sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

FALTA MUITO TPC POLÍTICO


Em complemento ao texto ontem aqui publicado, li a mensagem de hoje do secretário regional da Educação, dirigida aos jovens: desejamos "jovens activos, participativos, para que possam ter uma palavra a dizer na construção do futuro". Senhor Secretário Regional, importa-se de repetir? É que não podem existir jovens "activos e participativos" quando é o próprio sistema educativo que, desde início, coarcta tal meritório desígnio. O que hoje existe é a repetição de ontem, que por sua vez repetiu anteontem, é a existência de uma cadeia hierárquica de cega obediência que não possibilita, genericamente, é claro, ser activo, inovador, criativo e, por extensão, participativo. Nem por parte dos professores, muito menos por parte dos alunos. 


Tantas vezes o digo, no ensino básico, na idade das perguntas o sistema quer, apenas, as respostas do manual. O manual deixou de ser um meio para tornar-se em um fim. Por outro lado, tome-se consciência que este é um sistema heterónomo que não deixa muitas possibilidades para que a diferença organizacional e pedagógica faça o seu caminho e tenha êxito. A padronização e a centralização matam, repito, esse meritório desígnio. Portanto, aquelas são palavras ditas, no espaço do politicamente correcto, porém, sem um substrato que conduza à sua concretização. Quando manifestamos aquele desejo, obviamente, que temos de ser consequentes, eu diria, através do TPC (trabalho para casa) político que implica a reinvenção do sistema educativo. Ora, um sistema travestido de democrata, onde, lamentavelmente, impera a norma, a subserviência e o concomitante medo, obviamente que o cumprimento do programa, a sensação patológica da angústia (de professores e alunos) não permite o espaço necessário para uma formação estruturada nos princípios e nos valores que conduzem a seres activos e participativos. O sistema, por mais pinceladas de cor, assemelha-se a uma espiral cinzenta para dentro, não a uma espiral verde que parte do aluno (centro) para fora. Portanto, o sistema não liberta para a acção e para a participação, antes convida a entrar no rebanho da repetição e do histórico convencimento salazarista, assente no princípio que os jovens não precisam de pensar porque alguém pensa por eles. O problema é esse. Salvam-se alguns, como em todas as épocas e mesmo com os piores sistemas, a maioria, no entanto, fica pelo caminho na tal participação na "construção do futuro".
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

OH ROTINA QUE TANTO MAL FAZES ÀS CRIANÇAS E AOS ADOLESCENTES


A 20 de Setembro de 2009, em nome do grupo parlamentar do PS na Assembleia Legislativa da Madeira, apresentei um Projecto de Decreto Legislativo Regional sobre o Regime Jurídico do Sistema Educativo Regional. Tratava-se de um ponto de partida, não de chegada. Foi chumbado pela maioria PSD e contou com a aprovação dos restantes grupos parlamentares. O extenso documento foi objecto de muitas consultas, entre investigadores, educadores e professores de todos os níveis, conselhos executivos, sindicatos, análises comparadas com outros sistemas educativos e, naturalmente, uma revisão da literatura existente. Entretanto, passaram-se oito anos, duas legislaturas, e os valores, relativamente ao número de alunos por turma, continuam distantes do aceitável. Pelo contrário, a partir das recentes declarações do secretário da Educação e apesar dos números serem referenciais, as médias apresentadas assemelham-se à história de dois amigos em que um comeu dois frangos, porém, a média estatística foi de um frango por cada. Um exemplo: tenho um neto, no 2º ciclo, cuja turma tem 25 alunos, mas a média regional é de 22!



NÚMERO DE ALUNOS POR TURMA*


PROPOSTA DO PS-MADEIRA
SECRETARIA DA EDUCAÇÃO
Creche
10
12
Pré-escolar
18
20
1º ciclo
18
21
2º e 3º ciclos
16
22
Secundário
14
22

Ora, o que está aqui em causa é a (re)organização do sistema que tarda, uma outra concepção da rede de estabelecimentos de educação e ensino e, tão importante quanto isso, a determinação do que se pretende atingir com o sistema educativo. Este aspecto não está, de todo, clarificado. Desde sempre o que o sistema tem pretendido é que as crianças e jovens vão ultrapassando as sucessivas etapas, porém, com que objectivo e de que forma, tal pouco tem interessado. Para que serve o currículo estipulado e para que servem os extensos programas com repetidas particularidades, tais interrogações não têm feito parte das preocupações estruturantes do sistema. Muita burocracia, muitas grelhas para preencher, muitas circulares, muitos normativos, muito big-brother, muitas reuniões ditas "pedagógicas", de departamento, de grupo e de turma, mas, afinal, tudo converge para uma pescadinha de rabo na boca. O sistema é circular! Obediência cega tornou-se exigência e quem sair fora do padrão estipulado pode ser visado. Adiante.
O conceito de turma e de aula não é discutido. Talvez porque dê muito trabalho PENSAR um sistema preparado e adequado aos novos tempos. Disse o experiente investigador e pedagogo José Pacheco respondendo a uma sua interrogação: "(...) se eu dou aula, preparada ao pormenor, e eles não aprendem, talvez não aprendam porque eu dou aula". Pois, é isso mesmo. Mudar o conceito de aula e de turma, alterar as preocupações de natureza pedagógica, onde no centro deve estar o aluno e não o "magister dixit" que fala, fala e fala, partir à descoberta para estruturar o conhecimento, utilizando toda a tecnologia pessoal ou da escola, gerar o princípio que a escola não pode nem deve confinar-se às ditas "salas de aula", a uma campainha, disciplinas, programas e testes, eu sei, dá muito trabalho! Só que, lá vem a propósito George Gusdorf: "o mais alto ensinamento do mestre não está no que diz, mas no que não diz". 

O Ensino Básico deveria ser, por isso, a grande explosão do pensamento crítico visando a estruturação do conhecimento secundário e universitário. Deveria ser, antes de mais, a explosão da cultura geral, a capacidade para cruzar toda a informação disponível, a competência para ler, compreender, escrever e elaborar textos com pensamento e qualidade. 

O Ensino Básico não é nada disto, por maiores que sejam as intenções das instituições e dos projectos de natureza avulsa que invadem os estabelecimentos de educação e ensino. O sistema chegou a um ponto que, grosso modo, se preocupa muito mais com a avaliação do que com o verdadeiro conhecimento. O manual continua a prevalecer relativamente à capacidade de PENSAR. Para o sistema, desde o primeiro dia do ano escolar, a grelha de avaliação, com tantas colunas e percentagens, vale mais do que a estrutura, o alicerce a partir do qual poderão ser erigidas as colunas e vigas dos patamares superiores do conhecimento. Para o sistema, os relatórios, muito enfeitados de palavras e números, mesmo que vão, logo de seguida, direitinhos para o arquivo morto, são mais importantes que as sementes que deveriam ser lançadas no tempo certo. 
Depois, tarde de mais, quando já é muito difícil corrigir percursos, quando o desânimo rouba a esperança, vêm os apoios e mais aulas, no quadro da mesma mentalidade pedagógica. Não sabem Português, pois bem, mais Português; não sabem Matemática, pois bem, tomem lá mais Matemática. E ninguém pára para reflectir, desde a estrutura e debilidades da sociedade a montante da escola, até à organização pedagógica vigente. É isso José Pacheco, "(...) se eu dou aula, preparada ao pormenor, e eles não aprendem, talvez não aprendam porque eu dou aula". O secretário que pense nisso! E que pense nas causas das 107 ocorrências criminais nas escolas, noticiadas na edição de hoje do DN-Madeira.

Nota
*A proposta (número de alunos por turma), constituía um primeiro passo para uma outra visão e enquadramento das aprendizagens.
Ilustração: Arquivo próprio. 

domingo, 10 de dezembro de 2017

MANUEL SÉRGIO, O FILÓSOFO, O PROFESSOR.


Tenho uma enorme admiração pelo Professor Doutor Manuel Sérgio. Somos muito Amigos. Embora distante, quase todos os dias, nas minhas reflexões, sinto-o por perto. A sua Obra é intemporal. Isso, digo eu, diz tudo. Há dias foi condecorado pelo Senhor Presidente da República. Uma Comenda que só peca por tardia. Justíssima.


