pior, nem um só comentário. Curiosamente, só na Região da Madeira, existem cerca de 6.500 professores. Caso para dizer que nem esses estão interessados, quanto mais a sociedade! Discutir a escola pública e a privada,  a autonomia dos estabelecimentos de educação e ensino, os direitos da criança, a pedagogia, os paradigmas organizacionais, a meritocracia, a avaliação, os TPC, o desporto educativo, a cultura, a tecnologia, a formação, a acção social educativa, os currículos, os programas, tomar consciência, através de entrevistas, do que outras personalidades dizem, enfim, tudo isto, por experiência própria, leva-me a dizer que a comunidade não dá "primazia à Educação". A escola funciona porque é obrigatória e, em segundo lugar, para a generalidade, atrevo-me, com algum exagero dizer, que são excelentes armazéns enquanto os pais trabalham. O que lá se aprende e como se aprende, se se adequam às novas realidades ou não, tem razão o Presidente, as pessoas votam (...) olhando para a situação económico-financeira, para as questões do emprego, da segurança, porventura da saúde ou da segurança social. Não para a Educação. E isso é muito preocupante".
Só uma nota final: Senhor Presidente, se a sociedade está errada, a escola não pode estar melhor. E mudar de paradigma é muito difícil. De resto, há muita forma de comprar os silêncios das pessoas, os silêncios dos próprios responsáveis pelas escolas e os silêncios dos professores, de tantas formas, repito, conjugadas com uma palavra que condiciona sobremaneira: medo.
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

POR UM LADO, A DEPENDÊNCIA DA TECNOLOGIA, POR OUTRO, COMO APROVEITÁ-LA NO PROCESSO ENSINO-APRENDIZAGEM!


O Jornal I, edição de fim-de-semana, colocou, em primeira página, uma síntese que muito dá para pensar: a utilização da tecnologia, particularmente, dos telemóveis. Já existem clínicas para este tipo de doentes e muitos jovens em tratamento. Sabe-se que o seu uso excessivo pode conduzir à ansiedade e à depressão. Um assunto grave. Impressiona-me qualquer tipo de vício ou dependência. Fico espantado quando olho para uma mesa e ao invés de conversarem, vejo as pessoas agarradas ao telemóvel em preocupante silêncio. São significativos os muros entre as pessoas. A situação é transversal a todas as idades. E se uns sabem dosear a sua utilização, outros, parecem denunciar que a vida começa e acaba ali. Eu diria que o telemóvel funciona como uma prótese necessária à sobrevivência. É a vida virtual a sobrepôr-se à vida social. De um excelente meio de informação, de comunicação e até de divertimento, passou-se, em poucos anos, para um fim em si mesmo. O telemóvel tem de estar por perto e quando não está perturba a vida. Não falo, sequer, das "radiações electromagnéticas", porque não estou minimamente abalizado para tal equacionamento, mas todos nós damos conta que não estamos a saber tirar o máximo proveito deste equipamento tecnológico em um mundo de informação permanente e de comunicação, esbatendo, simultaneamente, o rol de pontos negativos que a ele estão associados.
Por outro lado, coloca-se aqui uma outra questão: quando é residual o número de crianças e jovens que não dispõem do acesso à tecnologia (telemóvel e outros equipamentos), como pode a Escola sobreviver, mantendo as características do passado, ao invés de utilizá-la como o mais poderoso meio pedagógico no processo ensino-aprendizagem, ao mesmo tempo que pode e deve educar para a sua racional utilização?
Ilustração: Página do Jornal I.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

APRENDIZAGEM NA ERA DIGITAL, O QUE É ISSO? O SISTEMA NEM FECUNDA NEM SE DEIXA FECUNDAR PELAS CIÊNCIAS!


De uma importância extrema a iniciativa do DN-Madeira denominada por "Conferências do Casino", desta feita subordinada ao tema genérico As Tecnologias no Ensino. Iniciativa vital, no quadro de uma necessária mudança no sentido de uma escola que acompanhe o tempo digital. O DIÁRIO há muito que tenta dar o mote com o seu próprio exemplo de actualização empresarial, porém, o Sistema Educativo Autónomo, da responsabilidade da Secretaria Regional da Educação, continua a preferir que a informação sobre a Escola do Século XXI entre nos seus ouvidos a 100 e saia de imediato a 200! Tal é a histórica letargia, a acomodação e a falta de visão demonstrada em tantas situações. O pior de tudo isto é  que as "Conferências do Casino" têm o patrocínio da Secretaria Regional da Educação. Que paradoxo!


Um facto comprova-o: o ano de 2017 deve ter sido um daqueles que mais se falou de Educação e dos processos ensino-aprendizagem. Perdi a conta a tantos seminários, acções de formação creditadas para professores, realizadas pelos sindicatos e não só, fóruns de debate, entrevistas na televisão, artigos de opinião, a presença de ilustres palestrantes vindos de fora da Região, inclusive, o registo da visita do secretário de Estado da Educação, não bastassem os livros e revistas disponíveis, enfim, apesar de tudo o que aconteceu e foi sendo notícia, no sentido de despertar consciências, tudo permanece igual, a máquina continua a funcionar imperturbável aos ventos e vozes que reclamam mudanças de pensamento político. Na primeira fila ou no palco da esmagadora maioria das iniciativas, lá  esteve o secretário regional da Educação. O que mudou? Nada. O que está gizado para mudar? Nada de relevante. 
Aprendizagem na era digital, o que é isso? Ora, não basta mandar computadores para as escolas, pois como sublinhou e muito bem a Professora Elsa Fernandes (UMa), "(...) se é para fazer o que já se fazia com papel e lápis, não vale a pena". Tão simples e tão profundo. O drama é que não compreendem ou não querem compreender isto, que a Escola se aferrolhou na sua torre de marfim e, como me dizia o Filósofo Manuel Sérgio, embora em outro contexto, os políticos com responsabilidades no sector da Educação, não se deixam fecundar pelas ciências e pelo conhecimento. Digo eu, nem fecundam nem se deixam fecundar. Segundo li, quatrocentas pessoas, a maioria docentes, marcaram presença nas "Conferências do Casino", porém, a escola, pese embora importantes iniciativas já realizadas, permanece(rá) igual ao passado: disciplinas sectoriais, toques de entrada e de saída, testes, avaliações, conselhos de departamento, de turma e pedagógico, atribuição de níveis ou de notas, circulares, relatórios, muitos relatórios que aumentam as prateleiras do "arquivo morto", ah... e, agora, êxtase por prémios de meritocracia. 
Para mim que nutro aversão (a palavra é esta) a quem não acompanha o tempo que impõe, paulatinamente, novos paradigmas de resposta às necessidades, o que estamos a viver acaba por ser, não apenas decepcionante, mas sobretudo revoltante. O que leva os governantes, questiono, a demonstrarem tanta apatia pelo que é importante? De facto, pelo menos do meu ponto de vista, provoca-me indignação quando dão a entender, no palco, uma preocupação que, a prática, demonstra que não têm. Preferem o passado à construção do futuro; preferem a rotina à ruptura; preferem a aparência à realidade.
Ser secretário regional de qualquer pasta implica, necessariamente, uma capacidade acrescentada para ver longe, para desafiar, para comprometer, para conjugar o conhecimento com a definição de políticas assertivas. Passaram-se dois anos da presente legislatura e tudo continua igual na estrutura. Li e estudei em Katzenbach que o atributo de um "verdadeiro líder da mudança" (VLM) é o de "saber alcançar altos padrões de desempenho, através da alteração dos comportamentos e das competências das pessoas", isto é, os VLM evidenciam coragem para desafiar as normas; geram a motivação dos outros e demonstram capacidade de iniciativa para se moverem para lá dos limites definidos. Mais: "um líder deve ser uma pessoa que pelas suas palavras, ou pelo seu exemplo pessoal, influencia os pensamentos, os comportamentos e/ou sentimentos de um número significativo de pessoas". Li, não me recordo onde, esta síntese perfeita: Luther King, boa referência da liderança, apregoava: "eu tenho um sonho". Ele não disse: "Tenho umas ideias, podemos formar um comité, estudar e ver se resulta". A diferença está aqui. Apoiam iniciativas, como foi o caso da aprendizagem na era digital, mas falta a capacidade de liderança para definir o caminho de um sistema próspero. Como isso não acontece, o sistema educativo anda de fracasso em fracasso, perante o silêncio cúmplice de muitos.
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

PRIMEIRO A "AULA", DEPOIS O DEDO NO AR!


