sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

ESQUERDA QUER EDUCAÇÃO FÍSICA A CONTAR PARA O ACESSO À UNIVERSIDADE. DISCORDO!


Li que "bloquistas e comunistas querem que a nota de Educação Física volte a contar para a média de acesso ao ensino superior. Os dois partidos pressionam, assim, o Governo a reverter uma das reformas de Nuno Crato". Discordo, completamente.

Nota prévia. 
Penso ser conhecida, em função de tudo quanto escrevi, a minha genérica oposição às políticas do ex-ministro da Educação Nuno Crato. Com este a Educação perdeu quatro anos. Mais. De quando em vez, sigo alguns dos seus textos e cada vez mais me distancio do seu pensamento sobre este sector. Não sei, sequer, se tem pensamento estruturado no que ao sistema educativo diz respeito. Por aí, fica claro que este texto nada tem a ver com a decisão de Nuno Crato relativamente à não contagem da nota de Educação Física no que concerne ao acesso  ao ensino superior. A minha posição tem dezenas de anos. Uma das últimas vezes que sobre este assunto escrevi foi em 15 de Junho de 2012. Deixo aqui um excerto desse texto:

"Ao contrário de procurar a igualdade com as outras disciplinas, o professor de Educação Desportiva deveria procurar a diferença. Simplesmente porque os graus académicos de formação sendo iguais (Licenciatura, Mestrado e Doutoramento) a sua prática é substancialmente diferente. De resto, não há Jogos Olímpicos, Campeonatos do Mundo ou da Europa de Português, de Ciências ou de História. Mas eles existem no desporto, plenos de beleza estética, de festa, de superação individual e que impelem e influenciam uma prática a qualquer nível. Sendo assim, enquanto uma bola saltitar frente aos olhos de um jovem, jamais alguém precisará de, muitas vezes, “castigar” os alunos com sistemas retrógrados de avaliação, pelo facto da dita bola, ironizo, por um desajeitado pontapé, não ter entrado na baliza, no quadro dos tais superiores objectivos definidos na complexa Unidade Didáctico-pedagógica! Pois bem, "morra" a Educação Física que hoje constitui uma monumental fraude e viva a Educação Desportiva Curricular. Simplesmente porque o Desporto é  um bem CULTURAL, para a vida e não apenas para a etapa da escolaridade obrigatória.

Do livro que escrevi em 2004 - Ano Europeu da Educação pelo Desporto, deixo, ainda, um outro excerto. O texto integral pode ser lido AQUI.

"Joana [1] teve uma mão cheia de cincos mas, na Educação Física, o nível foi um três “muito fraquinho”; Francisco precisou que outros professores votassem o nível de Educação Física para entrar no quadro de honra da escola; José obteve nível dois porque é um “desajeitado, coitado!”; Fernando, porque é obeso e descoordenado, viu um implacável dois na pauta; Teresa, idem, porque “não gosta” e conheço o caso da Luísa, estudante de nível cinco, de excelentes predicados nas atitudes e valores, esguia, flexível, de uma grande disponibilidade corporal, expoente no ballet que pratica quase diariamente mas, ironizo eu, certamente porque, em três meses de futebol, não conseguiu acertar com a baliza ou porque teve um teste fraco, também não foi além do três. Ao lado destes casos, entre muitos que me chegam ao conhecimento, há também o daquela turma que, recentemente, registou cerca de 80% de negativas em Educação Física. Ao fim e ao cabo, situações que dão para pensar sobre o fundamentalismo, dito pedagógico, que por aí anda, desvirtuador da vocação primeira desta disciplina curricular e provocador de um enorme rasto de frustração. 
Ora, é por estas e múltiplas outras razões que defendo, há muitos anos, a morte da Educação Física e o nascimento da área curricular denominada por Educação Desportiva que se abrigue, inclusive, num quadro científico mais vasto e sustentado. Razão tem, pois, o Doutor Manuel Sérgio, ele, um filósofo, que melhor que ninguém neste país sabe interpretar e sintetizar as correntes filosóficas, sociais e o pensamento pedagógico ao longo dos tempos, ao assumir que: “(...) nem científica nem pedagogicamente existe qualquer educação de físicos (...) que a expressão Educação Física se acha incrustada numa ambiência social onde o estudo desta matéria não é conhecido (...) e que a Educação Física deve morrer o mais rapidamente possível para surgir em seu lugar uma nova área científica que mereça dos homens de ciência credibilidade, respeito e admiração” (O DESPORTO Madeira, 27.06.03)". 
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