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

ORÇAMENTO REGIONAL PARA 2018 - SECTOR DA EDUCAÇÃO

 
Recebi, do Sindicato de Professores da Madeira, o seguinte comunicado:

Car@ colega,

Depois de a analisarmos com atenção, não podemos disfarçar a desilusão que sentimos ao conhecer a proposta de Orçamento Regional para 2018 apresentada no passado dia 24 de Novembro. 
Na verdade o Governo Regional ignorou por completo a vontade e as legítimas reivindicações dos docentes manifestadas nas várias iniciativas promovidas pelo SPM ao longo dos últimos meses. Efetivamente, os docentes têm demonstrado o seu descontentamento e determinação na luta pela recuperação dos seus direitos em vários momentos, nomeadamente:
- na adesão à greve nacional do dia 27 de Outubro com toda a Administração Pública e na manifestação do mesmo dia, que contou com a participação de mais de 200 docentes;
- na elaboração do Caderno Reivindicativo, aprovado na Assembleia-Geral do SPM no dia 23 de outubro e apresentado ao Sr. Secretário de Educação, na reunião do dia 8 de novembro;
- na adesão à greve nacional de professores e educadores do passado dia 15 de Novembro, na manifestação desse dia no centro do Funchal, que contou com a participação de várias centenas docentes, e na aprovação, por unanimidade, da resolução, posteriormente entregue nos gabinetes dos senhores Vice-Presidente e Secretário de Educação;
- no promoção das reuniões com todos os partidos com assento na ALR, realizadas entre os dias 16 e 28 de novembro, para apresentação das preocupações e reivindicações do SPM (foram distribuídos a todos o Caderno Reivindicativo, a Resolução aprovada na manifestação de 15 de novembro e as petições, além do diploma sobre a transição dos docentes do Conservatório do regime privado para o público), tendo em vista o Orçamento Regional para 2018;
- na subscrição das petições, promovidas pelo SPM, “Trabalhamos, o tempo de serviço é nosso” e "Redução da Componente Letiva para o Pré-Escolar e 1.º Ciclo", que, em cerca de 3 semanas, ultrapassaram, largamente, o mínimo exigível para serem debatidas em plenário da ALR;
- na participação no processo de auscultação online sobre o processo de descongelamento, recuperação e contagem integral do tempo de serviço dos períodos de congelamento, na RAM, promovido entre 20 de Novembro e 3 de Dezembro.
Porque em todas estas iniciativas, ficaram claras as posições dos docentes quanto às matérias em causa e a determinação de continuarem a lutar pelo respeito dos seus direitos, o SPM prepara novas ações de luta neste período de discussão e aprovação do Orçamento Regional para 2018. 
Certos de que esta luta é de todos os docentes, independentemente do seu vínculo contratual, tempo de serviço, idade ou escalão em que se encontre, contamos com o seu envolvimento nas ações que se avizinham, para obrigarmos os nossos governantes a respeitar-nos e a repor os direitos que nos foram sonegados por motivos alheios à nossa atuação e competência profissionais.

Saudações sindicais,

A Direção do SPM

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

APENAS UM PRIMEIRO PASSO



O problema é, no quadro da AUTONOMIA regional, não se saber para onde caminha o Sistema Educativo. Neste momento, constata-se uma política de mera gestão administrativa. Lamentável!

domingo, 3 de dezembro de 2017

DIA INTERNACIONAL DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA


A agenda das consciências determina que hoje se cumpra o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência. Como sempre, umas notas que não se desactualizam, lamentavelmente. Talvez menos do que o habitual. é Domingo, durante o dia de hoje surgirão peças na comunicação social, ouvir-se-á alguma da retórica política aplicável à matéria em apreço com referência a iniciativas ou intenções, teremos até alguns testemunhos, positivos e negativos, de pessoas com deficiência. Assistiremos a algumas eventos das instituições e movimentos que operam nesta área, referir-se-ão alguns avanços de natureza tecnológica, como se sabe as tecnologias mudam mais depressa que as pessoas e amanhã o mundo volta-se para outra questão que a agenda das consciências determine.


Participei em algumas iniciativas e tive de recusar convites para outras.
Em primeiro lugar deve dizer-se que, como acontece em outras áreas, a legislação portuguesa é globalmente positiva (no caso da educação tem alguns aspectos a carecer de ajustamento pois são facilitadores de exclusão como muitas vezes tenho defendido) e promotora dos direitos das pessoas, mas a sua falta de eficácia e operacionalização é bem evidenciada na tremenda dificuldade que milhares de pessoas experimentam no dia-a-dia. Durante este ano regista-se o avanço na legislação sobre a independência e autodeterminação e apoios sociais.
No entanto e como exemplo é notória a falha na fiscalização e cumprimento das disposições legais relativas às questões das acessibilidades e barreiras nos edifícios, mobiliário urbano e acessibilidade em geral. As normas de construção não são respeitadas, mantendo-se em edifícios novos a ausência de rampas ou a sua existência com desníveis superiores ao estabelecido, constituindo, assim, um risco sério de queda.
O resultado é a existência de muitos serviços públicos e outro tipo de equipamentos de prestação de serviços com barreiras arquitectónicas intransponíveis, a que os cidadãos com deficiência só podem aceder com ajuda de terceiros e, mesmo assim, com dificuldade.
Os transportes públicos de diferente natureza também colocam enormes problemas na acessibilidade por parte de pessoas com mobilidade reduzida.
Para além deste quadro, suficientemente complicado, ainda há que contar com a prestimosa colaboração de muitos de nós que estacionamos o belo carrinho em cima dos passeios, complicando ou proibindo, naturalmente, a circulação de cadeiras de rodas. Os passeios, nem sempre com as medidas determinadas por lei, são, por vezes e quase na totalidade, ocupados com esplanadas que, claro, são só mais uma dificuldade para muita gente.
A vida de muitas pessoas com deficiência é uma constante e infindável prova de obstáculos, muitas vezes intransponíveis, que ampliam de forma inaceitável a limitação na mobilidade que a sua condição, só por si, pode implicar. No entanto, muitos dos obstáculos têm a ver com barreiras físicas, remetem para a falta de senso, incompetência ou negligência com que gente responsável(?) lida com estas questões.
Na verdade, boa parte dessas dificuldades decorre do que as comunidades e as suas lideranças, políticas por exemplo, entendem ser os direitos, o bem comum e o bem-estar das pessoas, de todas as pessoas.
Também para as crianças com deficiência e respectivas famílias a vida é muito complicada face à qualidade e acessibilidade aos apoios educativos e especializados necessários apesar do empenho e profissionalismo da maioria dos profissionais que trabalham nestas áreas. Os tempos que correm são particularmente gravosos nesta matéria como muitas vezes tenho afirmado.
Como é evidente, existem muitas outras áreas de dificuldades colocadas às pessoas com deficiência, designadamente apoios sociais, qualificação profissional e emprego, em que a vulnerabilidade e o risco de exclusão são elevados traduzido em taxas de desemprego entre pessoas com deficiência muitíssimo superiores à verificada com a população sem deficiência.
Uma referência ainda ao que deve ser um princípio não negociável, a inclusão em todos os domínios da vida das comunidades.
É verdade, como escrevia há pouco que a questão da inclusão, em particular da inclusão em educação, é presença regular nos discursos actuais. É objecto de todas as apreciações, ilumina todas as perspectivas e acomoda todas as práticas, incluindo, cá está a inclusão, o que manifestamente não promove inclusão, antes pelo contrário. O termo está tão desgastado que já nem sabemos bem o que significa. Conheço tantas práticas e tantos discursos que alimentam exclusão e que são desenvolvidas e enunciados ... em nome da inclusão. Cada vez mais me lembro do Mestre Almada Negreiros que na "Cena do Ódio" falava da "Pátria onde Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões".
A inclusão assenta em cinco dimensões fundamentais, Ser (pessoa com direitos), Estar (na comunidade a que se pertence da mesma forma que estão todas as outras pessoas), Participar (envolver-se activamente da forma possível nas actividades comuns), Aprender (tendo sempre por referência os currículos gerais) e Pertencer (sentir-se e ser reconhecido como membro da comunidade). A estas cinco dimensões acrescem dois princípios inalienáveis, autodeterminação e autonomia e independência.
As pessoas com deficiência não precisam de tolerância, não precisam de privilégios, não precisam de caridade, precisam só de ver os seus direitos considerados. Os direitos não são de geometria variável cumprindo-se apenas quando é possível.
Este é o caderno de encargos que nos convoca a todos, todos os anos, todos os dias.

NOTA
Texto assinado por José Morgado, no blogue INCLUSO

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

PROVAS DE AFERIÇÃO


As provas de aferição servem para aferir o quê? Que consequências elas têm no plano material, pedagógico e didático? Fazer uma prova de aferição num segundo ano quando a criança ainda nem sabem ler e escrever com desembaraço suficiente? Aberração! Fazer provas de aferição para dizer que as escolas de Lisboa e do Porto têm melhores resultados do que as escolas do interior? Que as escolas inseridas em meio sócio-económico desfavorecido apresentam resultados aquém da média regional e nacional? E daí? 