Por vezes confronto-me com pessoas e narrativas que me deixam sem saber o que dizer. Ou melhor, sei o que me apetece responder ou equacionar, enquadrando devidamente o problema, mas prefiro nelas ficar a pensar. Foi este o caso. Um encarregado de educação foi chamado à escola. Razão substantiva: o facto da muito jovem aluna, sistematicamente, colocar o braço levantado para colocar perguntas. Isso, deduzo, perturbava a "aula", gerava transtorno, sendo perturbador, até, da disciplina. Há matéria para debitar e os meninos(as), devem estar atentos, virados para a frente e calados. A criança em causa não é mal educada, é cordial, muito simpática, muito capaz e o seu "crime" é querer saber mais. Tão somente isto! E vem o secretário da Educação, no dia que eu soube da história desta criança, dizer que "(...) a escola tem que formar, e formar é criar condições para que as nossas crianças e os nossos jovens possam sonhar (...)". Como é possível, pergunto, sonhar, quando, logo na idade das perguntas e não das respostas, o sistema que ele próprio corporiza coarcta essa capacidade?


Eu percebo o processo que está por detrás de tudo isto: a rigidez curricular e os programas que determinam, seja lá como for, aprendam ou não, que têm de ser cumpridos e "dados"; os professores que têm sobre a sua cabeça a ridícula avaliação de desempenho do seu trabalho, de carácter classificativo e não formativo; a mentalidade ainda existente onde o professor(a) não é um "jogador", incentivador e moderador das situações de aprendizagem, antes um repetidor do manual que visa o teste de avaliação de conhecimentos, traduzida, depois, em níveis ou notas; as regras definidas pelo departamento, pelo conselho de turma e pelo conselho pedagógico e a norma vinda da hierarquia; a desajustada Inspecção Regional de Educação que interfere (ilegitimamente, repito, ilegitimamente) na "qualidade pedagógica e organizacional dos estabelecimentos de educação e ensino", enfim, tudo isto e muito mais determina a existência de professores em permanente clausura de pensamento. Mesmo que queiram mudar alguma coisa, não podem. Vão tentando! O que me leva a dizer que neste sistema, o professor é o centro da política educativa e não as crianças. Daí, o velho conceito de "aula".
É óbvio que não existe uma Universidade ou uma qualquer Escola Superior de Educação que transmita aos futuros professores a necessidade do comportamento docente que aqui narrei. Qualquer escola de formação está muito à frente das infelizes práticas dos decisores políticos. E isto acontece porque é mais fácil ser centralizador e padronizador do que libertador. E paradoxo está aqui: o secretário da Educação fala de uma Escola, a actual, onde os alunos "possam encontrar o seu projecto de vida", porém, os resultados estão aos olhos de todos, concretamente, nas taxas de insucesso, de abandono e na baixa qualidade profissional. E se os dados envergonham a própria Autonomia como se pode falar de projecto de vida? Puro engano. No meio disto há uma onda de "meritocracia" que varre os verdadeiros problemas para debaixo do tapete dos confortáveis gabinetes.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

A APATIA DA AVALIAÇÃO


Um artigo publicado na revista VISÃO (Bolsa de Especialistas) e aqui reproduzido com a devida vénia. A sua autora Drª Carmo Machado é Mestre em Ciências da Educação.

Uma vez, à laia de desabafo e referindo-se a um determinado aluno, uma colega confessou-me: Eu já lhe dei o mesmo teste para fazer cinco vezes seguidas e da última vez, para o ajudar, até fiquei com as cábulas que lhe apanhei e corrigi-as. Mesmo assim, o aluno voltou a reprovar... Fui para casa incomodada nesse dia. E nos outros que se seguiram. Não só porque continuamos a chegar à escola com o ar conformado e triste das segundas feiras, carregando às costas, em pastas e dossiers, a angústia dos assuntos por resolver, mas também e sobretudo porque a escola continua a repetir as mesmíssimas formas de avaliar, uniformizando todos os alunos pelo mesmo diapasão que, como sabemos, não funciona nem pode funcionar.


Alguém tem dúvidas de que se desvirtua diariamente as potencialidades formativas e pedagógicas da avaliação escolar? Eu não. Ensino há quase trinta anos, sem interrupção, e posso afirmar que quase cinco décadas depois das mudanças introduzidas pela Revolução de Abril no sistema educativo português, a avaliação continua a ser pontual, solitária, sumativa e discriminatória. Numa época em que tanto se fala de qualidade, a sociedade deixa-se convencer de que os resultados dos testes e depois dos exames a refletem. Puro engano. A excelência na educação está longe de ser alcançada e não é ainda minimamente acompanhada por um sistema de avaliação adequado. Este continua desligado da aprendizagem e apresenta uma finalidade única que é a de classificar os alunos, esquecendo a sua função motivadora, reguladora e orientadora dos seus processos de aprendizagem. Testes e exames possuem grande tradição histórica e são formas de legitimação de poder e das suas políticas de educação. Porém, a avaliação é uma parte essencial ao processo de ensino e de aprendizagem e, como tal, é necessária para confrontar os objetivos estabelecidos com os seus resultados. Assim, os professores deveriam avaliar porque ensinam em vez de ensinar para avaliar. E quanto aos alunos, estes não deveriam aprender quase exclusivamente para serem avaliados. Infelizmente, é isto que hoje se verifica na maioria dos casos que eu conheço.
A escola de hoje continua a apresentar um fosso gritante entre todos os pressupostos teóricos existentes e a verdadeira atividade pedagógica. Existe uma contradição constante na nossa prática profissional quotidiana entre aquilo que deveria ser e o que verdadeiramente é. Deixemo-nos de hipocrisias. Já Hadji dizia, com toda a razão, que o lugar da nota na escola é bastante prodigioso. De facto, ela joga um papel determinante na vida dos alunos. E mesmo na dos professores, diria eu, que sem testes para avaliar e nota para atribuir em consequência desses testes, ficariam perdidos, naufragados num mar sem norte. Estou cada vez mais convencida de que os testes e as notas que deles resultam continuam (e continuarão) a constituir os elementos principais na avaliação dos alunos, por mais que sejam apresentados outros critérios que supostamente o professor deverá ter em consideração.
Por isso mesmo, e porque a avaliação como a entendo é um processo de recolha de informação, o uso que lhe dou é diário. E sendo a avaliação um continuum, como poderemos tomar as principais decisões apenas com base em dois momentos específicos de avaliação por período letivo? Quanto à parte que me toca, não quero voltar a sair da escola com esta sensação de fracasso entranhada nos ossos. Não quero continuar a fazer de conta que ensino e não quero, repito, não quero que os meus alunos façam de conta que aprendem... Só para responderem corretamente no teste e a seguir esquecerem tudo o que aprenderam. Quero fazer da escola e do ensino da minha disciplina um espaço de aprendizagens significativas e da aula de Português um pedaço de autêntica vida que permita, acima de tudo, a tomada de consciência do indivíduo em relação com a língua que fala e a cultura que o rodeia. Atenção, não pretendo negar totalmente a importância do teste ou do exame. Quero apenas que a escola aprenda a desembaraçarse deles, retirando-lhes o lugar de destaque que atualmente ocupam na avaliação das aprendizagens. E numa época em que o insucesso escolar é uma realidade, que tal admitirmos a hipótese de a avaliação como a entendemos e efetuamos hoje – mais classificativa do que interpretativa - ser uma das suas principais causas?
Deixo-vos com esta reflexão, caros leitores: poderá o sistema de ensino português correr o risco de entrar em descalabro se a avaliação escolar abandonar o seu exclusivo teor certificativo e passar a funcionar como a bússola que guia alunos e professores nas aprendizagens Conseguiremos, de uma vez por todas, passar a encarar a avaliação numa perspetiva evolutiva e dinâmica de adaptação, resolução e reflexão perante a vida?
Sabemos todos que alterar a forma como avaliamos é, sem dúvida, uma das mudanças mais difíceis – e cruciais - a levar a cabo no universo escolar mas já Confúcio dizia: Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