EDUCAÇÃO, CURRÍCULO E VALORES



"Temos de despertar e acordar para a nossa vocação ontológica de "ser mais". É tempo de ser, para respirar, existir e coexistir. É tempo de questionar. É urgente renovar a Escola: o currículo e as práticas pedagógicas tem de ser espaços e tempos para cultivar valores maiores que contribuam para a afirmação da Verdade, da Justiça, do Bem, do Belo, da Solidariedade, da Fraternidade (entre tantos outros), fazendo regenerar a saúde nessa sociedade doente e corroída pelo individualismo ganancioso, pela mentira, pela inveja, pela maldade, onde se multiplicam tantas formas de pobreza e exclusão (...)"

Emanuel Oliveira Medeiros, in A Página da Educação, edição de Inverno 2017.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

A ESCOLA E A NORMA DO MERCADO


A concorrência e a competição promovidas pelo ranking à imagem da norma do mercado tornam-se um factor importante da reprodução social. A estrutura social das escolas é cada vez mais afectada pelas estratégias de distinção das famílias. O ranking, no fundo, simula um mercado escolar que verdadeiramente não existe.

Por António Guerreiro, 
in Público, 09/02/2018
Bem podem os críticos do ranking das escolas erguer publicamente os seus argumentos contra uma hierarquização obtusa que poderia figurar como um exemplo de idiotia da nossa época. Estarão sempre em desvantagem porque o exercício é excitante, funciona como um jogo e satisfaz uma pulsão escatológica infantil. E quando se passa para o plano da legitimação racional, o modelo do ranking aplicado às escolas está protegido pelo princípio supremo do mercado: a concorrência. No nosso tempo, ela é uma norma global, imposta a todas as actividades como solução universal para melhorar todos os serviços e para promover um aperfeiçoamento progressivo do indivíduo. A concorrência e a competição exaltam a ideia de mérito e, através de uma operação fraudulenta, fazem dele uma figura do poder chamada “meritocracia”.


Mérito e meritocracia não são a mesma coisa. O desenvolvimento de qualidades e competências individuais (inatas ou alcançadas através do estudo, da disciplina e do esforço) que levam ao sucesso é, e sempre foi, digno de apreço. Chamamos-lhe mérito. A meritocracia é uma coisa diferente: é um instrumento político e de engenharia social, ao serviço de um projecto de selecção de poucos através da exclusão de muitos.