Que consequências vamos obter desta reflexão de estatísticas vazias de sentido? Vão os professores das “best scholls” vir às outras escolas transmitir a magia de ensinar melhor? Ou vão dizer apenas que os seus alunos provêm de estratos sócio-económicos mais favorecidos, onde não falta o pão, onde o peso das dívidas não é preocupante para os encarregados de educação, onde os pais têm mais formação para apoiar didaticamente os seus filhos. Mude-se o País por completo, tornando-o menos desigual do ponto de vista económico e social e só depois disso tudo (...)"

NOTA

Texto publicado, hoje, nas "Cartas do Leitor" do DN-Madeira, assinada por Carlos Pereira.

sábado, 25 de novembro de 2017

ÓDIOS DE ESTIMAÇÃO


Se há algo que ainda hoje não percebi, esse algo é o ódio de estimação que a opinião pública nutre pelos professores. É um sentimento quase irracional que redunda na diabolização destes profissionais e que se revela, sem pejo, sempre que eles são notícia, seja por este, seja por aquele, seja por qualquer motivo. Tudo vale para que, em uníssono, a sociedade lance as mais imaginativas imprecações contra os docentes como se estes fossem a real encarnação do mal.


É claro que a reação é ainda mais veemente quando, sobre a mesa, está a demanda de direitos como aconteceu há uma semana. Aí é o deus nos acuda! A população, qual donzela ofendida, indigna-se a viva voz como se assistisse a uma inaudita ousadia por parte de quem, supostamente, já tem muito a agradecer pela simples razão de existir e de ter trabalho. Para comprová-lo, aliás, é só se demorar nas “análises” de alguns comentadores e/ou jornalistas que, usufruindo de jeitosas retribuições para glosar o lugar comum, logo se aprontam a fazer contas sobre o impacto das reivindicações docentes no erário. Ou, para quem preferir um exercício menos intelectual, basta perder algum tempo nos comentários de autoria duvidosa que acompanham as notícias online sobre os professores. Quer uns, quer outros, deixam transparecer, claramente, a bílis comunitária a fervilhar, destilando raiva contra esses malandros que têm férias três vezes ao ano.
Nem os maiores escândalos políticos ou financeiros nem a diferença salarial de género nem mesmo o delírio patológico de Sócrates conseguem mobilizar tanta antipatia como os professores. Eles são o alvo a abater. Porque ganham mais do que merecem. Porque são uns mandriões. Porque só trabalham meio dia. Porque querem progredir na carreira automaticamente. Porque não se fazem respeitar. Porque se armam em espertos. Porque são uns tiranos. Porque não sabem ensinar... Porque não sabem nada... Porque... Porque... Porque...
Como se não bastasse tanta energia negativa do lado de lá, do lado de cá, o do sistema educativo, a situação não é melhor. Bem pelo contrário. Quem faz a lei, com efeito, vai paulatinamente transformando os professores num espécime estranho, cuja última função é a de abrir caminhos para mentes mais ou menos brilhantes. Antes de chegar à sala de aula, o professor, na verdade, perde-se em meandros de burocracia absurda; em telefonemas a encarregados de educação que fazem da escola um mero armazém dos seus educandos; em contactos sistemáticos com psicólogos, assistentes sociais e até agentes policiais; em insultos, ameaças e humilhações de discentes que, conhecendo as sinuosidades do sistema, o ludibriam descaradamente; e ainda em muitas outras coisas mais que, por decoro e amplitude, não caberiam numa prosa deste tipo.
E, mesmo assim, para muitos, os professores não valem o chão que pisam. E, mesmo assim, para os professores, a docência ainda continua a valer a pena. Mesmo que, cada vez mais, entrar numa sala de aula seja um verdadeiro desafio, não intelectual, mas, sobretudo, de resiliência, porque, diante de cada docente, há uma geração hipersensível a qualquer observação sobre o seu comportamento e que exige um tratamento de igual para igual. Uma geração que cresceu ouvindo à mesa os pais dizer que os professores são uns pacóvios ao serviço de um sistema pleno de direitos mas sem deveres para quem está na escolaridade obrigatória. Uma geração que, paradoxalmente, brinca com a tecnologia mas desdenha o saber, sem mediano termo entre o direito de afirmação e o dever do respeito.
Por isso, não deixa de ser irónica a impopularidade da classe docente. É que, se é verdade que a mão que embala o berço é a mão que governa o mundo, também é um facto que, quando essa mão falha, é a dos professores que pode salvar esse mesmo mundo. Quem ainda não o percebeu, precisa de voltar aos bancos da escola. Não para rever teorias, mas para aprender a lição de que a humildade é a fonte de toda a sabedoria. Eu, jornalista, professora, encarregada de educação e, sobretudo, mãe, já a aprendi.

NOTA
Artigo de opinião, da autoria da Drª Eker Sommer, publicado na edição de hoje do DN-Madeira, e aqui reproduzido com a devida vénia.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

ESTÃO EM CAUSA O SECRETÁRIO REGIONAL DA EDUCAÇÃO DA MADEIRA E OS PROFESSORES QUE DIRIGEM ESCOLAS


Apenas mais um contributo, em desenho animado, visando um Sistema Educativo decente e com futuro. Parem, reúnam e pensem no caminho errado que estão a seguir. Professores, revoltem-se, não apenas pela justa contagem do tempo de serviço prestado, mas também pela mediocridade do sistema educativo. Revoltem-se contra a apatia e a inexistência de políticas portadores de futuro. Revoltem-se contra políticos que "juram" repetir o passado, maltratam as actuais gerações e coarctam as iniciativas que tentam a ruptura. Revoltem-se contra a pobreza que chega à escola. Revoltem-se contra a excessiva burocracia e contra um sistema tipo pronto-a-vestir. Revoltem-se contra um sistema que bloqueia a imaginação, a  criatividade e que não dá margem a emergência do pensamento. Revoltem-se contra o cumprimento de programas desarticulados, sem nexo e desprovidos de cultura. Revoltem-se contra a falta de autonomia nas escolas, contra um sistema hierarquizado, centralizado, padronizado, estúpido e que impede organizações diferenciadas. Revoltem-se contra reuniões de departamento, de grupo e de turma que, genericamente, nada adiantam. Revoltem-se contra uma cretina avaliação baseada em "conhecimentos de manual", muitos para esquecer. Revoltem-se contra a subserviência e o medo. Revoltem-se contra a falta de financiamento. Revoltem-se contra o espezinhamento da função docente. Revoltem-se contra o excessivo número de alunos por escola e por turma. Revoltem-se contra a ausência de assertivas políticas de família. São tantos os sinais que evidenciam que este é um caminho errado e que o futuro não se constrói com receitas mofentas. Professores, acordem e ponham em sentido quem não tem sentido do futuro! 

Agora, convido-vos a assistir a este vídeo.  


             

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

O QUE TORNA OS PROFESSORES FORTES


Assistimos ainda hoje a outras tentativas e subalternizar o papel dos professores. Darei outro exemplo: há países em que as entidades responsáveis pela Educação compram a empresas privadas o currículo, os materiais, os livros e mesmo a supervisão do processo educativo. Este “franchising” educacional leva a que o professor se converta num mero “entregador” do currículo, tendo somente seguir e cumprir rigorosa e atempadamente os planos que a empresa fez para ele. Tem-se chamado a este modelo de “currículo à prova de professor”. Segundo o modelo planeado, o modelo só pode não funcionar se o professor não cumprir obedientemente os ritmos, os conteúdos planeados e não usar os materiais que lhe são fornecidos.