ENSINAR O PAI-NOSSO AO VIGÁRIO, NÃO, OBRIGADO!


"Nós todos temos a percepção dos resultados, quer da avaliação sumativa interna das escolas, quer da avaliação sumativa externa das escolas, os exames e as provas finais, mas nós estamos no terreno e vamos perceber como é que a escola faz o diagnóstico dos seus problemas, ou seja, para além da folha Excel, perceber que soluções a escola adopta, como é que monitoriza e como é que promove a melhoria na prática, que isto nos parece fundamental", disse Jorge Morgado, um dos intervenientes na II Conferência Diversidades, que decorreu, esta manhã, na Reitoria da Universidade da Madeira." - Fonte: DN-Madeira.


Palavras, palavras e mais palavras, porém, no essencial, nada de novo. Quarenta anos depois, o governo ainda não passou da fase do diagnóstico. Pessoalmente, lamento que um director regional (Inspecção Regional de Educação) pelo que foi referido, ande pelos estabelecimentos de ensino a "ensinar o pai-nosso ao vigário". Um director, advogado, que nem professor é!
A generalidade dos professores, sobretudo os que têm mais responsabilidades, democraticamente atribuídas, seria bom que tomasse consciência, dominam os formatos dos diagnósticos (levantamento da situação) bem como os relatórios que apresentam. Os professores, desde sempre que monitorizam e adoptam, as melhores práticas, no quadro do sistema educativo vigente e imposto. O próprio governo tem feito, de quando em vez, alarde disso mesmo. Quando convém. Portanto, andar de escola em escola constitui perda de tempo. O que deveria preocupar o governo é as outras e estruturantes dimensões do problema: a questão social, a montante, que também está diagnosticada, mas que não há coragem ou saber para arrancar as famílias da pobreza (em sentido lato e a todos os níveis, causa para muitos anos); a estrutura da organização social, onde se enquadram, naturalmente, os tempos de trabalho e a precariedade; a pavorosa escola a tempo inteiro onde, tendencialmente, tudo é motivo de escolarização encapotada, roubando o tempo necessário para ser criança; a responsabilização das famílias no processo educativo, também em sentido lato; a coragem para colocar em debate sério e profundo, a Autonomia da Madeira conferida pelo Estatuto Político-Administrativo (Artigo 40º, alínea o) - Matérias de interesse específico da RAM); a questão da autonomia das escolas, a sua organização e financiamento, neste caso, a liberdade na construção do currículo a partir de uma matriz essencial (não existem duas escolas iguais), o que implica um total respeito pela diferenciação; os programas desarticulados entre os diversos patamares; a tecnologia vs negócio dos manuais escolares e uma nova visão sobre o pensamento pedagógico, onde todo o caminho está por abrir. A "grande obra" é essa! De uma vez por todas, oiça, não se aprende por disciplinas e de uma forma centralizada e padronizada. Esse foi um tempo. Só aqui, qualquer pessoa, apostada no futuro, consegue elencar uma quase infinidade de aspectos que necessitam reflexão aprofundada. Ademais, todos os diagnósticos e monitorizações estão feitos, constam de livros, de dissertações, de teses e das actas das reuniões dos vários órgãos dos estabelecimentos de educação e ensino. Ainda hoje, o Dr. Rui Caetano, líder da Escola B+S Gonçalves Zarco, escreve em artigo de opinião: "(...) Os professores não se limitam a trabalhar o processo ensino-aprendizagem com alunos interessados e/ou desinteressados. Atualmente, a sociedade exige quase tudo à escola e aos professores. Por isso, somos esse “tudo” de várias formas e feitios. Somos: educadores das regras de convivência; formadores para a sexualidade responsável; gestores de conflitos; mediadores familiares de problemas que acontecem entre eles, além de fiscalizarmos e estarmos atentos aos comportamentos de risco dos alunos. Até os problemas pessoais que ocorrem numa discoteca ou no fim de semana, algures, chegam à escola para serem resolvidos, porque ganham novas dimensões. O rol de exigências continua: fazemos o papel de psicólogos; assumimos o lugar de pais, mães, amigos, confidentes, nutricionistas, tutores e promotores de campanhas de angariação de roupas, alimentos, medicamentos e outras carências dos alunos e familiares, além de educarmos também para a necessidade urgente dos hábitos de higiene. (...)". Saberá o governo, concretamente o Senhor Director da Inspecção (!) o que isto significa? Adianto-lhe: que o diagnóstico, a todos os níveis está feito, até porque os professores vão dando a resposta adequada. Não apenas nos aspectos externos à escola e que se repercutem na escola, tal como no processo ensino-aprendizagem. O problema está, portanto, não na elaboração de mais diagnósticos, monitorizações, de acompanhamento e de aconselhamento em processos de raiz errada, mas na mudança de paradigma. Entendeu, Senhor Director? Ensinar o "pai-nosso ao vigário", não, obrigado.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

AINDA AS PROVAS DE AFERIÇÃO


As designadas "provas de aferição" são uma treta. Foram realizadas, estou convencido disso, apenas para atenuar a crítica política e sobretudo pública que o governo não quer avaliações e muito menos exames. É óbvio que a população transporta, ainda, a imagem de um sistema, com um longínquo passado, onde a palavra exame foi sempre determinante. Ali se separava, sem olhar a outros contextos e variáveis, o chamado trigo do joio. Não haver exames, para muitos, ainda hoje, significa facilitismo. Essa cultura está enraizada na consciência da população, sobretudo porque persiste uma crónica teimosia em não actuar nas causas. E essas encontram-se no Sistema Educativo no quadro da organização e da mentalidade social.