Atribui-se geralmente a um sociólogo e político inglês, Michael Young (1915-2002), a paternidade da palavra “meritocracia”, que surge como um significante-mestre num romance satírico que ele publicou em 1958, com este título: The Rise of Meritocracy. Nesse romance, um sociólogo narrador situado no ano de 2033 conta e comenta o extraordinário progresso conseguido no seu país ao longo dos últimos cinquenta anos, graças à superação das velhas ideologias igualitárias e graças ao triunfo da meritocracia.
A intervenção no campo da educação e das instituições escolares tinha desempenhado um papel crucial na grande transformação: primeiro, as escolas tinham simplesmente seguido a economia na luta pelos mercados, mas a certo ponto uma nova política tinha feito da escola o lugar de experimentação de estratégias mais eficazes e sistemáticas de separação dos inteligentes face aos estúpidos, um processo que depois se impôs com sucesso a outros sectores.
E, na fase mais avançada deste processo, as indústrias começaram a aplicar medidas selectivas com base no modelo da escola. No fim, até o exército tinha aprendido a lição escolar. O romance de M. Young é uma utopia negativa. E o seu autor cunhou a palavra “meritocracia” com uma evidente intenção crítica. Mas ela foi reciclada e passou a ter um significado plenamente positivo. E o processo descrito no romance para construir uma escola apta a transformar uma aristocracia de nascimento numa aristocracia de engenho parece ter inspirado a campanha dos rankings, que chega sempre à meia-noite, como o Pai Natal. Tal como no romance de M. Young, a escola “democrática” é assaltada pela lógica do clube selectivo que funciona por cooptação.
A concorrência e a competição promovidas pelo ranking à imagem da norma do mercado tornam-se um factor importante da reprodução social. A estrutura social das escolas é cada vez mais afectada pelas estratégias de distinção das famílias. O ranking, no fundo, simula um mercado escolar que verdadeiramente não existe.
E se existe como um quase-mercado, ele não é fruto de uma lógica espontânea, não se faz naturalmente por obra das “leis imanentes” do capitalismo (como pretendem os partidários da lógica do mercado aplicada ao campo escolar), mas de uma construção política. E essa construção tem no ranking das escolas uma poderosa ferramenta.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

AINDA SOBRE OS "RANKING'S" E A AUTONOMIA DAS ESCOLAS


Ao contrário de algumas pessoas, eu "diabolizo" os ranking's das escolas. Houve tempo, lá para trás, no início dessa paranóia, que ainda considerei poder constituir um mero indicador. Ao longo do tempo, lendo estudos e reflectindo sobre todas as variáveis, aliás como já tive a oportunidade de aqui me prenunciar, não só "diabolizo" como entendo que constitui uma infantilidade conceptual defendê-los. Analiso a escola por aquilo que fazem, pela estrutura organizacional que implementam, pela cultura pedagógica que perseguem, pelas preocupações inclusivas e pelo esforço de ninguém ficar para trás, pela sua luta que atenua as diferenças económicas, sociais e culturais e pelo trajecto dos seus alunos após a passagem por um determinado estabelecimento. Simplesmente porque não existem dois públicos iguais, dois grupos de docentes iguais e, portanto, duas escolas iguais. "Diabolizo", porque é um erro conceptual grave conjugar no mesmo patamar as áreas de intervenção pública e privada. Não faz qualquer sentido, nem justificação existe, seja qual for o ângulo de análise, tolerar sequer a existência de ranking's. De escolas e de exames! E se eles existem é porque existem exames. E eu sou, no ensino básico, contra os exames. Há outras formas de acompanhamento e de avaliação. Ademais, tolerar os "ranking's" significa tolerar o actual sistema educativo e manter a desigualdade. 


Na esteira deste posicionamento surge a "autonomia" dos estabelecimentos de educação e ensino. Colocar reservas quanto ao manifesto interesse de um sistema descentralizado e verdadeiramente autónomo, constitui, do meu ponto de vista, um outro grave erro no quadro do pensamento estratégico portador de futuro. Assumir, como ouvi, que há escolas, talvez se possa dizer, professores, que não estão preparados para a "autonomia", é o mesmo que colocar em causa, desde o tempo da ditadura, a luta pela Autonomia da Região, porque os madeirenses e porto-santenses não estariam preparados para ela. A "autonomia" é um processo de avanços e de recuos no quadro da diferenciação, de aprendizagem permanente, é um caminho de utopia que serve para seguir com convicção, feito de experiências que conduzem à melhoria dos resultados. É esta a minha leitura. Aliás, ainda ontem, o Ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, assumiu: "o que nos dizem as práticas internacionais é que a autonomia das escolas consegue fortalecer, robustecer e alavancar os conhecimentos". Concordo. Na mesma sessão, Andreas Schleicher, da OCDE, foi muito claro: "(...) o desafio para Portugal é educar para as próximas gerações. Para o futuro e não para o passado. E isso significa dar às escolas, mais protagonismo, mais flexibilidade, para alargar o tipo de conhecimentos, aptidões e competências, mas ao mesmo tempo criar mais espaço aos professores e ambientes de aprendizagem inovadores, dando aos estudantes os meios para se preparem para o futuro". Alguém terá dúvidas que este é o caminho? É a própria OCDE que questiona a existência de exames nacionais e defende a autonomia.
Daqui concluo, "ranking's" não, obrigado; autonomia, sim, para as escolas, rapidamente.
Ilustração: Google Imagens.