António Sampaio da Nóvoa publicou em 1987 um ensaio notável e seminal sobre “O tempo dos professores” (Le temps des professeurs: analyse socio-historique de la profession enseignante au Portugal (sec. XVIII – XX). Trata-se de um livro de leitura indispensável que, além de traçar a evolução da profissão docente ao longo de 300 anos, mostra como os professores surgiram e como à custa de longos e penosos processos se puderam afirmar como uma classe profissional indispensável ao(s) desenvolvimento(s) humano(s).
Mesmo recentemente não deixaram de aparecer duvidas sobre o caráter imprescindível da profissão de professor. Lembro, por exemplo, que quando surgiram as primeiras e desastradas experiências de introdução das Tecnologias Digitais na Educação, havia teóricos que profetizavam o desaparecimento a curto prazo dos professores porque seriam substituídos (e segundo eles com vantagem) pelos computadores. Dizia-se para anunciar o “admirável mundo novo” dos computadores na Educação que eles eram mais pacientes que os humanos (aqui havia uma incompreensível confusão entre ser paciente e ser repetitivo…), os computadores eram mais disponíveis, mais versáteis, etc. O certo que cedo se verificou que todas estas vantagens eram inúteis se não existisse um professor que contextualizasse as aprendizagens, que explicasse as suas dificuldades e implicações, um professor, enfim, que falasse humanamente com os alunos. Assistimos ainda hoje a outras tentativas e subalternizar o papel dos professores. Darei outro exemplo: há países em que as entidades responsáveis pela Educação compram a empresas privadas o currículo, os materiais, os livros e mesmo a supervisão do processo educativo. Este “franchising” educacional leva a que o professor se converta num mero “entregador” do currículo, tendo somente seguir e cumprir rigorosa e atempadamente os planos que a empresa fez para ele. Tem-se chamado a este modelo de “currículo à prova de professor”. Segundo o modelo planeado, o modelo só pode não funcionar se o professor não cumprir obedientemente os ritmos, os conteúdos planeados e não usar os materiais que lhe são fornecidos.
Muito mais exemplos poderiam ser dados de tentativas (felizmente mal sucedidas) de substituir o professor, de acabar este “Tempo dos Professores” com lhe chamou Sampaio da Nóvoa. O facto destes exemplos caricaturais terem sido desmontados não deve esmorecer a nossa vontade de encontrar respostas para a questão de “Como se pode reforçar e valorizar o trabalho dos professores?”
Os últimos anos de governação em Portugal foram um verdadeiro laboratório sobre como retirar relevo e autonomia aos professores. Muitos aspetos se poderiam evocar mas referir-nos-emos a três que nos parecem mais importantes:
Os professores tornam-se mais fortes quando se reforça a autonomia e a possibilidade de gerirem o seu trabalho pedagógico. Isto quer dizer que currículos extraordinariamente extensos e complexos vão “engessar” o professor e retirar-lhe tempo e disponibilidade para usar com os alunos outros métodos que não sejam os estritamente transmissivos. Com currículos destes escasseia tempo para que os alunos aprendam a resolver questões em grupo, para apoiar os alunos que “descolem” da “velocidade de cruzeiro” a que são transmitidos os currículos e não permite qualquer veleidade de interdisciplinaridade ou mesmo de aplicação a contextos reais. A tão criticada opção governamental de reforçar os exames faz parte deste problema: as escolas usam a desculpa dos exames para justificarem práticas ainda mais tradicionais e conservadoras no seu trabalho pedagógico.
Em segundo lugar não se desenvolveram modelos que incentivem, encorajem e recompensem o trabalho cooperativo dos professores. Sabe-se hoje que um professor que trabalhe sozinho tem uma enorme probabilidade de ser incompetente dado que os problemas que se lhe deparam são de tal complexidade que só em colaboração com outros docentes e mesmo outros técnicos é possível encontrar respostas adequadas. A organização da escola, a avaliação dos professores, o modelo de resolução de problemas na escola passa sempre por um professor solitário, e único responsável por assuntos em que na verdade ele não é capaz de resolver sozinho.
Por fim, precisamos de professores apoiados. A formação em serviço precisa de ser reconcetualizada para que possa desempenhar o papel fundamental de inovação e de supervisão do trabalho docente. A formação em serviço tem passado quase sempre ao lado das reais necessidades dos professores e das reais necessidades das escolas. Precisamos de professores apoiados e, assim sendo, fortalecidos para enfrentar os complexos problemas do quotidiano escolar.
Hoje, como antes, estamos - como escreveu Sampaio da Nóvoa - o tempo dos professores. Não dos professores, sozinhos, dos professores sabe-tudo, mas no tempo de uma classe profissional que tem cada vez mais de entender como se convence e seduz os alunos para a importância do conhecimento, da inovação e da pesquisa. Mas também como é que se chega a estes objectivos usando valores e práticas que sejam humanas, solidárias e participativas. É este o tempo presente dos professores.

Autor: David Rodrigues
Presidente da Pró-Inclusão / Associação Nacional de Docentes de Educação Especial, Conselheiro Nacional de Educação.
Fonte: Público

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

PARABÉNS ESCOLA DO CURRAL. PARABÉNS PROF. JOAQUIM SOUSA. PARABÉNS A TODO O CORPO DOCENTE


A comunidade educativa da Escola 123PE do Curral das Freiras (Madeira) está de parabéns. Hoje, na Fundação Calouste Gulbenkian, o Dr. Joaquim José Sousa (Director) e a própria Escola serão distinguidos no âmbito das "Personalidades com Corações que Constroem". O Professor foi convidado a integrar a mesa de debate "O Poder da Educação na Conquista da Igualdade". A cerimónia, entre outras figuras, registará a presença do Senhor Presidente da República.


Esta distinção não surge por mero acaso. É consequência de estarmos em presença de uma ESCOLA que, paulatinamente, tenta ser diferente das demais, apesar das constantes ameaças e perseguições da tutela. Ao contrário do que seria desejável, entusiasmarem e criarem as condições para que a escola em causa funcione como um laboratório de experiências, isto é, de mudanças paradigmáticas organizacionais e pedagógicas, susceptíveis de serem universalizadas a toda a Região, há políticos que têm dado a entender que não gostam de perder palco quando outros avançam, inovando e rompendo com as caducas estruturas do sistema educativo, apenas motivados pelo princípio que um aluno "não é um número, mas um indivíduo".
Felizmente, outros reconhecem aquilo que cá dentro parece ser gerador de dores de cotovelo! Parabéns a todo o corpo docente, liderado pelo professor Joaquim José Sousa.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

POLÍTICA EDUCATIVA - AGORA NUNCA É TARDE... PARA SONHAR



Pedro Barroso foi Professor de Educação Física durante vinte anos. 
Caríssimos Professores, por favor, oiçam este texto: "nunca é tarde de mais para exigir e para sonhar.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

LAMBEM PARA CIMA ESCOICEIAM PARA BAIXO


Este é um desabafo. Inabitual, da minha parte, sobretudo pela frontalidade e crueza das palavras. Estou cansado de ver sinais dados por alguns políticos que tentam secar tudo à volta. Normalmente escolhem ou os menos bons ou, intencionalmente, zangam-se com os melhores, gerando entropia nos serviços que tutelam, para que eles próprios sobressaiam. Subtilmente, como se ninguém estivesse a ver o jogo, descomprometem-se relativamente aos seus pares, baralham o jogo, habilidosamente perseguem, silenciosamente fazem o que lhes dá na real gana, mas vergam-se ao "chefe", isto é, como é vulgar dizer-se, "lambem para cima e escoiceiam para baixo". E lá vão sobrevivendo no meio político sem que lhes descubram a careca e o vazio interior que faz eco. O poder está entregue, em alguns sectores, a desmiolados, a pessoas sem conceitos, "analfabetos" naquilo para que foram convidados, jurando pela honra cumprir com lealdade as funções confiadas. Lealdade ao "chefe", obviamente que sim, porque, facilmente, sabem que lhes podem ser oferecidos um par de patins e lá vão avenida abaixo! Lealdade e humildade em função da grandeza do acto de bem governar, com visão de futuro, isso aí, calma, primeiro o lugarzinho, depois, a imagem pública, depois, ainda, o que fica para o futuro. Se ficar...


O drama desta situação é pensarem que são donos da verdade, demonstrarem excesso de vaidade, desejarem ser referência de qualquer coisa, passarem, até, a imagem de excelência, quando, ao fim e ao cabo, existem tantos na sociedade, de professores universitários a investigadores com "cabeça", capacidade e mestria. Até alunos melhores! Então, julgo eu, eriçados pelo ciúme, com o receio de perderem o pódio, tentam fazer a vida negra aos outros, àqueles que trazem o novo e conseguem resultados entusiasmadores. Instauram processos disciplinares, mandam inspecionar desde a tasca à escola, porque todos devem vergar-se à padronização e à centralização do poder. Vergar-se ao seu "chefe", melhor dizendo. O egoísmo é tal que não conseguem olhar para o lado, ver e aplaudir o que de bom alguns fazem com enorme paixão. Aí, alto e parem o baile, porque "eu sou o presidente da junta", o meu umbigo é o centro do mundo e tudo tem de passar pelo meu crivo. Entristece-me gente assim. Magoa-me quando vejo alguém magoado por andar com a coluna direita.
Não é novo este quadro de tentativa de apagão e de, intencionalmente, provocarem o conflito onde não existe, para fazerem os outros baixar os braços, pelo que pensam, pelo que dizem e pelo que fazem. Ao longo da minha vida profissional assisti a tantas situações com esta raiz de pensamento abstruso e indigno. Até um tolinho me instaurou um processo disciplinar na lógica da perseguição maquiavélica e ao jeito político de "para os amigos tudo, para os inimigos nada e para os restantes aplique-se a lei". Hoje, olho à volta e detenho-me não nessa apregoada "renovação", mas na frase histórica que ditava a mentirosa "evolução na continuidade". Não suporto políticos medíocres, que infernizam a vida dos outros, que preferem a rotina do passado a demonstrarem um rasgo portador de futuro. Olho com preocupação para sujeitos científica e culturalmente fracos que ocupam lugares institucionais e vê-los atravessar a passerelle como iluminados. Não conseguem irritar-me, mas fico em estado de desassossego sobre o futuro. Este é um desabafo. Um dia destes, sei lá, regressarei com a denúncia. Vão mas é bugiar!
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

"CONTRA A IDEOLOGIA DAS COMPETÊNCIAS A ESCOLA DEVE ENSINAR A PENSAR"


O Sistema Educativo bloqueia o pensamento. O aluno ouve, memoriza, debita e é avaliado.