Mas acresce aqui um outro aspecto. No entendimento existente e no quadro das referências do sistema, se a aferição não conta para a avaliação do aluno, tendencialmente, são os próprios alunos que relegam para segundo plano o objectivo que, dizem, estar em causa. Pergunta-se, então, para que serve essa aferição? Quando os exames são hoje postos em causa, para quê aferir no plano nacional? Os estabelecimentos de ensino é que devem ter essa preocupação, porque dominam o quadro das aprendizagens no âmbito do seu projecto educativo. Para quê esse olhar de coruja atenta que o sistema encarna? Daí que não sejam necessários testes, pois há múltiplas formas de avaliar o trabalho realizado no plano interno dos estabelecimentos. 
Há dias segui uma reportagem, incluída no programa Fronteiras XXI (RTP 1), no decorrer da qual a jornalista disse que, na Finlândia, não existem exames nem no básico nem no secundário. A esse propósito, uma professora, sorrindo, sublinhou: "não é importante"! De facto, não é, se coragem existisse para mexer no âmago do sistema. Não se aprende mais com exames, tampouco com repetições para esquecer. Aprende-se vivenciando, errando, tentando e experimentando através de enquadramentos que despertem a CURIOSIDADE, acreditando, tal como ficou claro nessa mesma reportagem, que o "mundo não se resume às disciplinas". As crianças não vão, passados uns anos, para o mercado de trabalho com uma catrefada de disciplinas assistidas e concluídas com o tal "êxito" e com os diplomas de uma vã meritocracia. Integram-se e são confrontadas com a vida que é um todo; integram-se sabendo trabalhar em grupo e para o grupo e não de forma isolada, cada um por si. Não se integram com uma nota ou um nível, mas pela capacidade de aprender a desaprender, com visão, com entusiasmo, com sentido de busca e de investigação permanente. Esse é o caminho.
Portanto, na esteira do que tantas vezes aqui escrevi, obviamente na sequência do que vou lendo, compreendendo e percebendo, constitui um erro manter esta lógica: ah, as aferições foram muito negativas, então, mais apoios no Português, na Matemática, nas Ciências Naturais, na Física e na Química. Só que a insistência no erro nunca resolveu e jamais resolverá os tais pobres resultados. Assume o secretário de Estado: "estas provas permitem aferir o sistema e agir ao primeiro sinal de dificuldade". Pois. O problema é que há tantos e tantos anos que essa lógica se mantém: perante resultados menos satisfatórios, a resposta do sistema é sempre igual e os resultados posteriores sensivelmente os mesmos. Sendo assim, resta-nos mudar de paradigma. Este sistema educativo já deu tudo quanto tinha para dar. Desde há muitos anos.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 8 de outubro de 2017

DUAS POSIÇÕES ANTAGÓNICAS



Ainda sobre o programa da RTP3, "Fronteiras XXI", atentemos nestas duas posições:

Doutor David Justino, Presidente do Conselho Nacional de Educação: " A Educação melhorou muito. (...) A escola está cheia de mitos. Um dos mitos é que a Escola não muda. Só diz isto quem não conhece o que era a Escola do Século XIX ou do Século XX com a Escola actual. A Escola actual não tem nada a ver com a Escola do Século XIX ou XX. Aquilo que acontece é que a Escola vai-se renovando, através de pequenas coisas, pequenas alterações (...)"

Juiz Conselheiro Jubilado, Laborinho Lúcio: "(...) Chega-se à Educação através das crianças (...) não através de modelos. Às vezes temos excelentes modelos educativos, o que atrapalha são as crianças. Se nós partirmos das crianças, se percebermos que elas são radicalmente diferentes daquilo que eram na Escola do passado (...)"

David Justino surge-nos como um retrógrado, uma figura que não percebeu o essencial da questão, isto é, na prática, as diferenças conceptuais entre a Sociedade Industrial e a Sociedade da Tenologia e da Informação. E se sabe (ora se sabe!) continua, infelizmente, a posicionar-se no provérbio que "Deus é bom, mas o Diabo também não é mau". Temos de ver o futuro, mas, cuidado, o modelo de ontem, através de "pequenas alterações" continua a ter as suas virtualidade. Já Laborinho Lúcio, talvez porque pertença a organizações dos "Direitos da Criança", que o obrigou a uma leitura social mais profunda, mostra-se com uma visão muito mais alargada e assertiva. A sua síntese, dita, recentemente, no Funchal, acertou em cheio: "As crianças têm já um adulto dentro de si". Caso para perguntar, quem deveria ser presidente do Conselho Nacional de Educação?
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

A MÁQUINA, OS PINGOS DE CHUVA E A FERRUGEM!


Em uma apreciação ao comportamento político dos actuais secretários regionais da Madeira, escreveu o jornalista Vítor Hugo, do DN (e bem), relativamente ao secretário regional da Educação: "A sua discrição tem valido com que passe entre os pingos da chuva sem que se molhe muito." Excelente síntese. Eu apenas acrescentaria na observação política que faço: "sem se molhar". E aqui é que reside o verdadeiro problema. Um político tem de expor-se e tem de molhar-se. Só assim será possível acrescentar alguma coisa ao pré-existente. Quando mantém o fatinho político impecável, engomadinho e impermeabilizado, obviamente, que está a repetir o passado, ou melhor, significa que existe apenas para deitar óleo na máquina velha e ferrugenta. E a máquina, peça antiga da Sociedade Industrial, retocada aqui e ali, digna de figurar em um museu da História da Educação, continua a arrastar-se na engrenagem de ontem, por ausência de uma vontade política em encontrar outras mais adequadas aos tempos que correm. Não por ausência de cabimentação orçamental, mas por negligência, para não dizer outra coisa.



Espantoso é o facto dos homens e mulheres de hoje, olharem para essa máquina que percorreu mais de duzentos anos, e não lhes suscitar uma interrogação, uma inquietação: que faz ela aqui? Por que não substituímos esta sucata em função dos novos paradigmas do desenvolvimento? Por que teimam em manter uma engenhosa estrutura que olha para trás e não para o futuro? Uma máquina que, insensível, repete e repete, que não sabe fazer mais do que repetir, mecanicamente, o passado, pode ter lugar no mundo organizacional, neste caso, curricular, programático e sobretudo pedagógico de hoje?
Há uma ausência de questionamento sobre a máquina. Há silêncios a mais. Há braços caídos e até mesmo uma sensação de que não vale a pena. Ou melhor, é mais fácil manter a rotina do que molhar o fato perante a chuva de críticas que a todo o momento cai. A insatisfação existe. A angústia dos trabalhadores é evidente. O Síndrome de Burnout alastra-se ao longo do ano, a baixa médica acontece com frequência, os "serventes" dizem que aprendem mais de 60% fora da fábrica, mas a máquina continua a funcionar, repito, mecanicamente, alheia a tudo, surda e muda ao mundo e aos apelos dos vários sistemas que, hoje, para ela olham com desdém. A chuva cai, cada vez com mais intensidade, impiedosamente, mas o óleo permite-lhe que funcione! As fábricas abrem às oito, o patrão chega às nove, olha para os relatórios e manda disponibilizar mais óleo ou WD 40. Tal qual um relógio suíço e à semelhança da Sociedade Industrial, toca para entrar e toca para fechar e, no dia seguinte, a roda dentada volta a funcionar, cada vez mais lentamente, mas funciona. Com mais ou menos "projectos".
Há dias escutei, de passagem, alguns debates sobre o funcionamento da fábrica. Todos os gerentes das sucursais por aí espalhadas, genericamente, deram-se por satisfeitos com o patrão, com o funcionamento e com a produção. O patrão manda, nós obedecemos e paga no dia certo. Isso é que interessa. Percebi-os, a todos. Apenas um que quis explicar a máquina, um que mais parecia uma caterpílar com parafusos soltos tal o ruído produzido, fez-me mudar de canal, por não aguentar tanta torrente de disparates. Em contraponto, escutei um ou outro com alguma mensagem subtilmente dirigida ao patrão da fábrica. 
Ora, eu sei que meter o pauzinho na engrenagem da máquina necessita de conhecimento e sobretudo coragem para enfrentá-la. Acredito que, em alguns casos, existindo conhecimento (existe com certeza), a coragem é reprimida. Tenho pena, porque todos vamos continuar a pagar cara a produção, porque tal como sublinhou o jornalista, a discrição faz com que o patrão passe "entre os pingos da chuva sem que se molhe muito". Lamento, pelos trabalhadores da fábrica, pelos "serventes" e pela produção futura. A aquisição do conhecimento (produção) já não se faz com "peças" de museu. Deve-se apreciá-las, mas não segui-las.
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

