quinta-feira, 21 de setembro de 2017

SER PROFESSOR É UM INFERNO


A escola já não perde tempo a fazer aprender, alerta o professor e pedagogo Sérgio Niza. Alunos sem esperança, professores ansiosos, ensino bafiento e uma escola que não serve os interesses das crianças e jovens nem os do país. Sérgio Niza dedicou a vida à educação e não se conforma com o estado a que a escola portuguesa chegou. Mas há soluções, diz ele.


Professores insatisfeitos, pais preocupados e alunos que acham as aulas uma maçada. O que é que se passa com a nossa escola?
Esse é o retrato da escola portuguesa e da generalidade das escolas dos países ocidentais devido à forma de organização do trabalho. A estrutura de ensino simultâneo – todos a aprender a mesma coisa ao mesmo tempo – vem do século xvii e ainda perdura apesar de se saber desde os anos vinte do século xx que é um modelo esgotado. O professor dá uma lição, depois faz uma pergunta, escolhe um aluno para responder e avalia o trabalho substancial que é feito em casa. O principal problema da escola está neste modelo de não-comunicação em que o professor usa mais de três quartos do tempo da aula para falar sem que os alunos participem ou estejam envolvidos. Assim não há diálogo possível. Poderá algum jovem ou criança suportar isto?
Não é a melhor metodologia para aprender, certo?
Hoje, graças à investigação, sabemos que se aprende dialogando, falando e escrevendo o conhecimento científico e cultural que se estuda na escola. Devemos contar com a inteligência, os saberes e a colaboração dos alunos e os currículos não devem ser um segredo, devem ser eles a geri-los em conjunto com os professores. Persistir neste modelo de não-comunicação equivale a continuar a encarcerar alunos e a impedir a sociedade e as pessoas de se aproximarem da escola.
A escola não está adaptada à sociedade do século XXI?
Nenhuma outra organização humana resistiu a tanta história e a tanta mudança como a escola, que funciona do mesmo modo há séculos. Hoje temos mais consciência de que a escola, como instrumento ao serviço do desenvolvimento humano, da sociedade, da economia e da cultura, já não serve.
Portugal está ao mesmo nível dos países europeus ou pior?
A nossa desgraça é que estamos sempre muito atrasados. Quando implementamos políticas que foram experimentadas noutros países, fazemo-lo fora do tempo. A escola portuguesa está esclerosada, está desfasada do tempo histórico. Não corresponde às vivências, necessidades e esperanças dos alunos e das pessoas em geral.
Em suma, qual é a sua maior preocupação com a escola portuguesa?
Não temos uma escola democrática, os alunos não participam na organização das aprendizagens e no ensino. Quatro décadas depois do 25 de Abril, lamento que os governantes não tenham aprendido que a melhor maneira de competir é pela cooperação – os desportistas de equipa, por exemplo os futebolistas, sabem-no bem. Ao invés, nós pusemos os alunos a competir com os colegas e os professores uns com os outros, o que empobrece o trabalho realizado. Esta ideia de transformar a escola, que deve ser um centro vivo de cultura, numa empresa é uma ilusão perigosa. E o sistema de vigilância e punição que está a montar-se para alunos e professores vai tornar a escola ainda mais desumana do que já é.
A escola está a formatar crianças e jovens?
Completamente. A escola não perde tempo a fazer aprender. Cada vez mais, o que se sugere aos professores é que debitem a matéria, que vigiem e que penalizem os alunos que não aprendem por si ou com as famílias procedendo à sua retenção ou sujeitando-os a fileiras secundárias de ensino precário, como acontece com a introdução do ensino vocacional, que poderá por lei vir a atingir alunos do primeiro e segundo ciclos, o que é desde já sentido por todos como uma nova via de castigo ou de discriminação.
Mas do professor o que se espera é que transforme alunos com dificuldades em alunos tão bem sucedidos como os outros…
As famílias e a sociedade deviam pressionar os professores para que assim fosse. Mas as políticas atuais parecem preconizar que o modo tradicional de trabalhar é que é bom. E assim as crianças e jovens que têm dificuldades vão continuar a ser excluídos. Da escola e da sociedade. E, no entanto, a Direção-Geral da Educação acabou de fazer um estudo sobre os percursos curriculares alternativos e concluiu que a inserção dos alunos nessas turmas especiais não se traduz numa recuperação das aprendizagens e que são residuais os casos de reingresso no ensino regular. Ora, eu pergunto: se é assim, porque se continua a apostar no mesmo? Sabem o que vai acontecer a estes jovens? Vão perder-se em outros percursos igualmente alternativos e vão continuar a ser tratados como portugueses de segunda.
Porque é que os professores não mudam as práticas dentro da sala de aula?
Os professores foram ensinados de determinada maneira e tendem a replicar o modelo que conhecem. Por outro lado, esta forma de estar na escola tornou-se tão natural que alguns professores até pensam que é a única. Mas não. Temos de ter consciência do que se passa na generalidade das escolas para perceber porque fracassámos e querer mudar. Porque há soluções.
Quais são?
Temos de substituir as soluções únicas da velha escola tradicional, reforçada agora por soluções de empobrecimento cultural inspiradas na América dos anos de 1980, por uma gestão comparticipada dos programas, pela entreajuda entre alunos, pela individualização de contratos de aprendizagem e uma forte colaboração que forme para a cidadania democrática. Alguns professores já o fazem hoje e devem continuar até que respeitem os seus direitos profissionais.
Os bons professores estão acomodados?
Chegámos a um ponto em que até os bons professores que se mantêm no ensino temem ficar desempregados e o país corre o risco de que se tornem uns cordeirinhos, que obedecem cegamente às manipulações da administração. Os professores estão muito ansiosos, já não querem gastar tempo a falar de estratégias de ensino que melhorem as aprendizagens porque também eles estão obcecados com a avaliação. A que têm de fazer constantemente aos alunos e a avaliação final de ciclo, externa às escolas. Além disso, eles também vão ser examinados através dos resultados dos alunos, por via da avaliação do desempenho. É um inferno ser professor neste contexto.
Discorda da avaliação do trabalho dos professores?
Não, o trabalho dos professores é pago por todos nós e deve ser avaliado. Mas uma coisa é avaliar o conjunto do trabalho do professor, incluindo a sua atitude no seio de uma equipa pedagógica, outra coisa é avaliar o professor como se faz com qualquer outro funcionário público. É que a natureza do trabalho dos professores é muito particular por ser crucial para o desenvolvimento humano, a preservação e a renovação da herança cultural.
Foram publicadas as metas curriculares para o ensino básico. É caso para dizer que finalmente haverá objetivos de aprendizagem claros e autonomia para os professores?
Nem pensar. As metas servem a atual espinha dorsal da escola, que passou a ser o seu controlo. Não têm nada de novo, apenas servem para examinar e vigiar. As metas desviam-se dos programas em vigor mas isso é indiferente para o ministério pois os professores sabem que para alcançar resultados têm de olhar para as metas tendo-as em conta como o novo currículo.
As novas metas não servem os interesses dos alunos nem dos professores?
O discurso oficial é que sim, que servem. Mas não é verdade, não servem porque empobrecem o curriculum, o trabalho intelectual dos professores e dos alunos. Estas metas não trazem uma vantagem cultural e de socialização acrescida às aprendizagens, à escola e à sociedade.
Que apreciação faz do trabalho do ministro Nuno Crato?
Este ministro aparenta estar absolutamente convencido de que está a fazer o melhor, mas ele não é um homem da educação. Até presumo que tenha sido escolhido por ser um bom comunicador político – ele tinha uma receita conservadora de reforço do ensino tradicional, e conseguiu passá-la nos media – e é economista com especialização em estatística – o que é importante para fazer contas e tornar a educação mais barata. Infelizmente, o senhor ministro não tem uma cultura acrescentada sobre a escola nem um conhecimento, para além do senso comum, sobre educação.

QUEM É SÉRGIO NIZA?

Sérgio Niza foi professor do ensino primário, de educação especial e universitário. O trabalho de investigação e o seu pensamento como pedagogo é reconhecido no país e no estrangeiro. Fundou o Movimento da Escola Moderna portuguesa e já foi membro do Conselho Nacional de Educação.