De Immanuel Kant

"Espera-se que o professor desenvolva no seu aluno, em primeiro lugar, o homem de entendimento, depois, o homem de razão, e, finalmente, o homem de instrução. Este procedimento tem esta vantagem: mesmo que, como acontece habitualmente, o aluno nunca alcance a fase final, terá mesmo assim beneficiado da sua aprendizagem. Terá adquirido experiência e ter-se-á tornado mais inteligente, se não para a escola, pelo menos para a vida.
Se invertermos este método, o aluno imita uma espécie de razão, ainda antes de o seu entendimento se ter desenvolvido. Terá uma ciência emprestada que usa não como algo que, por assim dizer, cresceu nele, mas como algo que lhe foi dependurado. A aptidão intelectual é tão infrutífera como sempre foi. Mas ao mesmo tempo foi corrompida num grau muitíssimo maior pela ilusão de sabedoria. É por esta razão que não é infrequente deparar-se-nos homens de instrução (estritamente falando, pessoas que têm estudos) que mostram pouco entendimento. É por esta razão, também, que as academias enviam para o mundo mais pessoas com as suas cabeças cheias de inanidades do que qualquer outra instituição pública. (...)"

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O PARADOXO DAS "BOAS PRÁTICAS NOS CONTEXTOS EDUCATIVOS"


Volta e meia lê-se, por aí, uma qualquer declaração onde vem à baila as "Boas Práticas nos Contextos Educativos". Ainda há dias, sobre um protocolo visando a participação de psicólogos no sistema educativo, falavam de uma "escola saudávelMente" no quadro das tais "boas práticas nos contextos educativos". Interrogo-me: afinal, o que são, hoje, as tais pressupostas "boas práticas nos contextos educativos", quando o sistema estruturalmente é sempre igual? O que é uma escola de "mente saudável"? Ora, só podem existir boas práticas quando, a partir da experiência vivida e reflectida, se conclui da necessidade de uma mudança estrutural do sistema. Mudança que deve assentar, sempre, naquilo que enforma a palavra processo, enquanto acto inacabado e contínuo. Se assim não acontecer, quando, estruturalmente, não se altera a matriz do sistema, então podemos dizer que as "boas práticas" correspondem a pensos rápidos sobre uma ferida profunda. Em uma aproximação ao sistema educativo dir-se-á que tapa a ferida, mas não resolve a questão de fundo. 


Significa isto que qualquer actuação nas margens, distante de uma visão global, compaginada a montante e a jusante do sistema, não só não resolve como não atenua a dor sentida, fundamentalmente, por professores e alunos. Aliás, se trazem à baila as "boas práticas nos contextos educativos" é pela assumida percepção que a resposta do sistema é frágil e denuncia insuficiências. Não ir ao encontro das causas parece-me tempo perdido. Parece-me, não, é tempo perdido! Uma doença grave não se resolve com aspirinas. É, portanto, espantoso e revelador de insuficiências ao nível do pensamento estratégico, ao invés de, primeiro, estudar e determinar para onde desejam ir, preferir a insistência em uma estrutura inconsequente à luz dos nossos dias. Trata-se de um paradoxo. 
Lembro, a propósito, que, em Maio de 2011, o então secretário regional da Educação da Madeira, propôs a colocação de sociólogos nas escolas da Região. Já não bastariam os psicólogos! A esse propósito escrevi um texto (aqui) que visou equacionar esta inútil proposta política. A páginas tantas, salientei: 

"(...) A Sociologia, enquanto ciência humana, que estuda as múltiplas unidades que formam a sociedade, as suas interdependências, a(s) sua(s) cultura(s), salvo melhor opinião, não se coaduna com a proposta do secretário. Parece-me absolutamente desadequada tal proposta à luz da Escola que se quer e do futuro desempenho profissional. A prioridade não é essa. Aliás, são muitas, desde a reorganização da rede escolar, a cultura organizacional, a formação inicial, complementar e especializada dos professores, a efectiva autonomia administrativa e pedagógica, o adequado financiamento, os problemas resultantes do currículo e dos programas, deles expurgando a "tralha" e, a montante, os problemas da família, da economia (emprego) e da pobreza. Se o secretário demonstrasse empenhamento nessas áreas de intervenção conjugando-a em parceria com outras pastas do governo, estaria a prestar um bom serviço. Agora, sociólogos na Escola....". 

Vive-se a onda dos psicólogos e, por pouco, julgo eu, a onda dos sociólogos não passou de uma mera proposta. Sempre a política do "penso rápido", jamais, pelo menos, a fuga à tentação de andar atrás dos acontecimentos. Não vejo os responsáveis políticos preocupados em mexer na estrutura com medidas portadoras de futuro. Mais um "projecto" aqui, outro ali, enfim, "projectos" é coisa que não falta nas escolas. Depois, genérica e globalmente, dão vivas à ponta do icebergue, aos tais que conseguem vinte valores a tudo, enaltecem a meritocracia (mesmo os piores sistemas geram resultados de topo), e assobiam para o lado perante a falange de insucessos e abandonos, por mais que abordem essas tais "boas práticas nos contextos educativos". Por favor, parem e pensem. Pensem no significado, por exemplo, da Web Summit face à "tralha" que hoje invade a Escola! Isto é, se o Sistema Educativo está em linha com os desafios do futuro. Se aquilo que transmitem tem alguma ligação com os empregos do futuro".
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 4 de novembro de 2017

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA TOCOU NA FERIDA


"Os portugueses, de facto, verdadeiramente não dão primazia à Educação como prioridade nacional, (...) quantas famílias votam, nas diferentes eleições, dando primazia à Educação? Tenho para mim que muito poucas. (...) Votam olhando para a situação económico-financeira, para as questões do emprego, da segurança, porventura da saúde ou da segurança social. Não para a Educação. E isso é muito preocupante", afirmou o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no discurso de encerramento do 1º Congresso das Escolas.


O Presidente falou, ainda, da necessidade de um novo olhar para os currículos e para os programas, o que pode significar, complementarmente, um novo olhar sobre a esfera pedagógica. Uma intervenção certeira que me escorreu garganta abaixo como mel. Faltou-lhe acrescentar, pelo menos não me apercebi, um novo olhar para as políticas de família, para as responsabilidades que a estas competem no processo educativo e para uma nova visão organizacional da sociedade. Mais trabalho não significa melhor trabalho com ganhos na produção, da mesma forma que mais escola não significa melhor escola com ganhos nos resultados da aprendizagem. Infelizmente, é essa mentalidade que há muito perdura.
Mas, não perdendo o fio à meada, as palavras do Presidente encaixam-se na perfeição em algumas experiências que tenho feito. Em qualquer rede social, coloca-se uma fotografia, muitas vezes sem qualidade e logo aparecem, dezenas ou mesmo centenas de "gostos" e  de comentários; um assunto sobre Educação passa completamente ao lado dos visitantes. Uma maçada! Só mais um exemplo: assino este blogue, aberto a textos e comentários, desde que devidamente assinados, (www.educacaopensamentoautonomia.blogspot.com), iniciado em 19.10.2016, o contador de visitas regista escassas 3.700 entradas (média de 9 pessoas/dia), mas, pior, nem um só comentário. Curiosamente, só na Região da Madeira, existem cerca de 6.500 professores. Caso para dizer que nem esses estão interessados, quanto mais a sociedade! Discutir a escola pública e a privada,  a autonomia dos estabelecimentos de educação e ensino, os direitos da criança, a pedagogia, os paradigmas organizacionais, a meritocracia, a avaliação, os TPC, o desporto educativo, a cultura, a tecnologia, a formação, a acção social educativa, os currículos, os programas, tomar consciência, através de entrevistas, do que outras personalidades dizem, enfim, tudo isto, por experiência própria, leva-me a dizer que a comunidade não dá "primazia à Educação". A escola funciona porque é obrigatória e, em segundo lugar, para a generalidade, atrevo-me, com algum exagero dizer, que são excelentes armazéns enquanto os pais trabalham. O que lá se aprende e como se aprende, se se adequam às novas realidades ou não, tem razão o Presidente, as pessoas votam (...) olhando para a situação económico-financeira, para as questões do emprego, da segurança, porventura da saúde ou da segurança social. Não para a Educação. E isso é muito preocupante".
Só uma nota final: Senhor Presidente, se a sociedade está errada, a escola não pode estar melhor. E mudar de paradigma é muito difícil. De resto, há muita forma de comprar os silêncios das pessoas, os silêncios dos próprios responsáveis pelas escolas e os silêncios dos professores, de tantas formas, repito, conjugadas com uma palavra que condiciona sobremaneira: medo.
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

POR UM LADO, A DEPENDÊNCIA DA TECNOLOGIA, POR OUTRO, COMO APROVEITÁ-LA NO PROCESSO ENSINO-APRENDIZAGEM!