PRIORIDADE DA CRIANÇA É BRINCAR, NÃO CRIAR CURRÍCULO!


No mundo competitivo que a gente vive, é natural ver muitos pais e mães preocupados em oferecer uma infinidade de cursos para a criançada já na primeira infância. É inglês, música, robótica, reforço escolar, enfim, tudo para capacitá-los a encarar os desafios profissionais que aparecerão lá na frente. No entanto, especialistas são cada vez mais taxativos: brincar ainda é o maior catalisador das competências humanas. É nas pequenas distrações cotidianas que os pequenos aprendem habilidades importantíssimas para a carreira que vem anos mais tarde.


O pediatra Daniel Becker, (ler aqui) pesquisador do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro e um dos criadores do programa Saúde da Família, defende que essa visão curricular sobre as atividades nas quais a criança precisa se envolver pode acabar fazendo com que ela desenvolva comportamentos de competitividade e individualismo. 
O especialista defende que, na infância, a prioridade deve ser o livre brincar, atividade que não pode ser repetida em outra etapa da vida e que é capaz de estimular uma série de competências humanas que nenhuma sala de aula poderá ensinar.
"Nós vivemos uma cultura de excesso de valorização da aprendizagem com adultos, é um paradigma da escola do desenvolvimento. Como se o desenvolvimento de uma criança só se desse na sua interação com adultos, em aulas, supervisões, atividades programadas e estruturadas. Quando, na verdade, isso só provê essa criança de um tipo de ganho, um tipo de inteligência", diz ele.
Segundo o pediatra, uma criança que brinca no parque com amigos vai aprender a negociar, interagir, ter empatia, ouvir o outro, se fazer ouvir, avaliar riscos, resolver problemas, desenvolver coragem, autorregulação, auto estímulo, criatividade, imaginação… Uma série de habilidades que nenhuma aula vai oferecer para ela.
"E elas são muito mais importantes para um adulto bem-sucedido do que uma aula de Kumon ou violino. Não que precisemos desvalorizar a importância de matricular nossos filhos em algumas atividades, mas é importante nunca esquecer que brincando livremente na natureza a criança está aprendendo."
Becker ainda aponta que esse "excesso curricular" pode acarretar até prejuízos:
"Há algumas pesquisas que já estão avaliando que as crianças da geração Y, os millennials, que foram superprotegidas e foram vítimas desse excesso de escolarização, estão se tornando adultos narcisistas, incapazes de lidar com a frustração e com o conflito, tendem a fugir das intempéries… A criança tem que cair e ralar o joelho. Porque a vida dói, a realidade dói. Mas passa. E, no dia seguinte, o machucado ganhou uma casquinha, o corpo está reagindo e fazendo alguma coisa. Daqui a pouco, aquela marquinha sumiu e o joelho voltou ao normal. Olha tudo o que ela aprendeu ali sobre enfrentar a dor, sobre saber que essa dor passa e que o corpo funciona e se regenera. Que aula vai oferecer a ela essa experiência?"
Interessante, não é? E você, o que acha disso?