NOTA
Entrevista publicada em 2012. Genericamente continua tudo igual. A flexibilização curricular e a introdução de alguns aspectos que podem ser considerados positivos, não alteram a paisagem do desânimo e a manutenção de um sistema completamente ultrapassado. 

sábado, 16 de setembro de 2017

ABERTURA DO ANO ESCOLAR E AS PALAVRAS LANÇADAS PARA O AR


Apostar nas novas tecnologias é a estratégia para "não perder o comboio" dos países mais desenvolvidos e "para enfrentar os desafios do futuro da Madeira". E falou de nanotecnologia, impressão em 3D, biotecnologia, ou de manipulação genética. Disse, ainda: 65% dos empregos do futuro, podem não ter sido inventados. "Não sabemos que emprego vão ter as crianças que vão entrar agora nas escolas". São declarações do presidente do governo da Madeira na abertura do ano escolar. (Fonte: DN-Madeira, edição de hoje)


Do meu ponto de vista trata-se de um conjunto de palavras soltas, desenquadradas da realidade e, por isso mesmo, preocupantes em uma visão séria da política educativa regional. Não porque qualquer livro de análise prospectiva não o refira. São tantos os pensadores e futuristas que ensaiam(aram) um prognóstico sobre o futuro, a partir do desenvolvimento científico da época que vivem(ram). Trazer o futuro ao presente e compreendê-lo em todas as variáveis, é uma tarefa não apenas fundamental, como necessária e estruturante do planeamento geral e específico que conduza, por antecipação, às respostas políticas mais adequadas. O problema não reside aí. Isso está nos livros, nas revistas técnicas e científicas, é dito nos fóruns pelos académicos investigadores e pelos considerados "gurus" do pensamento estratégico. A questão é outra e reduz-se a três perguntas tão simples quanto estas: onde estou? onde quero chegar? que passos tenho de dar para lá chegar. Estas questões gestionárias colocam-se na Educação, mas também em todos os sectores, áreas e domínios do crescimento e do desenvolvimento. Ora, é fácil falar-se de nanotecnologia, de manipulação genética ou de engenharia espacial, pois pode, eventualmente, com muita boa vontade da minha parte, corresponder a uma resposta à pergunta: "onde quero chegar". Porém, de que vale, interrogo-me, definir esse objectivo, se não se domina a resposta à questão primeira: "onde estou". E sendo assim, alguém, de boa-fé, consegue definir e dominar "os passos a dar para lá chegar"? 
À partida, embora dê algum ou muito trabalho, depende do interesse, não tem nada de extremamente complexa a caracterização dos dois momentos: onde estou e onde quero chegar, definindo tempos e metodologias de trabalho. Muito mais complexa é a coragem para definir um caminho de interesse para a Região, para o País e para o Mundo gerador de sucesso individual e colectivo. Dirigido a todos, saliento, e não a alguns. Portanto, as palavras só por si não fazem caminhar no sentido da utopia, da vitória sobre o incessante desenho do futuro. E, a propósito, só mais uma nota: como se pode defender uma aposta nas tecnologias "para não perder o comboio" quando, do telemóvel ao Ipad, ponto de partida para o mundo do conhecimento, a sua utilização na Escola é, por múltiplos aspectos, extremamente condicionada? Pois, eu sei, o sistema dita que há um programa para cumprir e o manual continua a ser preferível à utilização da tecnologia. O que diz bem do "onde estamos".
Ora,  as palavras morrem quando não se lhes proporciona significado e asas. Quando o sistema educativo, grosso modo, assenta nos pressupostos do passado e não se vislumbram preocupações que animem um processo de ruptura com  esse passado, como se pode falar, por exemplo, de robotização? Quando o sistema mata a curiosidade e o acto de pensar, quando se mostra centralizador e estandardizado, quando mexe nas bordas e deixa o centro vital intocável, quando se olha para as graves assimetrias existentes na sociedade (para as múltiplas fomes), como pode o presidente falar de tecnologia da manipulação de átomos e moléculas como desígnio educativo desejável? Há etapas que não podem ser queimadas, nem possível é, subir degraus de quatro em quatro, quando falta perna para tal. Aliás, utilizo aqui uma frase feita: quando se repete o passado, não se pode esperar, no futuro, outros resultados que não os desse passado. É o que está a acontecer.
Mas, atenção, se aquelas declarações, em abstrato, denunciam, algum sentido de preocupação relativamente à construção do futuro, então aí desejável seria que o sistema autonómico regional reflectisse, de forma concreta e substantiva, com a imprescindível participação dos académicos, todas as peças do puzzle no sentido da construção do futuro. E não é isso que se verifica. Assisto à emergência de uma meritocracia balofa, com cheques publicitários à mistura, apenas para a fotografia e satisfação dos adultos, à proliferação de palavras ocas de sentido, porque contextualmente desarticuladas e a ímpetos políticos sem escoras que, por isso mesmo, ultrapassam as generalidades e caem nas banalidades conceptuais. Infelizmente, este é um quadro que conta com a complacência de muitos professores.
Finalmente, consta que, Segunda-feira próxima, primeiro dia do novo ano escolar, presidente e secretários regionais regressarão à Escola em visitas cujos motivos não se entendem. Políticos, talvez! Que cada um aproveite e tente perceber as razões da Escola de hoje ser igualzinha à do seu tempo, quando tudo em redor mudou! Já não seria mau. 
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

INÍCIO DO ANO ESCOLAR: OS CHAVÕES E A CONFUSÃO DE CONCEITOS


Todos os anos, o palavreado repete-se. "Está tudo preparado para que o novo ano decorra com a maior das tranquilidades e das serenidades, acreditando que será mais um ano de sucesso para os nossos alunos". Repetidamente, falam de "tranquilidade", "normalidade" e, este ano, de "serenidade". Três palavras de significado idêntico: paz, silêncio, sossego, mansidão, quietude, habitual, frequente, corriqueiro, enfim, tudo o que o sistema e a escola não precisam. O sistema precisa de inquietação, de questionamento, de dúvida, de agitação das mentalidades. Viver na tranquilidade significa manter a rotina, ela já de si doentia, significa que o decisor político se contenta com a colocação dos professores, com as portas abertas no dia indicado, com os diversos serviços a funcionar, com a campainha que toca e volta a tocar, com o livro do ponto e com a infestante burocracia. Um ser acomodado! É a normalidade para uns, a tranquilidade para outros e a serenidade para os demais, tudo conjugado nesse silêncio e mudeza que evita a reflexão.


Ora, a escola não deve ser tudo aquilo se quer ter sucesso. Bastaria que perguntassem aos professores e aos alunos se esta Escola satisfaz! Se estão ou não com uma Escola manifestamente estática, penosa, sem iniciativa, contra a inovação, desmotivadora, de taxas de insucesso e de abandono preocupantes. Perguntem e questionem o que pode ser elaborado no sentido de uma escola que apaixone e de um sistema que não seque tudo em seu redor. Questionem o porquê do cansaço dos professores, as razões das angústias, das depressões e internamentos. Interroguem-se sobre o porquê da presença de psicólogos nos estabelecimentos de ensino. Ponham em cima da mesa, de forma transversal as características do "modelo" (diferente de paradigma) e discutam as questões sociais, a pobreza, os empregos precários, a complexa situação financeira de milhares de famílias, como alterar a mentalidade que joga para a responsabilidade da escola o que lhes deve pertencer. Façam um "brainstorming", concluam e caminhem na base de um permanente desassossego. Com tranquilidade ninguém lá chega! 
Mas o mais curioso é que na mesma edição do DN-Madeira (ontem), o presidente do governo da região veio falar que "(...) a educação formal é necessária e essencial, mas que há outra educação que é dada fora da escola (...) que é muito "importante na formação dos valores, no sentido da responsabilidade e da cidadania (...)". E adiantou, ainda, "(...) num Mundo onde os desafios da mudança são tão rápidos, em que a própria educação formal não tem capacidade de resposta, esta educação informal é sempre importante (...)". Ora, mesmo considerando alguns erros ao nível dos conceitos, chega-se, facilmente, à conclusão de um antagonismo de posições que pasmam. Um falou de "tranquilidade/serenidade", outro de mudança e de educação "informal" o que, pressupostamente, traz no seu bojo a necessidade de repensar toda a oferta educativa da escola; um denuncia, claramente, acomodação, outro parece desafiar para a "mudança". Trata-se, é-me óbvio, de um choque político frontal. Ou foram palavras de circunstância e apropriadas ao momento, palavras que soam bem aos ouvidos dos presentes, ou então, ambos não se entendem no discurso sobre a Educação. 
Passo para o domínio dos conceitos. O que é isso de educação formal e informal? Qual a linha que separa o currículo de tudo o resto definido como "não obrigatório", porém, "importante"? E será que muito do "obrigatório" é "importante"? Questiono,  ainda: a Escola não tem capacidade de resposta? Homessa, ou será que o sistema não quer alterar os pressupostos organizacionais, curriculares, programáticos e pedagógicos? Afinal, aproveitando, as palavras ditas, como exemplo, não será na escola que se aprendem, também, "os valores fundamentais da cidadania (...) para termos uma sociedade melhor"? Não sendo apenas isso, o dos valores da cidadania que estão em causa, essa condição de quem possui direitos civis, políticos e sociais, então a Escola não tem capacidade de esbater a fome de tudo o resto, cumprindo os seus desígnios? Com mais de 6.000 professores, terão as famílias de recorrer à múltipla oferta privada, com os inerentes encargos, para que a Educação corresponda à formação integral do ser humano?
O presidente falou de um aspecto particular, o da cidadania, mas a Educação é muito mais do que isso. Pensar o futuro, (re)desenhando-o, implica que a tal "mudança", ela própria seja portadora de futuro. Está, portanto, em causa, um novo conceito de escola e de aprendizagem. No essencial, como quebrar o que dizem ser "formal" conjugando-o (integrando-o) com o "informal". Como aprender amanhã, desaprendendo o que ontem foi adquirido, mantendo o desejo da curiosidade e do conhecimento? Como articular os múltiplos saberes básicos, de forma coerente e integrada, com qualidade, através da participação activa e não de um sistema que se baseia na atitude passiva, onde o professor debita e os restantes escutam? Como fazer da Escola, todos os dias, a "festa do conhecimento", a alegria que não rejeita a importância das tecnologias que eles trazem na mochila e, como dizia o Professor Rubem Alves, dando lugar a um professor não debitador e repetitivo, mas a um "professor de espantos"? Como inverter a lógica obsessiva da avaliação permanente e exclusiva, a da meritocracia sem sentido, desde o primeiro ciclo, por uma outra que nasce da necessidade de dizer "eu sei"? 
Eu sei, também, que dá muito trabalho uma nova concepção, globalizante, do sistema educativo, sei que é complexo terminar com décadas de rotinas, sei que é mais fácil seguir o que é determinado pelo Ministro da Educação, do que exercer a Autonomia a tempo inteiro, sei que para o burocrata, uma vez mais na feliz expressão de Rubem Alves, "o que interessa é o que vem no relatório, não as crianças", sei que para "quem só tem um martelo como instrumento, todos os problemas parecem pregos" ( Mark Twain). Por tudo isto, porque a construção do futuro implica outra forma de estar, por favor, não falem de "tranquilidade" e de "serenidade", tampouco de "mudança", quando, por um lado, são totalmente incompatíveis e desajustadas ao mundo de hoje, por outro, é evidente que não querem mexer uma palha. A efectiva mudança, tenham presente, corresponde à construção de um de paradigma, qualquer coisa pela qual me guio (processo) e nunca repito (modelo)!
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