O Jornal I, edição de fim-de-semana, colocou, em primeira página, uma síntese que muito dá para pensar: a utilização da tecnologia, particularmente, dos telemóveis. Já existem clínicas para este tipo de doentes e muitos jovens em tratamento. Sabe-se que o seu uso excessivo pode conduzir à ansiedade e à depressão. Um assunto grave. Impressiona-me qualquer tipo de vício ou dependência. Fico espantado quando olho para uma mesa e ao invés de conversarem, vejo as pessoas agarradas ao telemóvel em preocupante silêncio. São significativos os muros entre as pessoas. A situação é transversal a todas as idades. E se uns sabem dosear a sua utilização, outros, parecem denunciar que a vida começa e acaba ali. Eu diria que o telemóvel funciona como uma prótese necessária à sobrevivência. É a vida virtual a sobrepôr-se à vida social. De um excelente meio de informação, de comunicação e até de divertimento, passou-se, em poucos anos, para um fim em si mesmo. O telemóvel tem de estar por perto e quando não está perturba a vida. Não falo, sequer, das "radiações electromagnéticas", porque não estou minimamente abalizado para tal equacionamento, mas todos nós damos conta que não estamos a saber tirar o máximo proveito deste equipamento tecnológico em um mundo de informação permanente e de comunicação, esbatendo, simultaneamente, o rol de pontos negativos que a ele estão associados.
Por outro lado, coloca-se aqui uma outra questão: quando é residual o número de crianças e jovens que não dispõem do acesso à tecnologia (telemóvel e outros equipamentos), como pode a Escola sobreviver, mantendo as características do passado, ao invés de utilizá-la como o mais poderoso meio pedagógico no processo ensino-aprendizagem, ao mesmo tempo que pode e deve educar para a sua racional utilização?
Ilustração: Página do Jornal I.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

APRENDIZAGEM NA ERA DIGITAL, O QUE É ISSO? O SISTEMA NEM FECUNDA NEM SE DEIXA FECUNDAR PELAS CIÊNCIAS!


De uma importância extrema a iniciativa do DN-Madeira denominada por "Conferências do Casino", desta feita subordinada ao tema genérico As Tecnologias no Ensino. Iniciativa vital, no quadro de uma necessária mudança no sentido de uma escola que acompanhe o tempo digital. O DIÁRIO há muito que tenta dar o mote com o seu próprio exemplo de actualização empresarial, porém, o Sistema Educativo Autónomo, da responsabilidade da Secretaria Regional da Educação, continua a preferir que a informação sobre a Escola do Século XXI entre nos seus ouvidos a 100 e saia de imediato a 200! Tal é a histórica letargia, a acomodação e a falta de visão demonstrada em tantas situações. O pior de tudo isto é  que as "Conferências do Casino" têm o patrocínio da Secretaria Regional da Educação. Que paradoxo!


Um facto comprova-o: o ano de 2017 deve ter sido um daqueles que mais se falou de Educação e dos processos ensino-aprendizagem. Perdi a conta a tantos seminários, acções de formação creditadas para professores, realizadas pelos sindicatos e não só, fóruns de debate, entrevistas na televisão, artigos de opinião, a presença de ilustres palestrantes vindos de fora da Região, inclusive, o registo da visita do secretário de Estado da Educação, não bastassem os livros e revistas disponíveis, enfim, apesar de tudo o que aconteceu e foi sendo notícia, no sentido de despertar consciências, tudo permanece igual, a máquina continua a funcionar imperturbável aos ventos e vozes que reclamam mudanças de pensamento político. Na primeira fila ou no palco da esmagadora maioria das iniciativas, lá  esteve o secretário regional da Educação. O que mudou? Nada. O que está gizado para mudar? Nada de relevante. 
Aprendizagem na era digital, o que é isso? Ora, não basta mandar computadores para as escolas, pois como sublinhou e muito bem a Professora Elsa Fernandes (UMa), "(...) se é para fazer o que já se fazia com papel e lápis, não vale a pena". Tão simples e tão profundo. O drama é que não compreendem ou não querem compreender isto, que a Escola se aferrolhou na sua torre de marfim e, como me dizia o Filósofo Manuel Sérgio, embora em outro contexto, os políticos com responsabilidades no sector da Educação, não se deixam fecundar pelas ciências e pelo conhecimento. Digo eu, nem fecundam nem se deixam fecundar. Segundo li, quatrocentas pessoas, a maioria docentes, marcaram presença nas "Conferências do Casino", porém, a escola, pese embora importantes iniciativas já realizadas, permanece(rá) igual ao passado: disciplinas sectoriais, toques de entrada e de saída, testes, avaliações, conselhos de departamento, de turma e pedagógico, atribuição de níveis ou de notas, circulares, relatórios, muitos relatórios que aumentam as prateleiras do "arquivo morto", ah... e, agora, êxtase por prémios de meritocracia. 
Para mim que nutro aversão (a palavra é esta) a quem não acompanha o tempo que impõe, paulatinamente, novos paradigmas de resposta às necessidades, o que estamos a viver acaba por ser, não apenas decepcionante, mas sobretudo revoltante. O que leva os governantes, questiono, a demonstrarem tanta apatia pelo que é importante? De facto, pelo menos do meu ponto de vista, provoca-me indignação quando dão a entender, no palco, uma preocupação que, a prática, demonstra que não têm. Preferem o passado à construção do futuro; preferem a rotina à ruptura; preferem a aparência à realidade.
Ser secretário regional de qualquer pasta implica, necessariamente, uma capacidade acrescentada para ver longe, para desafiar, para comprometer, para conjugar o conhecimento com a definição de políticas assertivas. Passaram-se dois anos da presente legislatura e tudo continua igual na estrutura. Li e estudei em Katzenbach que o atributo de um "verdadeiro líder da mudança" (VLM) é o de "saber alcançar altos padrões de desempenho, através da alteração dos comportamentos e das competências das pessoas", isto é, os VLM evidenciam coragem para desafiar as normas; geram a motivação dos outros e demonstram capacidade de iniciativa para se moverem para lá dos limites definidos. Mais: "um líder deve ser uma pessoa que pelas suas palavras, ou pelo seu exemplo pessoal, influencia os pensamentos, os comportamentos e/ou sentimentos de um número significativo de pessoas". Li, não me recordo onde, esta síntese perfeita: Luther King, boa referência da liderança, apregoava: "eu tenho um sonho". Ele não disse: "Tenho umas ideias, podemos formar um comité, estudar e ver se resulta". A diferença está aqui. Apoiam iniciativas, como foi o caso da aprendizagem na era digital, mas falta a capacidade de liderança para definir o caminho de um sistema próspero. Como isso não acontece, o sistema educativo anda de fracasso em fracasso, perante o silêncio cúmplice de muitos.
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

PRIMEIRO A "AULA", DEPOIS O DEDO NO AR!


Por vezes confronto-me com pessoas e narrativas que me deixam sem saber o que dizer. Ou melhor, sei o que me apetece responder ou equacionar, enquadrando devidamente o problema, mas prefiro nelas ficar a pensar. Foi este o caso. Um encarregado de educação foi chamado à escola. Razão substantiva: o facto da muito jovem aluna, sistematicamente, colocar o braço levantado para colocar perguntas. Isso, deduzo, perturbava a "aula", gerava transtorno, sendo perturbador, até, da disciplina. Há matéria para debitar e os meninos(as), devem estar atentos, virados para a frente e calados. A criança em causa não é mal educada, é cordial, muito simpática, muito capaz e o seu "crime" é querer saber mais. Tão somente isto! E vem o secretário da Educação, no dia que eu soube da história desta criança, dizer que "(...) a escola tem que formar, e formar é criar condições para que as nossas crianças e os nossos jovens possam sonhar (...)". Como é possível, pergunto, sonhar, quando, logo na idade das perguntas e não das respostas, o sistema que ele próprio corporiza coarcta essa capacidade?