NOTA

Estudei estas preocupações em 1969, faz para o próximo ano, 50 anos. Só sistema educativo é que ainda não percebeu.

https://www.primistili.com.br/prioridade-da-infancia-e-brincar-nao-criar-curriculo-diz-pediatra

Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

OS EXAMES NACIONAIS E A LÓGICA MERCANTILISTA


Investigação da Universidade de Aveiro conclui que exames nacionais promovem desigualdades entre estudantes. Investigação do Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Aveiro.

Os exames nacionais, para além de agravarem as desigualdades sociais entre os alunos, empurram a organização das escolas para uma lógica mercantilista. O estudo de Andreia Gouveia, especialista em Administração e Políticas Educativas da Universidade de Aveiro (UA) que procurou perceber como estudantes, famílias, escolas e centros de explicações se organizam perante as provas nacionais, vai ainda mais longe: o grande beneficiário dos exames é o crescente mercado dos centros de explicações.

Andreia Gouveia, investigadora da Universidade de Aveiro

“É inegável que existem fundadas razões para ver no instrumento ‘exame’ uma causa para o agravamento das desigualdades sociais no acesso ao reconhecimento escolar”, aponta Andreia Gouveia, autora da tese de Doutoramento em Educação “Exames nacionais, apoios pedagógicos e explicações: a complexa construção dos resultados escolares em Portugal”.
Durante quatro anos, a investigadora esteve em um colégio e um agrupamento de escolas considerados de topo pelos rankings e em outro colégio e outro agrupamento de escolas colocados no fundo dessas tabelas. Nesses estabelecimentos de ensino públicos e privados entrevistou os diretores e membros da direção e 692 alunos pertencentes aos anos em que existiam exames nacionais (à data da realização da tese existiam exames nacionais nos 4º, 6º, 9º e 11º e 12º ano. Entretanto, o atual governo aboliu os exames dos 4º e 6º anos de escolaridade). Andreia Gouveia entrevistou igualmente os diretores dos centros de explicações mais referenciados pelos estudantes.
Se apenas 26 estudantes do 4º ano frequentam explicações, o número aumenta até aos 174 estudantes do 12º ano que recorrem a esse apoio privado. A maioria justifica a escolha tendo em vista uma melhor preparação para os exames nacionais.

Nem todos podem pagar explicações

Apenas os jovens do agrupamento de escolas público pior classificado no ranking afirmaram não recorrer a explicações porque “a sua condição socioeconómica não lhes permitia”. Um facto, alerta a investigadora, que levanta “inquietantes preocupações de justiça social e equidade” já que nem todas as famílias podem suportar uma média de 80 euros mensais por duas horas semanais de explicações, no caso dos alunos do Ensino Básico, ou os 160 euros para os alunos do Ensino Secundário. A mensalidade pode mesmo ser “muito mais avultada, tendo em consideração o número de horas e de disciplinas a que os estudantes podem ter explicações”.
São precisamente os estudantes das escolas melhor posicionadas no ranking que mais procuram centros de explicações, sendo que a maioria dos alunos da escola pública melhor classificada afirmaram recorrer a explicações em todos os níveis de ensino. Estes dados, aponta Andreia Gouveia, “permitiram-nos verificar como o mercado de explicações influência o sistema formal de ensino, pois ao frequentarem as explicações fora da escola os alunos deixam de frequentar os apoios oferecidos no interior da escola”.