O "REGRESSO ÀS AULAS"



FACTO

Eu e muitos milhares, talvez milhões, começavam as ditas "aulas", no dia 07 de Outubro. E, em Janeiro, só após o Dia de Reis. Normalmente a 7 de Janeiro. Isto vigorou até aos primórdios dos anos 80. Em todas as profissões, no quadro de um sistema absoleto, conheço tantos que foram excelentes, gente de topo, muitos com carreiras até na investigação e no reconhecimento internacional. Mas não apenas aí. De electricistas a mecânicos, por todo o País, na indústria e no comércio, quantos singraram pelo reconhecido valor técnico-profissional? Atenção, os que tiveram acesso à Escola, pois todos sabemos das gravíssimas limitações económicas, financeiras, sociais e culturais, impostas por um regime cretino, estúpido. Quero eu dizer com isto que os que tiveram possibilidades não saíram burrinhos, mesmo começando a 07 de Outubro e com currículos e programas incomparavelmente mais reduzidos.

ALGUMAS PERGUNTAS 
E COMENTÁRIOS

Este facto não faz disparar nada na consciência nos decisores políticos? Que razões estão na origem das ditas "aulas" começarem quase um mês antes? (há estabelecimentos de ensino que iniciam no dia 11 e até ao dia 18 todos deverão estar a funcionar).
Ah, julgo eu, porque não há coragem para rever, paulatinamente, a (re)organização da sociedade e, nessa abordagem, os tempos laborais; não há coragem para separar, nos currículos e programas, o essencial do acessório; porque preferem queimar etapas do crescimento fechando as crianças nas escolas, antecipando, cada vez mais, conhecimentos desadequados às idades; porque brincar, ao contrário de ser considerada uma actividade séria, é tida, desmioladamente, como perda de tempo (o pré-escolar irá começar aos três anos); porque, pela pressão de vários sectores, há manuais, muitos manuais, para vender, uns, até, separados "para meninos e para meninas", sacrificando os pais com encargos exorbitantes; porque o sistema não encontra respostas adequadas de alguma ocupação cultural, de natureza informal, e a resposta privada é cara; porque a escola bloqueou os actos de pensar e de ser curioso; porque não gerou, ao longo dos anos, a importância de férias activas; porque não investiram em uma cultura de responsabilização das famílias, quando a Educação delas deve partir. 
Por isto e muito, muito mais, a escola formal começa a 11 de Setembro e, não tardará que o seu início aconteça no primeiro dia de Setembro. 
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

AVÔ, AGORA NÃO, ESTOU NA ESCOLA!


Aproximei-me de um dos meus netos. Gosto de apreciá-los e, sempre que considero oportuno, tento perceber o seu desenvolvimento. Desta vez, delicadamente, disse-me: "avô, agora não, estou na escola". Estava a seguir um  dos seus canais preferidos. Pelo que me apercebi tratava-se de um programa de ciência espacial. Fiz silêncio e afastei-me. Talvez a resposta dada tenha a ver com uma anterior conversa entre nós, no decorrer da qual lhe disse que, na idade dele, aprendia muito mais vendo determinados "programas" do que através dos "programas" das disciplinas da escola. Lembro-me, na altura, ter-me dito: "isso é verdade". 


Sobre isso, não tenho a menor dúvida. Este sistema educativo já deu tudo quanto tinha para dar. Repete currículos, programas, metodologias e processos pedagógicos. Cansa professores e alunos. Volta e meia pinta-os de fresco, porém, a sua estrutura organizativa mantém os traços seculares. Com algumas variações, sejamos claros, encurrala alunos em uma sala e intoxica-os com um falso conhecimento enciclopédico, de fora para dentro, a martelo, procurando a resposta e bloqueando a pergunta. Logo no primeiro dia de aulas ficam marcadas as avaliações no decorrer do período e raramente se fala da importância de ser curioso. A avaliação é o medo imposto, a espada sobre a cabeça que reduz quase a zero a possibilidade de se amar o conhecimento. Portanto, o sistema "esforça-se" por manter a rotina que mata o interesse pelo saber sentido e contextualizado. O sistema, qual disfarce, prega por todo o lado que as crianças estão no centro das políticas educativas, mas ele próprio remete-as para a periferia, colocando o professor como a entidade que ali está para cumprir o superiormente determinado. Ora, quando o professor apenas transmite, quando a aprendizagem tem apenas um sentido, quando decorar o manual é prioritário relativamente à percepção da globalidade e transversalidade dos temas, quando a avaliação é determinante e não o verdadeiro saber, quando o pensamento e a dúvida são desvalorizados, quando se corre para o ensino superior com lacunas graves a vários níveis básicos, será que ninguém se interroga, ninguém coloca em dúvida a estrutura do sistema? Uma  coisa é conceder aos estabelecimentos de ensino a possibilidade de gerirem 25% do currículo; outra, é manter o formato organizacional e pedagógico. É mais do mesmo!
Regresso ao início, ao meu neto. Ele e os outros já perceberam que esta escola está desfasada do seu tempo, mas sabem que têm de cumprir o sistema. O círculo vicioso mantém-se, mas sabem que existem outros e melhores formatos de aprendizagem. Foi, por isso, com alguma ou total ironia que ele me disse: "avô, agora não, estou na escola"!
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

HÁ CRIANÇAS CUJAS MOCHILAS PAGARIAM EXCESSO DE BAGAGEM


Em Outubro passado deixei aqui um texto sobre o peso que as crianças são obrigadas a transportar nas suas mochilas. Parto, hoje,  deste excerto: "Estive à porta de uma escola. Eram 18 horas. Um ou outro saía com a mochila às costas ao encontro dos pais e/ou familiares, enquanto a generalidade usava um "trolley", tantos são os livros, cadernos, lanches, equipamentos de desporto e outros necessários ao "dia de aulas". Trata-se de uma escola que concentra crianças e jovens de várias idades, desde muito cedo até ao final da tarde. Pesei uma dessas "malas de viagem". Onze quilos e meio para uma criança de 5º ano, com cerca de 30 kg de peso corporal. Carrega, uns dias menos do que outros, um terço do seu peso. O peso da "mala da viagem escolar" diária, em uma companhia aérea de baixo custo, pagaria excesso de bagagem. 

A mochila de um dos meus netos! O peso deveria situar-se
entre os 3 e os 4 kg, mas transporta 11,5 kg.

O DN-Madeira de hoje volta ao assunto ("água mole em pedra dura..."), colocando em destaque: "Entre 2003 e 2017, os nossos alunos levaram às costas mais de dez quilos de material escolar, número que aumentou de 4,5 para 16% em 14 anos". Trata-se de um assunto recorrente sobre o qual têm falado e escrito professores, investigadores, médicos, psicólogos, sei lá quantos documentos já li sobre este assunto. Todos os anos o tema regressa e a passividade dos governantes mantém-se. Naquele texto de Outubro passado destaquei, ainda: "O sistema educativo esquece-se que as "(...) dores nas costas são a causa mais frequente das visitas ao médico. As doenças que afectam a coluna representam mais de 50% das causas de incapacidade física e que se estima que 7 em cada 10 portugueses sofrem ou já sofreram de dores nas costas. Independentemente deste factor de relevante importância no plano da saúde, a questão essencial que se coloca é se a formação básica se mede por quilos? Ou será, deixo às vossas considerações, que existem outros formatos de aprendizagem que conduzem ao saber dispensando a necessidade do sacrifício?"
O problema, portanto, não está na escola ter mais cacifos para que as crianças possam aliviar o peso que transportam. Este alerta da DECO, embora bem intencionado, constitui, apenas, um paliativo que não resolve o  problema de fundo. A questão, assuma-se, é de sistema educativo e do que se pretende que seja o ensino básico. Ou desejam, logo à partida, uma aprendizagem enciclopédica, descontextualizada da cadência do tempo de aprendizagem, tornando as crianças "burrinhos de carga", ou pretendem a busca do essencial, o alimento da curiosidade, o alicerce do conhecimento, a utilização da tecnologia, a criatividade, a pergunta em vez da resposta. Os governantes dão a perceber que ainda não entenderam que, através de novos enquadramentos, é possível aprender muito mais, repito, muito mais e de forma consistente, comparativamente ao velho sistema segmentado por disciplinas. Como não entendem ou sabem e não querem, permitem, então, que a irresponsabilidade se transfira para a mochila das crianças. E sendo assim, para o ano, nas vésperas de um novo ano escolar, os que se preocupam com estes temas, regressarão com o drama do peso das mochilas. Para já, nada a fazer, até que apareça alguém que corrija a situação.
Ilustração: Arquivo pessoal.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

QUANDO É "PROIBIDO" VER O MUNDO PARA ALÉM DOS MUROS DA ESCOLA


Os últimos dois meses foram, para mim, muito interessantes e motivadores. Por um lado, li, em primeira mão, o novo livro do meu distinto Amigo Professor Doutor Gustavo Pires sobre Pierre de Coubertin e a História do Movimento Olímpico. Antes da sua apresentação, que terá lugar ao longo do mês de Setembro, pediu-me que o lesse. Enriqueceu-me, sobremaneira. Um livro a não perder, por políticos, agentes desportivos, pais e jovens. Por outro lado, a vivência diária com os netos permitiu-me descobrir ou consolidar percepções que há muito venho alimentando. Porque uma coisa, para além da função docente exercida, é ler sobre temas de educação, sistema educativo e aprendizagem, outra, é estar atento ao que as crianças pensam e como agem no tempo que estão a viver. É sobre este aspecto que aqui deixo mais uma reflexão, quando se aproxima o dia do tal "regresso às aulas".