Eu percebo o processo que está por detrás de tudo isto: a rigidez curricular e os programas que determinam, seja lá como for, aprendam ou não, que têm de ser cumpridos e "dados"; os professores que têm sobre a sua cabeça a ridícula avaliação de desempenho do seu trabalho, de carácter classificativo e não formativo; a mentalidade ainda existente onde o professor(a) não é um "jogador", incentivador e moderador das situações de aprendizagem, antes um repetidor do manual que visa o teste de avaliação de conhecimentos, traduzida, depois, em níveis ou notas; as regras definidas pelo departamento, pelo conselho de turma e pelo conselho pedagógico e a norma vinda da hierarquia; a desajustada Inspecção Regional de Educação que interfere (ilegitimamente, repito, ilegitimamente) na "qualidade pedagógica e organizacional dos estabelecimentos de educação e ensino", enfim, tudo isto e muito mais determina a existência de professores em permanente clausura de pensamento. Mesmo que queiram mudar alguma coisa, não podem. Vão tentando! O que me leva a dizer que neste sistema, o professor é o centro da política educativa e não as crianças. Daí, o velho conceito de "aula".
É óbvio que não existe uma Universidade ou uma qualquer Escola Superior de Educação que transmita aos futuros professores a necessidade do comportamento docente que aqui narrei. Qualquer escola de formação está muito à frente das infelizes práticas dos decisores políticos. E isto acontece porque é mais fácil ser centralizador e padronizador do que libertador. E paradoxo está aqui: o secretário da Educação fala de uma Escola, a actual, onde os alunos "possam encontrar o seu projecto de vida", porém, os resultados estão aos olhos de todos, concretamente, nas taxas de insucesso, de abandono e na baixa qualidade profissional. E se os dados envergonham a própria Autonomia como se pode falar de projecto de vida? Puro engano. No meio disto há uma onda de "meritocracia" que varre os verdadeiros problemas para debaixo do tapete dos confortáveis gabinetes.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

A APATIA DA AVALIAÇÃO


Um artigo publicado na revista VISÃO (Bolsa de Especialistas) e aqui reproduzido com a devida vénia. A sua autora Drª Carmo Machado é Mestre em Ciências da Educação.

Uma vez, à laia de desabafo e referindo-se a um determinado aluno, uma colega confessou-me: Eu já lhe dei o mesmo teste para fazer cinco vezes seguidas e da última vez, para o ajudar, até fiquei com as cábulas que lhe apanhei e corrigi-as. Mesmo assim, o aluno voltou a reprovar... Fui para casa incomodada nesse dia. E nos outros que se seguiram. Não só porque continuamos a chegar à escola com o ar conformado e triste das segundas feiras, carregando às costas, em pastas e dossiers, a angústia dos assuntos por resolver, mas também e sobretudo porque a escola continua a repetir as mesmíssimas formas de avaliar, uniformizando todos os alunos pelo mesmo diapasão que, como sabemos, não funciona nem pode funcionar.


Alguém tem dúvidas de que se desvirtua diariamente as potencialidades formativas e pedagógicas da avaliação escolar? Eu não. Ensino há quase trinta anos, sem interrupção, e posso afirmar que quase cinco décadas depois das mudanças introduzidas pela Revolução de Abril no sistema educativo português, a avaliação continua a ser pontual, solitária, sumativa e discriminatória. Numa época em que tanto se fala de qualidade, a sociedade deixa-se convencer de que os resultados dos testes e depois dos exames a refletem. Puro engano. A excelência na educação está longe de ser alcançada e não é ainda minimamente acompanhada por um sistema de avaliação adequado. Este continua desligado da aprendizagem e apresenta uma finalidade única que é a de classificar os alunos, esquecendo a sua função motivadora, reguladora e orientadora dos seus processos de aprendizagem. Testes e exames possuem grande tradição histórica e são formas de legitimação de poder e das suas políticas de educação. Porém, a avaliação é uma parte essencial ao processo de ensino e de aprendizagem e, como tal, é necessária para confrontar os objetivos estabelecidos com os seus resultados. Assim, os professores deveriam avaliar porque ensinam em vez de ensinar para avaliar. E quanto aos alunos, estes não deveriam aprender quase exclusivamente para serem avaliados. Infelizmente, é isto que hoje se verifica na maioria dos casos que eu conheço.
A escola de hoje continua a apresentar um fosso gritante entre todos os pressupostos teóricos existentes e a verdadeira atividade pedagógica. Existe uma contradição constante na nossa prática profissional quotidiana entre aquilo que deveria ser e o que verdadeiramente é. Deixemo-nos de hipocrisias. Já Hadji dizia, com toda a razão, que o lugar da nota na escola é bastante prodigioso. De facto, ela joga um papel determinante na vida dos alunos. E mesmo na dos professores, diria eu, que sem testes para avaliar e nota para atribuir em consequência desses testes, ficariam perdidos, naufragados num mar sem norte. Estou cada vez mais convencida de que os testes e as notas que deles resultam continuam (e continuarão) a constituir os elementos principais na avaliação dos alunos, por mais que sejam apresentados outros critérios que supostamente o professor deverá ter em consideração.
Por isso mesmo, e porque a avaliação como a entendo é um processo de recolha de informação, o uso que lhe dou é diário. E sendo a avaliação um continuum, como poderemos tomar as principais decisões apenas com base em dois momentos específicos de avaliação por período letivo? Quanto à parte que me toca, não quero voltar a sair da escola com esta sensação de fracasso entranhada nos ossos. Não quero continuar a fazer de conta que ensino e não quero, repito, não quero que os meus alunos façam de conta que aprendem... Só para responderem corretamente no teste e a seguir esquecerem tudo o que aprenderam. Quero fazer da escola e do ensino da minha disciplina um espaço de aprendizagens significativas e da aula de Português um pedaço de autêntica vida que permita, acima de tudo, a tomada de consciência do indivíduo em relação com a língua que fala e a cultura que o rodeia. Atenção, não pretendo negar totalmente a importância do teste ou do exame. Quero apenas que a escola aprenda a desembaraçarse deles, retirando-lhes o lugar de destaque que atualmente ocupam na avaliação das aprendizagens. E numa época em que o insucesso escolar é uma realidade, que tal admitirmos a hipótese de a avaliação como a entendemos e efetuamos hoje – mais classificativa do que interpretativa - ser uma das suas principais causas?
Deixo-vos com esta reflexão, caros leitores: poderá o sistema de ensino português correr o risco de entrar em descalabro se a avaliação escolar abandonar o seu exclusivo teor certificativo e passar a funcionar como a bússola que guia alunos e professores nas aprendizagens Conseguiremos, de uma vez por todas, passar a encarar a avaliação numa perspetiva evolutiva e dinâmica de adaptação, resolução e reflexão perante a vida?
Sabemos todos que alterar a forma como avaliamos é, sem dúvida, uma das mudanças mais difíceis – e cruciais - a levar a cabo no universo escolar mas já Confúcio dizia: Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

ENSINAR O PAI-NOSSO AO VIGÁRIO, NÃO, OBRIGADO!


"Nós todos temos a percepção dos resultados, quer da avaliação sumativa interna das escolas, quer da avaliação sumativa externa das escolas, os exames e as provas finais, mas nós estamos no terreno e vamos perceber como é que a escola faz o diagnóstico dos seus problemas, ou seja, para além da folha Excel, perceber que soluções a escola adopta, como é que monitoriza e como é que promove a melhoria na prática, que isto nos parece fundamental", disse Jorge Morgado, um dos intervenientes na II Conferência Diversidades, que decorreu, esta manhã, na Reitoria da Universidade da Madeira." - Fonte: DN-Madeira.