SER PROFESSOR É UM INFERNO


A escola já não perde tempo a fazer aprender, alerta o professor e pedagogo Sérgio Niza. Alunos sem esperança, professores ansiosos, ensino bafiento e uma escola que não serve os interesses das crianças e jovens nem os do país. Sérgio Niza dedicou a vida à educação e não se conforma com o estado a que a escola portuguesa chegou. Mas há soluções, diz ele.


Professores insatisfeitos, pais preocupados e alunos que acham as aulas uma maçada. O que é que se passa com a nossa escola?
Esse é o retrato da escola portuguesa e da generalidade das escolas dos países ocidentais devido à forma de organização do trabalho. A estrutura de ensino simultâneo – todos a aprender a mesma coisa ao mesmo tempo – vem do século xvii e ainda perdura apesar de se saber desde os anos vinte do século xx que é um modelo esgotado. O professor dá uma lição, depois faz uma pergunta, escolhe um aluno para responder e avalia o trabalho substancial que é feito em casa. O principal problema da escola está neste modelo de não-comunicação em que o professor usa mais de três quartos do tempo da aula para falar sem que os alunos participem ou estejam envolvidos. Assim não há diálogo possível. Poderá algum jovem ou criança suportar isto?
Não é a melhor metodologia para aprender, certo?
Hoje, graças à investigação, sabemos que se aprende dialogando, falando e escrevendo o conhecimento científico e cultural que se estuda na escola. Devemos contar com a inteligência, os saberes e a colaboração dos alunos e os currículos não devem ser um segredo, devem ser eles a geri-los em conjunto com os professores. Persistir neste modelo de não-comunicação equivale a continuar a encarcerar alunos e a impedir a sociedade e as pessoas de se aproximarem da escola.
A escola não está adaptada à sociedade do século XXI?
Nenhuma outra organização humana resistiu a tanta história e a tanta mudança como a escola, que funciona do mesmo modo há séculos. Hoje temos mais consciência de que a escola, como instrumento ao serviço do desenvolvimento humano, da sociedade, da economia e da cultura, já não serve.
Portugal está ao mesmo nível dos países europeus ou pior?
A nossa desgraça é que estamos sempre muito atrasados. Quando implementamos políticas que foram experimentadas noutros países, fazemo-lo fora do tempo. A escola portuguesa está esclerosada, está desfasada do tempo histórico. Não corresponde às vivências, necessidades e esperanças dos alunos e das pessoas em geral.
Em suma, qual é a sua maior preocupação com a escola portuguesa?
Não temos uma escola democrática, os alunos não participam na organização das aprendizagens e no ensino. Quatro décadas depois do 25 de Abril, lamento que os governantes não tenham aprendido que a melhor maneira de competir é pela cooperação – os desportistas de equipa, por exemplo os futebolistas, sabem-no bem. Ao invés, nós pusemos os alunos a competir com os colegas e os professores uns com os outros, o que empobrece o trabalho realizado. Esta ideia de transformar a escola, que deve ser um centro vivo de cultura, numa empresa é uma ilusão perigosa. E o sistema de vigilância e punição que está a montar-se para alunos e professores vai tornar a escola ainda mais desumana do que já é.
A escola está a formatar crianças e jovens?
Completamente. A escola não perde tempo a fazer aprender. Cada vez mais, o que se sugere aos professores é que debitem a matéria, que vigiem e que penalizem os alunos que não aprendem por si ou com as famílias procedendo à sua retenção ou sujeitando-os a fileiras secundárias de ensino precário, como acontece com a introdução do ensino vocacional, que poderá por lei vir a atingir alunos do primeiro e segundo ciclos, o que é desde já sentido por todos como uma nova via de castigo ou de discriminação.
Mas do professor o que se espera é que transforme alunos com dificuldades em alunos tão bem sucedidos como os outros…
As famílias e a sociedade deviam pressionar os professores para que assim fosse. Mas as políticas atuais parecem preconizar que o modo tradicional de trabalhar é que é bom. E assim as crianças e jovens que têm dificuldades vão continuar a ser excluídos. Da escola e da sociedade. E, no entanto, a Direção-Geral da Educação acabou de fazer um estudo sobre os percursos curriculares alternativos e concluiu que a inserção dos alunos nessas turmas especiais não se traduz numa recuperação das aprendizagens e que são residuais os casos de reingresso no ensino regular. Ora, eu pergunto: se é assim, porque se continua a apostar no mesmo? Sabem o que vai acontecer a estes jovens? Vão perder-se em outros percursos igualmente alternativos e vão continuar a ser tratados como portugueses de segunda.
Porque é que os professores não mudam as práticas dentro da sala de aula?
Os professores foram ensinados de determinada maneira e tendem a replicar o modelo que conhecem. Por outro lado, esta forma de estar na escola tornou-se tão natural que alguns professores até pensam que é a única. Mas não. Temos de ter consciência do que se passa na generalidade das escolas para perceber porque fracassámos e querer mudar. Porque há soluções.
Quais são?
Temos de substituir as soluções únicas da velha escola tradicional, reforçada agora por soluções de empobrecimento cultural inspiradas na América dos anos de 1980, por uma gestão comparticipada dos programas, pela entreajuda entre alunos, pela individualização de contratos de aprendizagem e uma forte colaboração que forme para a cidadania democrática. Alguns professores já o fazem hoje e devem continuar até que respeitem os seus direitos profissionais.
Os bons professores estão acomodados?
Chegámos a um ponto em que até os bons professores que se mantêm no ensino temem ficar desempregados e o país corre o risco de que se tornem uns cordeirinhos, que obedecem cegamente às manipulações da administração. Os professores estão muito ansiosos, já não querem gastar tempo a falar de estratégias de ensino que melhorem as aprendizagens porque também eles estão obcecados com a avaliação. A que têm de fazer constantemente aos alunos e a avaliação final de ciclo, externa às escolas. Além disso, eles também vão ser examinados através dos resultados dos alunos, por via da avaliação do desempenho. É um inferno ser professor neste contexto.
Discorda da avaliação do trabalho dos professores?
Não, o trabalho dos professores é pago por todos nós e deve ser avaliado. Mas uma coisa é avaliar o conjunto do trabalho do professor, incluindo a sua atitude no seio de uma equipa pedagógica, outra coisa é avaliar o professor como se faz com qualquer outro funcionário público. É que a natureza do trabalho dos professores é muito particular por ser crucial para o desenvolvimento humano, a preservação e a renovação da herança cultural.
Foram publicadas as metas curriculares para o ensino básico. É caso para dizer que finalmente haverá objetivos de aprendizagem claros e autonomia para os professores?
Nem pensar. As metas servem a atual espinha dorsal da escola, que passou a ser o seu controlo. Não têm nada de novo, apenas servem para examinar e vigiar. As metas desviam-se dos programas em vigor mas isso é indiferente para o ministério pois os professores sabem que para alcançar resultados têm de olhar para as metas tendo-as em conta como o novo currículo.
As novas metas não servem os interesses dos alunos nem dos professores?
O discurso oficial é que sim, que servem. Mas não é verdade, não servem porque empobrecem o curriculum, o trabalho intelectual dos professores e dos alunos. Estas metas não trazem uma vantagem cultural e de socialização acrescida às aprendizagens, à escola e à sociedade.
Que apreciação faz do trabalho do ministro Nuno Crato?
Este ministro aparenta estar absolutamente convencido de que está a fazer o melhor, mas ele não é um homem da educação. Até presumo que tenha sido escolhido por ser um bom comunicador político – ele tinha uma receita conservadora de reforço do ensino tradicional, e conseguiu passá-la nos media – e é economista com especialização em estatística – o que é importante para fazer contas e tornar a educação mais barata. Infelizmente, o senhor ministro não tem uma cultura acrescentada sobre a escola nem um conhecimento, para além do senso comum, sobre educação.