Não me restam dúvidas que, de Setembro a Junho próximo, será mais do mesmo. Tudo ficará confinado a uma palavra: rotina. Currículos genericamente iguais, programas e manuais para cumprir, sumários, tarefas e mais tarefas impostas e condicionadoras da autonomia das escolas, testes e grelhas de avaliação, discussões repetitivas e estéreis aos níveis de departamentos e conselhos de turma, muita burocracia, portas que se abrem e fecham ao toque da campainha, professores angustiados, direcções executivas a contarem cêntimos, enfim, está de regresso a normal anormalidade. Julho e Agosto já foram, para não falar dos meses anteriores, e da parte de quem tem o dever de governar a Região Autónoma, manteve-se o enervante silêncio cúmplice, correspondente ao aforismo "tudo como dantes no quartel-general de Abrantes". A criança que, teoricamente, dizem estar no centro das políticas educativas, pergunto, se alguém, no seu perfeito juízo, poderá assumir que esse é o desígnio? Ou será que a rotina, o sistema hierarquizado, centralizado e padronizado é preferível e mantido pelo receio de perda de influência política? Já não vou tanto pela linha da ignorância que obstaculiza a que os decisores políticos não saibam o que se está a passar. Até porque, hoje, existe tanta informação e tanta formação. Até marcam presença nas cerimónias de abertura, de congressos a seminários. O problema, por isso, parece-me ser acomodação, desleixo, falta de ambição e para quê mudar se isso só dá trabalho? Ora, isto a propósito de quê? Ah, dos netos, que fui olhando e analisando através dos detalhes das conversas e das atitudes. O que sentem, o que dizem, o que sabem, como olham para a escola e para a aprendizagem, não foi para mim uma novidade, mas mais do que isso, uma reflexão sobre as mudanças cada vez mais necessárias.
O mais novo, de dois anos, mexe no telemóvel e no ipad de uma forma que me espanta; os mais velhos dão-me lições de tecnologia. E dou comigo a pensar, mais dia menos dia, lá estarão em uma sala, presos a um quadro preto, sentados e alinhados, ouvindo e repetindo mecanicamente, mor das vezes, a repetição do manual, para depois debitarem nos testes e esquecer. Sentados e distantes da tecnologia e das ferramentas que eles próprios dispõem. E que as escolas, muitas, também têm, apenas para o que dá jeito. É o sistema que, genericamente, ainda continua a centrar no professor o conhecimento, quando esse conhecimento, pode e deveria estar à distância de um arrastar de um dedo sobre o ecrã ou de um clique. Não se trata de substituir o professor pelo "Dr. Google", mas de perceber que existe mais mundo para além do manual. E que a verdadeira aprendizagem é aquela que fica, aquela que é retida e que, pela vivência participada e sentida, possibilita a transferência, o que não é possível com aquela "injectada", descontextualizada e que não se relaciona com nada. Ler por obrigação é uma coisa; ler por gosto e sentido de curiosidade, de universo e de aprendizagem, é outra. E isso aprende-se sem ultrapassar etapas. Saber datas históricas é uma coisa; compreender e relacionar factos e tempos históricos a vários níveis é outra bem diferente. 
Ora, sendo a vida complexa, logo a aprendizagem deveria assentar em estudos sobre "fenómenos complexos". A vida, inclusive a de natureza profissional, não é um conjunto de disciplinas segmentadas. É um aglomerado de conhecimentos relacionados entre si, que implicam participação activa e não passiva, permanente questionamento, sentido de busca e dúvida. O sistema permite isto? Obviamente que não. O sistema quer a resposta, não quer a pergunta embaraçosa e desafiadora que, dizem, "faz perder tempo"; o sistema quer o cumprimento do sumário; quer as crianças sentadas e obedientes, não quer a azáfama pelo conhecimento; quer o programa tim-tim-por-tim-tim, porque o professor também tem de ser avaliado; quer o relatório, dispensa o conteúdo e os alunos; o sistema vive e prefere a falsa meritocracia, o teste, o exame, o quadro de honra e encolhe os ombros aos trágicos números do insucesso e do abandono; o sistema ama a Sociedade Industrial, a linha de montagem e abomina a inovação e a criatividade, porque são perigosas. E assim, com várias e distintivas excepções, o sistema é isto! Tudo igual, há dezenas de anos igual. Preferia uma escola sem muros, os tais que tolhem a capacidade de ver que existe mais mundo e curiosidades por descobrir. Alguns, conseguem espreitar subindo ao muro, mas por aí ficam. Infelizmente. O Ensino Básico deveria ser aquilo, mas não é! É limitador e desinteressante, castrador da inteligência e restritivo da curiosidade.
Ilustração: Google Imagens.

NOVO MANIFESTO – NÃO AOS TPC!


Mais um ano lectivo em que vai continuar tudo na mesma? Este é um tema extremamente controverso e, como tal, não existe uma opinião consensual sobre ele. O debate entre vantagens e desvantagens é infindável e há sempre quem defenda ou critique os tão “famosos” TPC. Por esse motivo, acho que vale a pena tentar abordar este assunto de forma mais ou menos objectiva, ressalvando apenas de que me irei debruçar sobre o 1º Ciclo do Ensino Básico, ou seja, entre o 1º e o 4º anos de escolaridade.


Como decerto já percebeu ao ler o título do texto, a minha opinião é de que os TPC nessas idades não deveriam existir, mas entendo perfeitamente que há pontos de vista diferentes, até porque não existem verdades absolutas. No entanto, confesso que eu, enquanto pediatra, estou plenamente convencido de que a maior parte das crianças estaria muito melhor sem TPC. Por tudo o que li e vejo diariamente, isso é algo em que eu acredito piamente…

VANTAGENS (aceito que possam ser usadas como um argumento a favor dos TPC, mas na verdade não concordo muito com elas):

- Ajudam a sedimentar a matéria

Este argumento fazia sentido quando as crianças tinham aulas só de manhã ou só de tarde. Nesses casos poderia ser útil fazer alguns trabalhos em casa para ajudar a consolidar o que aprenderam. No entanto, actualmente as aulas são de manhã E de tarde, pelo que me parece questionável até que ponto se torna necessário trabalhar também para além do horário estabelecido.

- Ajudam a disciplinar as crianças

É verdade que trabalhar implica alguma disciplina. No entanto, penso que esse tipo de aprendizagem pode também ser conseguido com outro tipo de actividades em que é necessário haver rigor, nomeadamente o desporto ou a música.

- Envolvem os pais

Sem dúvida que esta pode ser uma mais valia dos TPC (a meu ver, talvez a única). Contudo, o que se vê muitas vezes são os pais a fazer os trabalhos pelos filhos, só “para despachar”. Ou então, pior ainda, pagarem prolongamentos escolares ou centros de estudos para as crianças poderem fazer os trabalhos de CASA sem ser em CASA (estranho, não?). No fundo, “estica-se” as aulas e resolve-se o assunto sem que os pais tenham problemas. Esses ficam só para as crianças…

- São importantes quando as crianças têm mais tempo livre, para não esquecer o que aprenderam (por exemplo, aos fins de semana)

Para a maior parte das pessoas, a semana é (ou deveria ser) composta por 5 dias de trabalho e 2 de descanso. O que nós fazemos às crianças, quando as obrigamos a trabalhar mais um bocadinho ao fim de semana é exactamente “castigá-las” por terem tempo para descansar. Sei que pode parecer um pouco estranho ver as coisas desta forma, mas se todos nós fôssemos obrigados a levar trabalho para casa ao fim de semana, só porque temos 2 dias de descanso íamos certamente achar injusto.

DESVANTAGENS

- São muitas vezes monótonos e pouco estimulantes

A maioria dos TPC são a réplica do que se fazia há 20-30 anos atrás. Exercícios em que a repetição é a regra e não acrescentam nada de novo à capacidade de raciocínio das crianças. Se elas não se sentirem motivadas, torna-se ainda mais difícil aceitar que têm que trabalhar fora da escola.