Palavras, palavras e mais palavras, porém, no essencial, nada de novo. Quarenta anos depois, o governo ainda não passou da fase do diagnóstico. Pessoalmente, lamento que um director regional (Inspecção Regional de Educação) pelo que foi referido, ande pelos estabelecimentos de ensino a "ensinar o pai-nosso ao vigário". Um director, advogado, que nem professor é!
A generalidade dos professores, sobretudo os que têm mais responsabilidades, democraticamente atribuídas, seria bom que tomasse consciência, dominam os formatos dos diagnósticos (levantamento da situação) bem como os relatórios que apresentam. Os professores, desde sempre que monitorizam e adoptam, as melhores práticas, no quadro do sistema educativo vigente e imposto. O próprio governo tem feito, de quando em vez, alarde disso mesmo. Quando convém. Portanto, andar de escola em escola constitui perda de tempo. O que deveria preocupar o governo é as outras e estruturantes dimensões do problema: a questão social, a montante, que também está diagnosticada, mas que não há coragem ou saber para arrancar as famílias da pobreza (em sentido lato e a todos os níveis, causa para muitos anos); a estrutura da organização social, onde se enquadram, naturalmente, os tempos de trabalho e a precariedade; a pavorosa escola a tempo inteiro onde, tendencialmente, tudo é motivo de escolarização encapotada, roubando o tempo necessário para ser criança; a responsabilização das famílias no processo educativo, também em sentido lato; a coragem para colocar em debate sério e profundo, a Autonomia da Madeira conferida pelo Estatuto Político-Administrativo (Artigo 40º, alínea o) - Matérias de interesse específico da RAM); a questão da autonomia das escolas, a sua organização e financiamento, neste caso, a liberdade na construção do currículo a partir de uma matriz essencial (não existem duas escolas iguais), o que implica um total respeito pela diferenciação; os programas desarticulados entre os diversos patamares; a tecnologia vs negócio dos manuais escolares e uma nova visão sobre o pensamento pedagógico, onde todo o caminho está por abrir. A "grande obra" é essa! De uma vez por todas, oiça, não se aprende por disciplinas e de uma forma centralizada e padronizada. Esse foi um tempo. Só aqui, qualquer pessoa, apostada no futuro, consegue elencar uma quase infinidade de aspectos que necessitam reflexão aprofundada. Ademais, todos os diagnósticos e monitorizações estão feitos, constam de livros, de dissertações, de teses e das actas das reuniões dos vários órgãos dos estabelecimentos de educação e ensino. Ainda hoje, o Dr. Rui Caetano, líder da Escola B+S Gonçalves Zarco, escreve em artigo de opinião: "(...) Os professores não se limitam a trabalhar o processo ensino-aprendizagem com alunos interessados e/ou desinteressados. Atualmente, a sociedade exige quase tudo à escola e aos professores. Por isso, somos esse “tudo” de várias formas e feitios. Somos: educadores das regras de convivência; formadores para a sexualidade responsável; gestores de conflitos; mediadores familiares de problemas que acontecem entre eles, além de fiscalizarmos e estarmos atentos aos comportamentos de risco dos alunos. Até os problemas pessoais que ocorrem numa discoteca ou no fim de semana, algures, chegam à escola para serem resolvidos, porque ganham novas dimensões. O rol de exigências continua: fazemos o papel de psicólogos; assumimos o lugar de pais, mães, amigos, confidentes, nutricionistas, tutores e promotores de campanhas de angariação de roupas, alimentos, medicamentos e outras carências dos alunos e familiares, além de educarmos também para a necessidade urgente dos hábitos de higiene. (...)". Saberá o governo, concretamente o Senhor Director da Inspecção (!) o que isto significa? Adianto-lhe: que o diagnóstico, a todos os níveis está feito, até porque os professores vão dando a resposta adequada. Não apenas nos aspectos externos à escola e que se repercutem na escola, tal como no processo ensino-aprendizagem. O problema está, portanto, não na elaboração de mais diagnósticos, monitorizações, de acompanhamento e de aconselhamento em processos de raiz errada, mas na mudança de paradigma. Entendeu, Senhor Director? Ensinar o "pai-nosso ao vigário", não, obrigado.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

AINDA AS PROVAS DE AFERIÇÃO


As designadas "provas de aferição" são uma treta. Foram realizadas, estou convencido disso, apenas para atenuar a crítica política e sobretudo pública que o governo não quer avaliações e muito menos exames. É óbvio que a população transporta, ainda, a imagem de um sistema, com um longínquo passado, onde a palavra exame foi sempre determinante. Ali se separava, sem olhar a outros contextos e variáveis, o chamado trigo do joio. Não haver exames, para muitos, ainda hoje, significa facilitismo. Essa cultura está enraizada na consciência da população, sobretudo porque persiste uma crónica teimosia em não actuar nas causas. E essas encontram-se no Sistema Educativo no quadro da organização e da mentalidade social.



Mas acresce aqui um outro aspecto. No entendimento existente e no quadro das referências do sistema, se a aferição não conta para a avaliação do aluno, tendencialmente, são os próprios alunos que relegam para segundo plano o objectivo que, dizem, estar em causa. Pergunta-se, então, para que serve essa aferição? Quando os exames são hoje postos em causa, para quê aferir no plano nacional? Os estabelecimentos de ensino é que devem ter essa preocupação, porque dominam o quadro das aprendizagens no âmbito do seu projecto educativo. Para quê esse olhar de coruja atenta que o sistema encarna? Daí que não sejam necessários testes, pois há múltiplas formas de avaliar o trabalho realizado no plano interno dos estabelecimentos. 
Há dias segui uma reportagem, incluída no programa Fronteiras XXI (RTP 1), no decorrer da qual a jornalista disse que, na Finlândia, não existem exames nem no básico nem no secundário. A esse propósito, uma professora, sorrindo, sublinhou: "não é importante"! De facto, não é, se coragem existisse para mexer no âmago do sistema. Não se aprende mais com exames, tampouco com repetições para esquecer. Aprende-se vivenciando, errando, tentando e experimentando através de enquadramentos que despertem a CURIOSIDADE, acreditando, tal como ficou claro nessa mesma reportagem, que o "mundo não se resume às disciplinas". As crianças não vão, passados uns anos, para o mercado de trabalho com uma catrefada de disciplinas assistidas e concluídas com o tal "êxito" e com os diplomas de uma vã meritocracia. Integram-se e são confrontadas com a vida que é um todo; integram-se sabendo trabalhar em grupo e para o grupo e não de forma isolada, cada um por si. Não se integram com uma nota ou um nível, mas pela capacidade de aprender a desaprender, com visão, com entusiasmo, com sentido de busca e de investigação permanente. Esse é o caminho.
Portanto, na esteira do que tantas vezes aqui escrevi, obviamente na sequência do que vou lendo, compreendendo e percebendo, constitui um erro manter esta lógica: ah, as aferições foram muito negativas, então, mais apoios no Português, na Matemática, nas Ciências Naturais, na Física e na Química. Só que a insistência no erro nunca resolveu e jamais resolverá os tais pobres resultados. Assume o secretário de Estado: "estas provas permitem aferir o sistema e agir ao primeiro sinal de dificuldade". Pois. O problema é que há tantos e tantos anos que essa lógica se mantém: perante resultados menos satisfatórios, a resposta do sistema é sempre igual e os resultados posteriores sensivelmente os mesmos. Sendo assim, resta-nos mudar de paradigma. Este sistema educativo já deu tudo quanto tinha para dar. Desde há muitos anos.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 8 de outubro de 2017

DUAS POSIÇÕES ANTAGÓNICAS



Ainda sobre o programa da RTP3, "Fronteiras XXI", atentemos nestas duas posições:

Doutor David Justino, Presidente do Conselho Nacional de Educação: " A Educação melhorou muito. (...) A escola está cheia de mitos. Um dos mitos é que a Escola não muda. Só diz isto quem não conhece o que era a Escola do Século XIX ou do Século XX com a Escola actual. A Escola actual não tem nada a ver com a Escola do Século XIX ou XX. Aquilo que acontece é que a Escola vai-se renovando, através de pequenas coisas, pequenas alterações (...)"

Juiz Conselheiro Jubilado, Laborinho Lúcio: "(...) Chega-se à Educação através das crianças (...) não através de modelos. Às vezes temos excelentes modelos educativos, o que atrapalha são as crianças. Se nós partirmos das crianças, se percebermos que elas são radicalmente diferentes daquilo que eram na Escola do passado (...)"

David Justino surge-nos como um retrógrado, uma figura que não percebeu o essencial da questão, isto é, na prática, as diferenças conceptuais entre a Sociedade Industrial e a Sociedade da Tenologia e da Informação. E se sabe (ora se sabe!) continua, infelizmente, a posicionar-se no provérbio que "Deus é bom, mas o Diabo também não é mau". Temos de ver o futuro, mas, cuidado, o modelo de ontem, através de "pequenas alterações" continua a ter as suas virtualidade. Já Laborinho Lúcio, talvez porque pertença a organizações dos "Direitos da Criança", que o obrigou a uma leitura social mais profunda, mostra-se com uma visão muito mais alargada e assertiva. A sua síntese, dita, recentemente, no Funchal, acertou em cheio: "As crianças têm já um adulto dentro de si". Caso para perguntar, quem deveria ser presidente do Conselho Nacional de Educação?
Ilustração: Google Imagens.