QUEM É SÉRGIO NIZA?

Sérgio Niza foi professor do ensino primário, de educação especial e universitário. O trabalho de investigação e o seu pensamento como pedagogo é reconhecido no país e no estrangeiro. Fundou o Movimento da Escola Moderna portuguesa e já foi membro do Conselho Nacional de Educação.

NOTA
Entrevista publicada em 2012. Genericamente continua tudo igual. A flexibilização curricular e a introdução de alguns aspectos que podem ser considerados positivos, não alteram a paisagem do desânimo e a manutenção de um sistema completamente ultrapassado. 

sábado, 16 de setembro de 2017

ABERTURA DO ANO ESCOLAR E AS PALAVRAS LANÇADAS PARA O AR


Apostar nas novas tecnologias é a estratégia para "não perder o comboio" dos países mais desenvolvidos e "para enfrentar os desafios do futuro da Madeira". E falou de nanotecnologia, impressão em 3D, biotecnologia, ou de manipulação genética. Disse, ainda: 65% dos empregos do futuro, podem não ter sido inventados. "Não sabemos que emprego vão ter as crianças que vão entrar agora nas escolas". São declarações do presidente do governo da Madeira na abertura do ano escolar. (Fonte: DN-Madeira, edição de hoje)


Do meu ponto de vista trata-se de um conjunto de palavras soltas, desenquadradas da realidade e, por isso mesmo, preocupantes em uma visão séria da política educativa regional. Não porque qualquer livro de análise prospectiva não o refira. São tantos os pensadores e futuristas que ensaiam(aram) um prognóstico sobre o futuro, a partir do desenvolvimento científico da época que vivem(ram). Trazer o futuro ao presente e compreendê-lo em todas as variáveis, é uma tarefa não apenas fundamental, como necessária e estruturante do planeamento geral e específico que conduza, por antecipação, às respostas políticas mais adequadas. O problema não reside aí. Isso está nos livros, nas revistas técnicas e científicas, é dito nos fóruns pelos académicos investigadores e pelos considerados "gurus" do pensamento estratégico. A questão é outra e reduz-se a três perguntas tão simples quanto estas: onde estou? onde quero chegar? que passos tenho de dar para lá chegar. Estas questões gestionárias colocam-se na Educação, mas também em todos os sectores, áreas e domínios do crescimento e do desenvolvimento. Ora, é fácil falar-se de nanotecnologia, de manipulação genética ou de engenharia espacial, pois pode, eventualmente, com muita boa vontade da minha parte, corresponder a uma resposta à pergunta: "onde quero chegar". Porém, de que vale, interrogo-me, definir esse objectivo, se não se domina a resposta à questão primeira: "onde estou". E sendo assim, alguém, de boa-fé, consegue definir e dominar "os passos a dar para lá chegar"? 
À partida, embora dê algum ou muito trabalho, depende do interesse, não tem nada de extremamente complexa a caracterização dos dois momentos: onde estou e onde quero chegar, definindo tempos e metodologias de trabalho. Muito mais complexa é a coragem para definir um caminho de interesse para a Região, para o País e para o Mundo gerador de sucesso individual e colectivo. Dirigido a todos, saliento, e não a alguns. Portanto, as palavras só por si não fazem caminhar no sentido da utopia, da vitória sobre o incessante desenho do futuro. E, a propósito, só mais uma nota: como se pode defender uma aposta nas tecnologias "para não perder o comboio" quando, do telemóvel ao Ipad, ponto de partida para o mundo do conhecimento, a sua utilização na Escola é, por múltiplos aspectos, extremamente condicionada? Pois, eu sei, o sistema dita que há um programa para cumprir e o manual continua a ser preferível à utilização da tecnologia. O que diz bem do "onde estamos".
Ora,  as palavras morrem quando não se lhes proporciona significado e asas. Quando o sistema educativo, grosso modo, assenta nos pressupostos do passado e não se vislumbram preocupações que animem um processo de ruptura com  esse passado, como se pode falar, por exemplo, de robotização? Quando o sistema mata a curiosidade e o acto de pensar, quando se mostra centralizador e estandardizado, quando mexe nas bordas e deixa o centro vital intocável, quando se olha para as graves assimetrias existentes na sociedade (para as múltiplas fomes), como pode o presidente falar de tecnologia da manipulação de átomos e moléculas como desígnio educativo desejável? Há etapas que não podem ser queimadas, nem possível é, subir degraus de quatro em quatro, quando falta perna para tal. Aliás, utilizo aqui uma frase feita: quando se repete o passado, não se pode esperar, no futuro, outros resultados que não os desse passado. É o que está a acontecer.
Mas, atenção, se aquelas declarações, em abstrato, denunciam, algum sentido de preocupação relativamente à construção do futuro, então aí desejável seria que o sistema autonómico regional reflectisse, de forma concreta e substantiva, com a imprescindível participação dos académicos, todas as peças do puzzle no sentido da construção do futuro. E não é isso que se verifica. Assisto à emergência de uma meritocracia balofa, com cheques publicitários à mistura, apenas para a fotografia e satisfação dos adultos, à proliferação de palavras ocas de sentido, porque contextualmente desarticuladas e a ímpetos políticos sem escoras que, por isso mesmo, ultrapassam as generalidades e caem nas banalidades conceptuais. Infelizmente, este é um quadro que conta com a complacência de muitos professores.
Finalmente, consta que, Segunda-feira próxima, primeiro dia do novo ano escolar, presidente e secretários regionais regressarão à Escola em visitas cujos motivos não se entendem. Políticos, talvez! Que cada um aproveite e tente perceber as razões da Escola de hoje ser igualzinha à do seu tempo, quando tudo em redor mudou! Já não seria mau. 
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

INÍCIO DO ANO ESCOLAR: OS CHAVÕES E A CONFUSÃO DE CONCEITOS


Todos os anos, o palavreado repete-se. "Está tudo preparado para que o novo ano decorra com a maior das tranquilidades e das serenidades, acreditando que será mais um ano de sucesso para os nossos alunos". Repetidamente, falam de "tranquilidade", "normalidade" e, este ano, de "serenidade". Três palavras de significado idêntico: paz, silêncio, sossego, mansidão, quietude, habitual, frequente, corriqueiro, enfim, tudo o que o sistema e a escola não precisam. O sistema precisa de inquietação, de questionamento, de dúvida, de agitação das mentalidades. Viver na tranquilidade significa manter a rotina, ela já de si doentia, significa que o decisor político se contenta com a colocação dos professores, com as portas abertas no dia indicado, com os diversos serviços a funcionar, com a campainha que toca e volta a tocar, com o livro do ponto e com a infestante burocracia. Um ser acomodado! É a normalidade para uns, a tranquilidade para outros e a serenidade para os demais, tudo conjugado nesse silêncio e mudeza que evita a reflexão.