- “Roubam” tempo às crianças

As crianças precisam de tempo para brincar e para ser crianças. Depois de 8 horas (pelo menos) na escola, com intervalos livres de tamanho “micro”, é preciso que elas tenham tempo para não fazer nada ou então para descobrir actividades diferentes, que lhes despertem outras áreas do desenvolvimento (desporto, música, arte, …). Não é à toa que as crianças digam que TPC significa Tortura Para Casa e não Trabalhos Para Casa!

- “Roubam” tempo às famílias

Grande parte dos pais trabalha até tarde ou tem horários laborais tão rígidos que lhes limitam o tempo disponível para estar com os filhos. Esse tempo deve ser de entrega total, de brincadeira sem regras e dirigida pelas crianças, pelo que os TPC são claramente um entrave a que isso aconteça. Entre banhos, cozinha e refeição pouco sobra para os momentos em família. Se lhes juntarmos os TPC (e os gritos e confusões que acarretam), o tempo acaba por fugir todo.

- São uma fonte de “guerras” e zangas

Apesar de haver excepções, em grande parte das famílias os TPC são uma fonte de discussões e outras “guerras”. As crianças estão cansadas, os pais estão cansados e preocupados com a hora de dormir dos filhos e acaba por se gerar a confusão. Entre gritos, ameaças e castigos chega a hora de dormir, porque no dia seguinte… há mais!
Estes são apenas alguns argumentos, muitos mais haveria ainda para discutir. Contudo, acho que o mais importante é mesmo que se pense seriamente sobre este assunto, de forma a que as pessoas não tenham medo de assumir as suas ideias.
Sei que há muitos pais e profissionais de saúde e educação que não partilham deste meu ponto de vista. E também sei que há crianças que precisam mais de trabalhar do que outras. Por isso mesmo, defendo que os pais dessas crianças possam trabalhar com elas se, em conjunto com o respectivo professor, chegarem à conclusão de que é a opção mais benéfica. Hoje em dia a oferta de exercícios e fichas (seja através da Internet ou livros específicos sobre o assunto) é tão vasta, que qualquer pai ou mãe que queira fazer alguns trabalhos com os filhos pode fazê-lo sem problema nenhum. Não me parece é que precisem de fazer todas as crianças, apenas por rotina.
Mais do que ser tempo de DIZER basta, é hora de PENSAR que se calhar basta mesmo. Acredito que as crianças, as famílias e até os professores irão agradecer. E, atrevo-me a arriscar, duvido imenso que o sucesso escolar das nossas crianças fosse diminuir. Pelo contrário, estou convencidíssimo de que provavelmente até iria aumentar!
Senhores Professores, o ano lectivo está agora a começar. Porque não dar o benefício da dúvida nas vossas escolas e iniciar o ano sem TPC? Se não resultar podem sempre voltar atrás. Como diz o ditado, “para melhor muda-se sempre”!

NOTA
Artigo publicado na revista VISÃO, pelo Pediatra Hugo Rodrigues

domingo, 13 de agosto de 2017

A LIBERDADE DE APRENDER "SEM PROGRAMA, TESTES, TRABALHOS DE CASA E HORÁRIOS"


Foi manchete do Jornal de Notícias de ontem: "Triplicam as crianças que têm escola em casa - Aumenta o número de famílias a optar pelo ensino  doméstico.  Defendem que menores ganham tempo para outras actividades". Não se trata de qualquer leviandade por parte dos pais. Apenas uma opção que pode conduzir até ao "Doutoramento sem nunca ter ido à escola", conforme assume o Professor Álvaro Ribeiro. "Devemos ter a humildade para saber as necessidades de cada filho (...) a flexibilidade de horário revelou-se uma das maiores vantagens da modalidade (...) a escola é muito absorvente. Mobiliza muito o tempo social da crianças", assume a mãe Laura. "A maioria dos alunos, se tivesse opção não estaria na escola e isso é muito grave", salienta a investigadora em Psicologia da Educação Inês Peceguina. "O acesso à educação tornou as pessoas mais críticas e exigentes", depois, insiste, o sistema de ensino em sala de aula pouco mudou (...)". A questão é exactamente esta. A rotina que mata e afasta. O tempo perdido em generalidades, vulgaridades e na insistência em assuntos cujas abordagens surgem desfasadas do tempo que estão a viver.


As famílias destacam, por isso, a liberdade de aprender "sem programa, testes, trabalhos de casa ou horário". Tomamos o pequeno-almoço todos juntos. Não nos levantamos a correr, nem nos preocupamos com a hora de deitar. É uma liberdade completamente diferente. As famílias escolhem este tipo de enquadramento porque as crianças apresentam-se "desmotivadas e esgotadas com prolongadas jornadas de trabalho" escolar. São já 661 crianças inscritas no ensino doméstico e individual. Crianças que apenas têm de realizar provas de equivalência a todas as disciplinas no final de cada ciclo, realizadas pelas escolas. As provas de aferição só são feitas se os pais o desejarem e os exames no secundário se quiserem concorrer ao Superior. E o curioso, se se trata de curiosidade, é que desta opção resultam boas classificações. E aqui não são "contabilizados" os conhecimentos que estão muito para além dos manuais e tudo aquilo que a escola tradicional não dá nem pode oferecer: as vivências culturais de todo o género que, devidamente enquadradas, valem muito. Achei interessante, neste trabalho da jornalista Alexandra Inácio, um pai assumir que o filho "aprendeu a aprender", que a opção foi ler muito, os livros e não os excertos, a preocupação de desescolarizarem tendo por objectivo o desenvolvimento da criatividade e o hábito de pensar.
É claro que a formação dos pais é determinante. A grande maioria tem ensino superior e actividades profissionais independentes que lhes permite o tempo necessário para o acompanhamento. O processo não é, de forma alguma, generalizável. O significado desta opção e destas experiências é aquele que coloca em causa o sistema tradicional de aprendizagem. Melhor dizendo, perante isto, o que é que o actual sistema tem de fazer para que a Escola não seja, para muitos, a "catedral do tédio". É preciso que os alunos contem, como li na peça de Clara Viana, em Abril de 2016: "(...) pode parecer pouca coisa, mas esse pouco, que em Portugal será sempre muito, poderia curar o crescente desamor dos jovens face à escola. Basta começar por lhes "dar voz", permitir que até no ensino secundário sejam eles a escolher disciplinas em função dos seus "interesses e talentos". Missão impossível? "(...) Se outros países já o fizeram, nós também podemos, embora isso signifique uma grande transformação do ensino em Portugal", responde Manuel Magalhães, 20 anos, que está a estudar no Instituto Politécnico de Leiria. É um dos seis jovens, entre os 16 e os 20 anos, a quem o PÚBLICO perguntou: o que pode ser mudado nas escolas para que estas (e o processo de aprendizagem) se tornem mais atractivos para os alunos. O problema reside aqui.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 12 de agosto de 2017

O SENTIDO DA OPORTUNIDADE E O PRINCÍPIO DA PRIORIDADE ESTRUTURAL


Olho para o cartaz e leio: "Um futuro para ti". Entusiasmei-me pela leitura da notícia do DN-Madeira e, infelizmente, defraudaram-se-me as expectativas. "Um futuro para ti" esgota-se em um intercâmbio de jovens, dos 18 aos 30 anos, entre as regiões da Madeira, Açores e Canárias. Designa-se por Academia do Jovem Voluntário e visa a participação em acções de apoio social e comunitário, desportivo, de saúde, defesa do ambiente e do património. Enalteceu o secretário da Educação: "(...) a noção de que o conhecimento, sendo hoje algo facilmente acessível, é importante que o tenhamos também de forma presencial. É importante conhecer lugares, pessoas e instituições (...) Esta é a geração das oportunidades. Nenhuma teve tanta oportunidade, teve tantos desafios como a vossa. Hoje, os jovens têm todas as condições para preparar o ingresso na vida activa. Não deixem passar ao lado estas oportunidades". Declarações destas não me fazem tirar do sério, mas deixa-me perplexo pelo sentimento que me envolve de um edifício construído pelo telhado.


Não condeno a iniciativa, obviamente, eu que defendo uma escola que ultrapasse os seus próprios muros. Uma escola que seja vida, vivência e convivência. Uma escola de cultura universal que rompa com estruturas ultrapassadas, fechadas nos currículos e programas, como se tudo aí começasse e terminasse. Não é, por isso, a iniciativa que está em causa (existem outras de natureza semelhante), mas o facto de constituir um "tiro" isolado, uma iniciativa desfasada de uma ideia maior de escola e sobretudo de aprendizagem que garanta futuro para os jovens. O que condeno é o desrespeito pelo princípio da prioridade estrutural e do aproveitamento sensato dos escassos recursos. 

A prioridade estrutural, no essencial, deveria, desde logo, obrigar a sair mesmo estando cá dentro.

Quando se olha para o sistema educativo e se detecta tanta fragilidade, insucessos e abandonos que envergonham, quando se olha para um mundo de absurdos em função do tempo que estamos a viver e da preparação que o futuro exigirá, quando se olha para as dificuldades de natureza financeira que limitam os projectos educativos escolares mais ambiciosos, (mesmo que esta iniciativa seja comparticipada) confronto-me com uma iniciativa que se dirige aos jovens entre os 18 e os 30 anos no quadro de um "Um futuro para ti". De que futuro estão a falar? Da emigração?
Ora, o futuro não se constrói com iniciativas isoladas, limitadas a um grupo(s) que, por força do orçamento, nunca será abrangente à maioria dos estudantes e dos outros que, pela idade, já se encontram fora do sistema. muitos no ensino superior ou já na vida activa. A prioridade estrutural, no essencial, deveria, desde logo, obrigar a sair mesmo estando cá dentro. Isso obrigaria a mudar tudo no sistema, garantindo a universalidade do PENSAMENTO que não se esgota, desde as primeiras idades, na resposta dita certa à pergunta constante do manual. De forma integrada, este é outro princípio do desenvolvimento que convém ter presente, então sim, as iniciativas têm o seu interesse e oportunidade. Desta forma, não, mostra-se desarticulada de qualquer ideia portadora de futuro. Porque "um futuro para ti", jovem, tem, necessariamente, outros contornos que não partem de uma "Academia do Jovem Voluntário". Não acredito e, certamente, poucos acreditarão em políticas que sobem os degraus de três em três!
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

FINALMENTE, ESTÁ DADO O PRIMEIRO PASSO. AINDA MUITO DISTANTE DO DESEJÁVEL, MAIS DE 20% DAS ESCOLAS VÃO PODER ESCOLHER COMO ENSINAR


Projecto-piloto arranca em Setembro e abrange 171 escolas públicas 61 privadas e quatro das sete escolas portuguesas no estrangeiro. Experiência só abrange os anos iniciais de cada ciclo de escolaridade. Por Clara Viana, Público, 10.08.2017.  


O segredo foi finalmente desvendado. No próximo ano lectivo serão 230 as escolas que irão testar as mudanças propostas pelo Ministério da Educação (ME) no âmbito do projecto-piloto da flexibilidade curricular, segundo revelou a tutela ao PÚBLICO. Deste total, 171 são escolas públicas o que corresponde a 21,1% da rede de oferta existente, que é constituída por 713 agrupamentos e 95 escolas não agrupadas.
No projecto estarão ainda envolvidas 61 escolas privadas e quatro das sete escolas portuguesas no estrangeiro. Segundo o ME, a lista com os nomes dos estabelecimentos de ensino envolvidos deverá “ser publicada nos próximos dias” no site da Direcção-Geral de Educação.

Escolas vão ter cinco horas por semana para inovar métodos de ensino


O novo modelo só será aplicado no primeiro ano de cada ciclo de escolaridade (1.º, 5.º, 7.º e 10.º). Às escolas foi deixada a decisão de fixar quantas turmas destes anos irão participar na experiência, o que por esta altura já deverá ser conhecido uma vez que as listas com a constituição de turmas foram afixadas no dia 28 de Julho, indicou o presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas, Filinto Lima.
O agrupamento de que é director (Dr. Costa Matos, em Vila Nova de Gaia) é um dos que integra o projecto-piloto. Tem cinco escolas e há 8 turmas que foram seleccionadas para o efeito: cinco do 1.º ano, uma do 5.º e duas do 7.º. No caso destes últimos dois anos, as turmas foram seleccionadas “com base no que foi a percepção do trabalho desenvolvido no ano anterior ou seja, tendo em conta as características dos alunos e os hábitos de trabalho dos alunos que lhes foram incutidos pelos seus professores”, esclareceu Filinto Lima, adiantando que reuniu antes com os pais das crianças.
O presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais, Jorge Ascenção, mostrou-se “apreensivo” pelo facto de nem o ministério nem as escolas estarem a informar os encarregados de educação sobre quem será abrangido por estas mudanças. “Os pais têm o direito de saber o que vai acontecer no próximo ano lectivo e isso não está a acontecer."
As escolas que vão inaugurar a experiência de flexibilidade curricular têm apenas uma obrigação: a integração na matriz curricular de duas novas áreas. São elas Cidadania e Desenvolvimento e Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC). É o que se encontra estipulado no despacho que regulamenta o novo modelo, que foi publicado no início de Julho.
Mas, se assim o entenderem, vão ter também 25% do tempo de aulas para tentar levar por diante novas formas de ensinar. O que passará pela constituição de novas disciplinas, mas também por várias outras soluções já apresentadas pelo Ministério da Educação. Uma possibilidade: a fusão de disciplinas em áreas disciplinares, em que dois ou mais professores “trabalham em equipa” na preparação das aulas, que podem ser dadas à vez por cada um ou em conjunto. Por exemplo: em vez de trabalhar de forma separada as disciplinas de Físico-Química e Ciências Naturais, a escola pode juntá-las com a carga horária equivalente à soma das duas.
Pode-se optar também pela alternância entre tempos de estudos tradicionais e semanas em que toda a escola trabalha em conjunto, numa perspectiva multidisciplinar, um só tema. Por exemplo, “a Europa” ou “a crise dos refugiados”. Esta é uma experiência que está a ser seguida na Finlândia.
O ME tem garantido que a nova experiência não implicará uma revisão curricular e que os actuais programas se manterão em vigor, mas os alunos abrangidos pela flexibilidade curricular terão novos documentos de referência, que se intitulam aprendizagens essenciais, e que irão, na prática, substituir as metas curriculares elaboradas durante o mandato de Nuno Crato. As escolas podem ainda optar por transformar disciplinas anuais em semestrais e os alunos do 10.º ano terão a possibilidade de trocar uma disciplina do seu curso por outra de um curso diferente.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

A URGÊNCIA DE UMA EDUCAÇÃO PELO DESPORTO


"No futebol jovem há agressões e ameaças a treinadores e pancadaria entre os pais das duas equipas. Todos querem ter o seu Cristiano Ronaldo para orgulho pessoal e sustento da família"


Esta síntese e as seguintes são do ex-árbitro internacional de futebol Duarte Gomes. 
"Regra geral a cultura desportiva dos miúdos é resultadista. É ganhar, ganhar, ganhar. Já não há um rival em campo, há um inimigo" (...) Isto está completamente desvirtuado em relação  ao que deve ser o crescimento competitivo de um jovem, que deve privilegiar valores como o respeito pelo adversário, o saber aceitar a derrota, mesmo com o erro do árbitro, assim como saber ganhar (...) Os pais estão formatados com a tal cultura de vitória a todo o custo e incutem-na nos filhos (...) Os pais colocam uma pressão tremenda nos miúdos, quando nestas idades se deve fomentar apenas o prazer de jogar (...)".
Pergunto: e por que está isto a acontecer? O que tem sido feito no sentido de alterar esta atitude, desde a escola ao clube?
Ilustração: Google Imagens. Revista Visão, 1274, 3 a 9 de Agosto de 2017.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

A BAIXA NATALIDADE E O SISTEMA EDUCATIVO


Os números são assustadores, apesar de se verificar uma ligeira tendência de recuperação. O tema natalidade é extremamente complexo, envolve muitas variáveis que não devem ser levianamente equacionadas. Confesso que não estou à vontade para tecer um comentário estruturado. Sei o que todos sabem: que o acesso universal à escolaridade e a concomitante entrada da mulher no mundo do trabalho, complementando, significativamente, as receitas familiares, não foi acompanhada de uma necessária reestruturação organizacional da sociedade e, particularmente, do mundo laboral. Trabalho, muitas vezes "escravo", determinado por objectivos a cumprir, conjugado com a precariedade, tornou-se sufocante e impeditivo da necessária confiança. Começou por aí. Depois, juntou-se o tempo de incerteza motivada pelas sucessivas crises de natureza económica. O tema é, portanto, apaixonante e merecia uma grande reflexão no sentido da inversão do saldo fisiológico. Não é, estou convencido, com esta ou aquela autarquia a facultarem € 100,00 por criança nascida que se altera uma questão estrutural.


Mas o que aqui me traz é um outro aspecto. Li, com merecida atenção, uma peça no DN-Madeira de hoje, assinada pelo jornalista João Filipe Pestana, que elenca os números de uma quebra de quase seis mil crianças, no primeiro ciclo de escolaridade, entre 2000/2001 e 2016/2017. O governo, perante estes dados, falou de "fusões" e de "reestruturações". Porém, questionado, não abordou duas questões que me parecem centrais: primeiro, que políticas pensa implementar no sentido da inversão deste quadro; segundo, que orientações serão tomadas para fazer desta "fraqueza" uma "oportunidade" no quadro de uma nova orientação estratégica do sistema educativo. O que pode significar que, no plano organizacional, curricular, programático e pedagógico, sobretudo no Ensino Básico, as mudanças continuarão a ser marginais, de roda do prato e não estruturantes e portadoras de futuro. Ora, quando tantas são as vozes, de investigadores a autores, que colocam em causa este sistema pobre, ineficaz, gerador de abandono e de insucesso (também por múltiplas razões), repetitivo, de cumprimento do manual, segmentado em disciplinas, fundamentado não no conhecimento relevante, mas na obsessão pela avaliação, esta poderia constituir uma grande oportunidade para perceber e implementar que há mais mundo para além dos muros da escola. 
Podem conceder à escola a possibilidade de 25% do currículo ser de sua iniciativa. Porém, não é isso que alterará o conceito de aprendizagem. A questão está na mentalidade dos professores no sentido da rejeição das características do actual sistema, está na organização interna, na aprendizagem por temas complexos, no trabalho não segmentado mas interligado, onde tudo tenha a ver com tudo, na aprendizagem que não impeça o questionamento ditado por razões de cumprimento dos programas. O conhecimento e o gosto pelo conhecimento estão muito para além do programa e do manual. Estas, entre muitas outras, deveriam estar na primeira linha das preocupações. Infelizmente, não estão.
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 25 de julho de 2017

CUMPRIR A CONSTITUIÇÃO


"A despesa dos manuais, assumida pelo Estado, é uma forma de a escola pública ser aquilo que a Constituição determina que é: gratuita. E mais, desde 2012, que se impôs a reutilização para as crianças que beneficiam da acção social escolar, que são cerca de 400.000, ou seja, um terço. Se a reutilização é possível para estas crianças, então tem de ser possível para todas. Deixará de ser um anátema trabalhar num livro reutilizado. A certa altura, o que terá o novo é que será estranho. Para mim, esta é a diferença entre Estado social e assistencialista. O Estado social garante para todos, não é para os ricos ou para os pobres. O Estado assistencialista é o que providencia àqueles que precisam."