Ora, a escola não deve ser tudo aquilo se quer ter sucesso. Bastaria que perguntassem aos professores e aos alunos se esta Escola satisfaz! Se estão ou não com uma Escola manifestamente estática, penosa, sem iniciativa, contra a inovação, desmotivadora, de taxas de insucesso e de abandono preocupantes. Perguntem e questionem o que pode ser elaborado no sentido de uma escola que apaixone e de um sistema que não seque tudo em seu redor. Questionem o porquê do cansaço dos professores, as razões das angústias, das depressões e internamentos. Interroguem-se sobre o porquê da presença de psicólogos nos estabelecimentos de ensino. Ponham em cima da mesa, de forma transversal as características do "modelo" (diferente de paradigma) e discutam as questões sociais, a pobreza, os empregos precários, a complexa situação financeira de milhares de famílias, como alterar a mentalidade que joga para a responsabilidade da escola o que lhes deve pertencer. Façam um "brainstorming", concluam e caminhem na base de um permanente desassossego. Com tranquilidade ninguém lá chega! 
Mas o mais curioso é que na mesma edição do DN-Madeira (ontem), o presidente do governo da região veio falar que "(...) a educação formal é necessária e essencial, mas que há outra educação que é dada fora da escola (...) que é muito "importante na formação dos valores, no sentido da responsabilidade e da cidadania (...)". E adiantou, ainda, "(...) num Mundo onde os desafios da mudança são tão rápidos, em que a própria educação formal não tem capacidade de resposta, esta educação informal é sempre importante (...)". Ora, mesmo considerando alguns erros ao nível dos conceitos, chega-se, facilmente, à conclusão de um antagonismo de posições que pasmam. Um falou de "tranquilidade/serenidade", outro de mudança e de educação "informal" o que, pressupostamente, traz no seu bojo a necessidade de repensar toda a oferta educativa da escola; um denuncia, claramente, acomodação, outro parece desafiar para a "mudança". Trata-se, é-me óbvio, de um choque político frontal. Ou foram palavras de circunstância e apropriadas ao momento, palavras que soam bem aos ouvidos dos presentes, ou então, ambos não se entendem no discurso sobre a Educação. 
Passo para o domínio dos conceitos. O que é isso de educação formal e informal? Qual a linha que separa o currículo de tudo o resto definido como "não obrigatório", porém, "importante"? E será que muito do "obrigatório" é "importante"? Questiono,  ainda: a Escola não tem capacidade de resposta? Homessa, ou será que o sistema não quer alterar os pressupostos organizacionais, curriculares, programáticos e pedagógicos? Afinal, aproveitando, as palavras ditas, como exemplo, não será na escola que se aprendem, também, "os valores fundamentais da cidadania (...) para termos uma sociedade melhor"? Não sendo apenas isso, o dos valores da cidadania que estão em causa, essa condição de quem possui direitos civis, políticos e sociais, então a Escola não tem capacidade de esbater a fome de tudo o resto, cumprindo os seus desígnios? Com mais de 6.000 professores, terão as famílias de recorrer à múltipla oferta privada, com os inerentes encargos, para que a Educação corresponda à formação integral do ser humano?
O presidente falou de um aspecto particular, o da cidadania, mas a Educação é muito mais do que isso. Pensar o futuro, (re)desenhando-o, implica que a tal "mudança", ela própria seja portadora de futuro. Está, portanto, em causa, um novo conceito de escola e de aprendizagem. No essencial, como quebrar o que dizem ser "formal" conjugando-o (integrando-o) com o "informal". Como aprender amanhã, desaprendendo o que ontem foi adquirido, mantendo o desejo da curiosidade e do conhecimento? Como articular os múltiplos saberes básicos, de forma coerente e integrada, com qualidade, através da participação activa e não de um sistema que se baseia na atitude passiva, onde o professor debita e os restantes escutam? Como fazer da Escola, todos os dias, a "festa do conhecimento", a alegria que não rejeita a importância das tecnologias que eles trazem na mochila e, como dizia o Professor Rubem Alves, dando lugar a um professor não debitador e repetitivo, mas a um "professor de espantos"? Como inverter a lógica obsessiva da avaliação permanente e exclusiva, a da meritocracia sem sentido, desde o primeiro ciclo, por uma outra que nasce da necessidade de dizer "eu sei"? 
Eu sei, também, que dá muito trabalho uma nova concepção, globalizante, do sistema educativo, sei que é complexo terminar com décadas de rotinas, sei que é mais fácil seguir o que é determinado pelo Ministro da Educação, do que exercer a Autonomia a tempo inteiro, sei que para o burocrata, uma vez mais na feliz expressão de Rubem Alves, "o que interessa é o que vem no relatório, não as crianças", sei que para "quem só tem um martelo como instrumento, todos os problemas parecem pregos" ( Mark Twain). Por tudo isto, porque a construção do futuro implica outra forma de estar, por favor, não falem de "tranquilidade" e de "serenidade", tampouco de "mudança", quando, por um lado, são totalmente incompatíveis e desajustadas ao mundo de hoje, por outro, é evidente que não querem mexer uma palha. A efectiva mudança, tenham presente, corresponde à construção de um de paradigma, qualquer coisa pela qual me guio (processo) e nunca repito (modelo)!
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

O "REGRESSO ÀS AULAS"



FACTO

Eu e muitos milhares, talvez milhões, começavam as ditas "aulas", no dia 07 de Outubro. E, em Janeiro, só após o Dia de Reis. Normalmente a 7 de Janeiro. Isto vigorou até aos primórdios dos anos 80. Em todas as profissões, no quadro de um sistema absoleto, conheço tantos que foram excelentes, gente de topo, muitos com carreiras até na investigação e no reconhecimento internacional. Mas não apenas aí. De electricistas a mecânicos, por todo o País, na indústria e no comércio, quantos singraram pelo reconhecido valor técnico-profissional? Atenção, os que tiveram acesso à Escola, pois todos sabemos das gravíssimas limitações económicas, financeiras, sociais e culturais, impostas por um regime cretino, estúpido. Quero eu dizer com isto que os que tiveram possibilidades não saíram burrinhos, mesmo começando a 07 de Outubro e com currículos e programas incomparavelmente mais reduzidos.