"Num restaurante ninguém garante quantos almoços serão servidos por mês. O Estado não tem obrigação de assegurar um determinado nível de vendas de livros escolares a um agente económico. Há um grau de incerteza, próprio do mercado livre".

Declarações de Alexandra Leitão, Secretária de Estado Adjunta e da Educação.

sábado, 22 de julho de 2017

CRIANÇAS INTELIGENTES E ADULTOS ESTÚPIDOS


Diverti-me com a crónica de António Lobo Antunes. Acabei de a ler. É um texto delicioso para quem reflecte sobre o sistema educativo e o que significam as palavras aprendizagem e vida. Ele traz à colação Alexandre Dumas: "Porque motivo há tantas crianças inteligentes e tantos adultos estúpidos?" Só pode ser por um problema de educação, conclui. Adianta Lobo Antunes: uma criança criativa é herética e subversiva e claro que isso assusta os professores que exigem dos alunos uma normalização que conduz, inevitavelmente, à mediocridade que tanto tranquiliza os pais. Queremos que os filhos tenham vidinhas, sejam tristemente independentes, consigam um bom casamento, uma, tanto quanto possível, boa casa, um ordenado simpático (...)


Não há nada mais que assuste as pessoas do que a criatividade, nada que as apavore mais do que a diferença. A sociedade necessita de medíocres que não ponham em questão princípios fundamentais (...) Os programas de  televisão são quase sempre miseráveis. E queremos que as nossas crianças se tornem adultos miseráveis também, o que para as pessoas em geral significa responsáveis. (...) Gostamos dos idiotas porque eles não nos colocam em causa. (...) Temos medo do novo, do diferente, do que incomoda o sossego. A criatividade foi sempre uma ameaça tremenda.(...) Há muitas crianças inteligentes e adultos estúpidos porque matamos o máximo de crianças quando elas começam a crescer (...)".

Entretanto, cruzo os excertos do texto de Lobo Antunes com uma peça jornalística publicada no Expresso, assinada por Isabel Leiria: "Em duas cadeiras do 2º ano da Faculdade de Medicina do Porto chumbaram 50% dos alunos. Há dois anos foram notícia por terem entrado no Ensino Superior com as classificações mais altas do país. O aluno mais ‘fraco’ entre os 245 caloiros da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) ingressou com 18,67 valores de média. Este ano, a notícia é outra. Muitos acabaram por ser surpreendidos com as primeiras negativas do percurso escolar e com notas a que não estavam habituados. Em várias cadeiras, a média ficou nos 10 valores ou menos. A Morfofisiologia Integrativa e a Morfofisiologia dos Sistemas Respiratório e Urinário vários exames foram corridos a 6, 7 e 8 valores. E nestas duas unidades curriculares (são seis disciplinas ao todo no 2º semestre), as taxas de não conclusão foram de 53% e 48%, respetivamente."

O que será que tem a ver o texto de Lobo Antunes com os exames de Medicina, com o sistema educativo, com a aprendizagem relevante, com os alunos tidos por excepcionais, com a criatividade e a "morte" do pensamento ao longo do crescimento? Talvez seja a estupidez dos adultos, digo eu.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

E AGORA? UM GAP YEAR?

EDUCAÇÃO

O ano letivo está no fim. Na ordem do dia estão as malas para férias, mas também decisões variáveis conforme o escalão etário e o nível de ensino terminado. Que curso escolher? Que escola escolher? O que fazer a seguir? E se parasse um ano?


Paremos nesta pergunta. Desta questão, muitas vezes surgida como um pensamento que se esfuma com maior ou menor rapidez, decorrem, noutros casos, decisões de parar mesmo um ano. É o gap year, um conceito com uma história longa noutros países, mas mais recente em Portugal. Traduzido à letra, este conceito teria a designação de “ano de intervalo”, correspondendo também à denominação de “licença sabática”, que consiste num direito de que podem beneficiar diversas classes profissionais.
Centremo-nos na faixa etária jovem e nas transições entre o Ensino Secundário e o próximo nível de ensino; entre cada um dos ciclos universitários; entre o fim dos estudos e o início da vida profissional. Nesta faixa etária podemos ainda pensar noutras situações a exigir reflexão (de menor ou maior duração, com maior ou menor exploração); aponto um exemplo: a tomada da consciência de que não se gosta do curso em que se ingressou. Em todos estes momentos da vida, já com a resposta na ponta da língua ou sem nenhuma em perspetiva, surge a pergunta: E agora?
O gap year pode ser uma (boa) opção. Jamais aconselharia um jovem a enveredar por uma tal paragem sem um projeto, apenas por ócio ou inércia de tomar decisões. Esta paragem deve ser promotora de crescimento pessoal em diversas dimensões, carecendo, por isso, de um projeto.
Viajar e/ou fazer experiências profissionais são duas formas diferentes e enriquecedoras de ocupar um gap year.
Pode-se viajar (apenas) com intuitos turísticos, para conhecer outros povos, outras culturas, outras línguas. Abrem-se horizontes culturais, sociais, mentais. Aprende-se História. Relativiza-se o que se pode, até aí, ter dado como garantido, como, por exemplo, a ideia errada de que a nossa cultura é a cultura, passando-se a compreender, na prática, que a nossa cultura é apenas uma cultura entre tantas outras de igual valor.
Pode-se viajar para uma ou várias zonas do Mundo selecionadas para nelas integrar equipas que desenvolvem trabalho voluntário (as ONG atuam nessas áreas), que pode estar relacionado com a área de interesse profissional do jovem em questão, seja o ambiente, a saúde, a educação, entre muitas outras.
A realização de experiências profissionais pode passar por uma experimentação de uma ou várias atividades, nomeadamente sob a forma de estágios. Podendo ser feito dentro de portas portuguesas, um gap year deste género pode igualmente ter lugar noutros países.
Quando se faz um bom plano para o gap year, tudo está criado para que, no final, o jovem saia enriquecido e mais capaz de decidir e enfrentar o seu futuro, seja qual for a opção seguinte.
Em Portugal existe uma organização, a Associação Gap Year Portugal (AGYP), que, sem fins lucrativos, apoia os jovens que desejam fazer esse ano de paragem. Na sua página existem muitas informações de grande utilidade para conhecer e, eventualmente, preparar o gap year, de que destaco: sugestões de atividades, quais as vantagens do ano de paragem, como o preparar, como o custear, como viajar com segurança, orientação na elaboração de um plano, possibilidade de colocar questões.
Desejo boas férias, mas deixo novamente a pergunta: E agora?

NOTA
ARMANDA ZENHAS é Mestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, e concluiu o curso do Magistério Primário (Porto). É PQA do grupo 220 no agrupamento de Escolas Eng. Fernando Pinto de Oliveira e autora de livros na área da educação. É também mãe de dois filhos.

Artigo, de 14.07.2017, transcrito de EDUCARE

sábado, 15 de julho de 2017

"AI SENHORITA, QUEM ME DERA TER OS PROBLEMAS QUE A SENHORA TEM!"


Um sistema, por pior que seja, produz sempre alguma qualidade. O antigo sistema educativo, anterior a 1974, também produziu licenciados e doutores em tantas áreas do conhecimento. Ao tempo, muitos, excelentes. Alguns foram, até, homens e mulheres de ciência que deixaram marcas ainda hoje reconhecidas. Portanto, não há que engalanar em arco com os resultados dos últimos exames finais nacionais do ensino secundário. Parece-me ridículo. Obviamente que, dentro do actual sistema, não há que diminuir ou ignorar o esforço e a dedicação de professores e alunos no sentido da obtenção de resultados ditos de "excelência". Pelo contrário, há que dar os parabéns. Mas isso não significa que o sistema, de alto a baixo, esteja adequado ao tempo que estamos a viver. A questão que se coloca é esta: quantos não teriam atingido tais resultados ou mesmo melhores seguindo caminhos distintos? E quem são e quais as origens familiares dos alunos? Seria interessante um estudo desta natureza.



Aliás, ainda há poucos dias foi público, uma vez mais, o altíssimo e preocupante número de alunos que, na Região, "chumbaram" logo nos primeiros anos. A Madeira registou, em 2015/2016, 10,3% de retenções e/ou desistências no 3º ciclo do Ensino Básico. A pior taxa nacional. Mas apresenta tantos "vintes" no final do secundário. Esquisito ou talvez não. A peneira funcionou! Ora, não é pela minoria que apresenta "bons resultados" que este sistema, repito, este sistema, deve ser avaliado, mas pelos milhares que nunca lá chegarão. Interessa determinar quais as razões mais substantivas, a montante e a jusante do sistema que contribuem para o insucesso, o abandono e a falta de qualificações profissionais. Um sistema, que transporta a inflexibilidade, que continua a se basear na memorização e na reprodução do manual programático, é um sistema desconectado com o futuro, isto quando se sabe que uma larguíssima percentagem do que é referido como "aprendizagem" se destina ao esquecimento. Dir-se-á que nasce na aula, vive algum tempo até ser debitado em uma folha de exame e morre. Talvez em linguagem informática seja mais apropriado falar "reciclagem" ou "lixo". Delete!
Percorre-me a tristeza quando leio essa espécie de "guerra" entre escolas, porque uma teve mais vintes que a outra! Quem a promove faz por necessidade de afirmação, certamente, pressuponho que não pelo processo seguido. Simplesmente porque o processo, desde as primeiras idades, está inquinado, dizem-no tantos investigadores de várias áreas do conhecimento, autores, um sem número de dissertações e teses. E os adultos, governantes, direcções executivas e professores ficam felizes com os resultados, porque a tal excelência, no fundo, promove um apagão no mundo de desencantos, sentidos por alunos e professores. Nesta trágica sequência, ninguém fala, até, do matraquear até à exaustão das "explicações" particulares, o que me lava a concluir, se o sistema tivesse tanta excelência, naturalmente, os que podem, não se socorriam do trabalho extra! Ou não será assim?
Há uma pergunta que trago, diariamente, nas minhas reflexões: entre o "conhecimento" transmitido, aquele constante dos programas, e a resposta exemplarmente adequada à pergunta, a que consta do manual, o que resta de conhecimento relevante, aquele que pode ser retido, partilhado e com efeitos multiplicadores? Não é, certamente, um vinte a todas as disciplinas que torna um jovem globalmente desperto para a vida, verdadeiramente culto e disponível para cruzar os conhecimentos.
A este propósito, questionava-se Deborah Stipek, da Faculdade de Educação de Standford, em um estudo transversal realizado ao longo de 35 anos. A editorial da revista colocava em título: “A Educação não é uma corrida”. A investigadora é clara: “o sistema de exames produz especialistas em provas enquanto prejudica vidas que poderiam ser promissoras” (…) O sistema actual, baseado no desempenho em testes pode prejudicar muito a formação de grandes pensadores” (…) “Este ensino promove um verdadeiro extermínio de grandes mentes” (…) A maneira como a Educação está estruturada faz com que potenciais vencedores do Prémio Nobel sejam perdidos antes mesmo do final da educação básica”. 
Finalmente, há dias, transcrevi partes de uma entrevista ao Professor Miguel Santos Guerra, Catedrático na Universidade de Málaga. Regresso a essa entrevista e a uma pergunta do Jornalista de A Página da Educação: "Esta edição inclui uma reportagem sobre a pobreza infantil. É um dos muitos problemas e das realidades sociais com que os professores se deparam. As escolas estão preparadas para lidar com estas questões?" Respondeu o Professor: "(...) Há aqui um problema - a Escola está separada da vida, está distante dos problemas da realidade. Eu vejo aí um problema: os livros, os conhecimentos inertes que, por vezes, não têm que ver com a realidade. A Escola não pode permanecer separada dos problemas da vida, porque a Escola é para a vida. Há um artigo que conta a história de uma professora de Biologia que pergunta a uma adolescente quantas patas tem um artrópode. E a adolescente, suspirando, diz-lhe: "ai senhorita, quem me dera ter os problemas que a senhora tem...". Pensemos nisto e não na guerra de quem teve mais vintes!
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

AEC SEM TRABALHOS DE CASA E COM APOIOS PARA TODOS OS ALUNOS


Diretor-geral da Educação quer que se salvaguardem as brincadeiras das crianças e que se saia da sala de aula na planificação das Atividades de Enriquecimento Curricular (AEC) para o próximo ano letivo. O responsável quer evitar que o período curricular estique e a excessiva escolarização dessas atividades.

Numa carta enviada aos diretores das escolas e aos presidentes das câmaras municipais, das juntas de freguesias, das associações de pais e de instituições particulares de solidariedade social, o diretor-geral da Educação, José Duarte Pedroso, quer que no planeamento das Atividades de Enriquecimento Curricular (AEC) para o ano letivo 2017/2018 sejam tidos em consideração vários pontos importantes. Desde logo, que se salvaguarde o tempo de recreio necessário para as brincadeiras livres das crianças.
O responsável chama a atenção para mais aspetos. Eliminar o agendamento de trabalhos de casa, que não se esqueça o carácter lúdico das AEC que se devem orientar para o desenvolvimento da criatividade e das expressões dos mais novos, que se utilizem espaços, materiais, contextos e outros recursos educativos diversificados de forma a evitar a permanência nas salas de aula. O diretor-geral recorda ainda que é preciso garantir os apoios necessários para que todos os alunos, sem exceção, possam participar nas atividades, independentemente das suas capacidades e condições de saúde, e, por outro lado, que todas as componentes do 1.º ciclo sejam abordadas pelo professor da turma durante o período curricular.

"Não paramos de brincar porque envelhecemos; envelhecemos porque paramos de brincar. Espera-se que esta seja uma instrução para cumprir. Atrevam-se a cumprir e são os miúdos que ficam a ganhar!” - Bernard Shaw


“Brincar permite que as crianças explorem o mundo que as rodeia, criando universos que conseguem dominar, desenvolvendo a criatividade, a autoconfiança e a resiliência necessárias para lidar com as incertezas e mudanças aceleradas que o futuro lhes reserva”, sublinha o responsável.
Relatórios e estudos têm vindo a alertar para a excessiva escolarização das AEC que, como recorda José Duarte Pedroso, “se traduz em ofertas de carácter segmentado, disciplinar e formal, pouco articuladas com o período curricular e com o projeto educativo dos agrupamentos de escolas”. O diretor-geral da Educação refere que, se nada mudar, o período curricular pode estender-se a cerca de 30 horas semanais. Juntando-se a componente de apoio à família, refere, “poderemos estar perante horários escolares superiores a 35 horas semanais, para crianças de apenas 6 a 10 anos de idade”.
“As AEC configuram, antes de mais, um importante instrumento de política educativa orientado para a promoção da igualdade de oportunidades, a redução das assimetrias sociais e o sucesso escolar”, sustenta. O responsável acredita que ao salvaguardar a natureza das AEC, bem distinta do período curricular, se criam condições “para que os alunos e suas famílias aí encontrem respostas para as suas necessidades e anseios”.
A Federação Nacional dos Professores (FENPROF) gostou das palavras e indicações do diretor-geral. “Deixando para trás todas as piadas sobre esta coisa da ‘escola a tempo inteiro’ que sobre este assunto se produziram, desde as que foram feitas sobre ‘porque não deixar os miúdos a dormir na escola? Ao menos não chateavam!’, o ME veio, agora, finalmente, escrever o que consta do arquivo reivindicativo dos professores sobre esta matéria”, comenta no seu site. A introdução da carta surpreendeu a organização sindical. “Pasme-se o atrevimento de se transcrever Bernard Shaw, a abrir: Não paramos de brincar porque envelhecemos; envelhecemos porque paramos de brincar. Espera-se que esta seja uma instrução para cumprir. Atrevam-se a cumprir e são os miúdos que ficam a ganhar!”, refere.

NOTA

Publicado na página EDUCARE

quinta-feira, 6 de julho de 2017

A ESCOLA DO FUTURO


Há que caminhar,  porque quanto mais tempo o sistema educativo mantiver as características actuais, mais distante ficará das necessidades do futuro. Não apenas isso, mas também menos interessante será para as crianças e jovens. 



terça-feira, 4 de julho de 2017

“EDUCAÇÃO PERMANENTE EM TEMPO DE MUDANÇA: SABER PARA TRANSFORMAR”


Transcrito do DN-Madeira.

"Ana Benavente, da Universidade Lusófona, disse que “é assustadora” a forma como importam modelos educativos de fora, como o americano que, segundo a especialista, está muito na “moda”. Mas isso não significa que sejam os mais indicados, até porque, na sua óptica, “não trazem nada de novo e afectam o campo educativo”.

"Chegou a Portugal a moda americana em que tudo tem etiqueta. Por exemplo, o aluno é hiperactivo ou outra coisa qualquer, mas não se questionam as condições de vida das pessoas e a razão pela qual as coisas são assim”, disse, esta manhã, na Universidade da Madeira (UMa), na conferência ‘O que investigar em educação? Produção de conhecimento e impactos institucionais e sociais’, que se realizou no âmbito do II Encontro de Jovens Investigadores em Ciências da Educação.
Ana Benavente referiu que em Portugal os sucessivos governos preocupam-se em inaugurar escolas e as respectivas placas sem terem em conta que “os tempos são diferentes”. E, por isso, lamentou o facto de os governantes estarem constantemente a “regressar ao passado” em vez de se “virarem para o futuro”.
A especialista afirmou que tudo isto faz com que a educação em Portugal não passe do que é actualmente. E, de repente, de ano para ano “voltam às mesmas disciplinas e aos mesmos exames” sem nada de novo a acrescentar. Mas fez questão de frisar que em educação “os saberes não se consolidam” e, neste campo, “estamos sempre a partir do zero”.

NOTA

Deixo aqui uma intervenção, produzida em 2016, sobre o tema Educação Permanente.