ALGUMAS PERGUNTAS 
E COMENTÁRIOS

Este facto não faz disparar nada na consciência nos decisores políticos? Que razões estão na origem das ditas "aulas" começarem quase um mês antes? (há estabelecimentos de ensino que iniciam no dia 11 e até ao dia 18 todos deverão estar a funcionar).
Ah, julgo eu, porque não há coragem para rever, paulatinamente, a (re)organização da sociedade e, nessa abordagem, os tempos laborais; não há coragem para separar, nos currículos e programas, o essencial do acessório; porque preferem queimar etapas do crescimento fechando as crianças nas escolas, antecipando, cada vez mais, conhecimentos desadequados às idades; porque brincar, ao contrário de ser considerada uma actividade séria, é tida, desmioladamente, como perda de tempo (o pré-escolar irá começar aos três anos); porque, pela pressão de vários sectores, há manuais, muitos manuais, para vender, uns, até, separados "para meninos e para meninas", sacrificando os pais com encargos exorbitantes; porque o sistema não encontra respostas adequadas de alguma ocupação cultural, de natureza informal, e a resposta privada é cara; porque a escola bloqueou os actos de pensar e de ser curioso; porque não gerou, ao longo dos anos, a importância de férias activas; porque não investiram em uma cultura de responsabilização das famílias, quando a Educação delas deve partir. 
Por isto e muito, muito mais, a escola formal começa a 11 de Setembro e, não tardará que o seu início aconteça no primeiro dia de Setembro. 
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

AVÔ, AGORA NÃO, ESTOU NA ESCOLA!


Aproximei-me de um dos meus netos. Gosto de apreciá-los e, sempre que considero oportuno, tento perceber o seu desenvolvimento. Desta vez, delicadamente, disse-me: "avô, agora não, estou na escola". Estava a seguir um  dos seus canais preferidos. Pelo que me apercebi tratava-se de um programa de ciência espacial. Fiz silêncio e afastei-me. Talvez a resposta dada tenha a ver com uma anterior conversa entre nós, no decorrer da qual lhe disse que, na idade dele, aprendia muito mais vendo determinados "programas" do que através dos "programas" das disciplinas da escola. Lembro-me, na altura, ter-me dito: "isso é verdade". 


Sobre isso, não tenho a menor dúvida. Este sistema educativo já deu tudo quanto tinha para dar. Repete currículos, programas, metodologias e processos pedagógicos. Cansa professores e alunos. Volta e meia pinta-os de fresco, porém, a sua estrutura organizativa mantém os traços seculares. Com algumas variações, sejamos claros, encurrala alunos em uma sala e intoxica-os com um falso conhecimento enciclopédico, de fora para dentro, a martelo, procurando a resposta e bloqueando a pergunta. Logo no primeiro dia de aulas ficam marcadas as avaliações no decorrer do período e raramente se fala da importância de ser curioso. A avaliação é o medo imposto, a espada sobre a cabeça que reduz quase a zero a possibilidade de se amar o conhecimento. Portanto, o sistema "esforça-se" por manter a rotina que mata o interesse pelo saber sentido e contextualizado. O sistema, qual disfarce, prega por todo o lado que as crianças estão no centro das políticas educativas, mas ele próprio remete-as para a periferia, colocando o professor como a entidade que ali está para cumprir o superiormente determinado. Ora, quando o professor apenas transmite, quando a aprendizagem tem apenas um sentido, quando decorar o manual é prioritário relativamente à percepção da globalidade e transversalidade dos temas, quando a avaliação é determinante e não o verdadeiro saber, quando o pensamento e a dúvida são desvalorizados, quando se corre para o ensino superior com lacunas graves a vários níveis básicos, será que ninguém se interroga, ninguém coloca em dúvida a estrutura do sistema? Uma  coisa é conceder aos estabelecimentos de ensino a possibilidade de gerirem 25% do currículo; outra, é manter o formato organizacional e pedagógico. É mais do mesmo!
Regresso ao início, ao meu neto. Ele e os outros já perceberam que esta escola está desfasada do seu tempo, mas sabem que têm de cumprir o sistema. O círculo vicioso mantém-se, mas sabem que existem outros e melhores formatos de aprendizagem. Foi, por isso, com alguma ou total ironia que ele me disse: "avô, agora não, estou na escola"!
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

HÁ CRIANÇAS CUJAS MOCHILAS PAGARIAM EXCESSO DE BAGAGEM


Em Outubro passado deixei aqui um texto sobre o peso que as crianças são obrigadas a transportar nas suas mochilas. Parto, hoje,  deste excerto: "Estive à porta de uma escola. Eram 18 horas. Um ou outro saía com a mochila às costas ao encontro dos pais e/ou familiares, enquanto a generalidade usava um "trolley", tantos são os livros, cadernos, lanches, equipamentos de desporto e outros necessários ao "dia de aulas". Trata-se de uma escola que concentra crianças e jovens de várias idades, desde muito cedo até ao final da tarde. Pesei uma dessas "malas de viagem". Onze quilos e meio para uma criança de 5º ano, com cerca de 30 kg de peso corporal. Carrega, uns dias menos do que outros, um terço do seu peso. O peso da "mala da viagem escolar" diária, em uma companhia aérea de baixo custo, pagaria excesso de bagagem. 

A mochila de um dos meus netos! O peso deveria situar-se
entre os 3 e os 4 kg, mas transporta 11,5 kg.

O DN-Madeira de hoje volta ao assunto ("água mole em pedra dura..."), colocando em destaque: "Entre 2003 e 2017, os nossos alunos levaram às costas mais de dez quilos de material escolar, número que aumentou de 4,5 para 16% em 14 anos". Trata-se de um assunto recorrente sobre o qual têm falado e escrito professores, investigadores, médicos, psicólogos, sei lá quantos documentos já li sobre este assunto. Todos os anos o tema regressa e a passividade dos governantes mantém-se. Naquele texto de Outubro passado destaquei, ainda: "O sistema educativo esquece-se que as "(...) dores nas costas são a causa mais frequente das visitas ao médico. As doenças que afectam a coluna representam mais de 50% das causas de incapacidade física e que se estima que 7 em cada 10 portugueses sofrem ou já sofreram de dores nas costas. Independentemente deste factor de relevante importância no plano da saúde, a questão essencial que se coloca é se a formação básica se mede por quilos? Ou será, deixo às vossas considerações, que existem outros formatos de aprendizagem que conduzem ao saber dispensando a necessidade do sacrifício?"
O problema, portanto, não está na escola ter mais cacifos para que as crianças possam aliviar o peso que transportam. Este alerta da DECO, embora bem intencionado, constitui, apenas, um paliativo que não resolve o  problema de fundo. A questão, assuma-se, é de sistema educativo e do que se pretende que seja o ensino básico. Ou desejam, logo à partida, uma aprendizagem enciclopédica, descontextualizada da cadência do tempo de aprendizagem, tornando as crianças "burrinhos de carga", ou pretendem a busca do essencial, o alimento da curiosidade, o alicerce do conhecimento, a utilização da tecnologia, a criatividade, a pergunta em vez da resposta. Os governantes dão a perceber que ainda não entenderam que, através de novos enquadramentos, é possível aprender muito mais, repito, muito mais e de forma consistente, comparativamente ao velho sistema segmentado por disciplinas. Como não entendem ou sabem e não querem, permitem, então, que a irresponsabilidade se transfira para a mochila das crianças. E sendo assim, para o ano, nas vésperas de um novo ano escolar, os que se preocupam com estes temas, regressarão com o drama do peso das mochilas. Para já, nada a fazer, até que apareça alguém que corrija a situação.
Ilustração: Arquivo pessoal.