Os fins justificam os meios

“A fragilidade dos exames começa pela descontextualização em que operam ao ignorar os espaços de ensino-aprendizagem: não importa o processo para chegar aos resultados, o que importa acima de tudo é o resultado”, diz Andreia Gouveia. “Se os fins justificam os meios, as famílias vão usar de todos meios ao seu alcance para atingirem o fim máximo da performance escolar que é aquilo a que se convencionou chamar a excelência escolar”, aponta.
E se dessa “excelência” depender o acesso à universidade e, com isso, de um futuro promissor, as famílias informadas e com poder de compra sabem quais as estratégias mais seguras: “assegurar a frequência das ‘melhores’ escolas e dos ‘melhores’ explicadores e quanto mais cedo melhor”.
“Os exames nacionais deveriam ser entendidos como mais um instrumento, mais um método, retirando-lhes a excessiva valorização que está na origem de momentos de enorme tensão, stress e ansiedade para todos os alunos e suas famílias, bem como para os estabelecimentos de ensino que frequentam”, justifica.
Andreia Gouveia lembra a realidade de países onde não se conhecem exames nacionais, como é o caso da Dinamarca, da Finlândia ou da Suécia, e que apresentam níveis muito baixos quer de oferta quer de procura de explicações. Países “onde para as famílias é inquestionável a qualidade do ensino público prestado, não sendo por isso alimentado o mercado paralelo ao sistema formal de ensino”.
Num contexto onde os decisores políticos continuam “governando pelos números”, a imagem organizacional da escola em Portugal, refere a especialista, “tende a ser associada a uma empresa educativa, com os resultados académicos a serem determinantes na avaliação, prestação de contas e responsabilização das instituições educativas e dos seus atores”.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

ESTA É DE ALMANAQUE


Passaram-se mais de dois anos da actual legislatura e só agora o secretário regional da Educação decidiu ouvir mil jovens para, segundo li, "perceber quais as preocupações, motivações, necessidades e projectos dos jovens de hoje, para que possa haver políticas ligadas à área da juventude que vá ao encontro dessas mesmas motivações" (...) "É importante que tenham a percepção de que estamos a traçar um projecto, e um caminho não só para vós e para todos os que vos irão secundar na juventude". Ora bem, se há dez, quinze, vinte ou trinta anos tivessem tido uma iniciativa destas, obviamente, continuada no tempo, vá que não vá! Agora, quarenta anos depois, com todas as maiorias absolutas, não saber o que se reveste de importância para o futuro, penso que é de almanaque! 


Presume-se da notícia, duas coisas: primeiro, pela presença do director regional da Juventude e do Desporto, que esta iniciativa está mais ligada a estas áreas específicas e não ao sector da Educação, entendido como chapéu onde todas as áreas se abrigam; segundo, então, pergunto, para que serve o Conselho Regional de Juventude da Madeira, órgão de consulta do secretário? Será, apenas, um órgão político, porta-voz dos interesses político-partidários do vértice estratégico da hierarquia? E para que tem servido as sessões do Parlamento Jovem, onde, tematicamente, têm sido discutidos assuntos pressupostamente importantes e "aprovadas" as decisões? E, já agora, para que serviu e o que restou do Ano Europeu da Educação pelo Desporto (Comissão Europeia), realizado em 2004, e que teve abertura oficial na Madeira? Tratou-se só de espectáculo político? Uma pergunta complementar: "é importante que tenham a percepção de que estamos a traçar um projecto (...)" disse o secretário, significa isto que vão dar conhecimento ou a iniciativa visa auscultar? Ou se trata de uma insanável incoerência ou de um lapso de comunicação! 
Mais, ainda, admitindo a necessidade de uma auscultação, não seria mais importante discutir o sistema educativo, globalmente, no quadro da Autonomia Político-Administrativa, a sua organização, a estrutura curricular, programática e pedagógica, trazendo à colação a voz dos alunos, dos pais, dos investigadores, dos professores, das instituições empresariais e sindicais, enfim, não seria preferível colocar em cima da mesa, tudo, mas tudo, despindo a EDUCAÇÃO de todas as convenções e estereótipos?  . Bastaria que a equipa da Educação tivesse como ponto de partida o programa da RTP1 "Fronteiras XXI" ou ler os relatórios do Ano Europeu da Educação pelo Desporto, onde foram aplicados, em todo o espaço europeu, 11,5 milhões de euros. Portanto, estou em crer que este é mais um número político regional no quadro da ginástica. Mas sem a sublime beleza, da mesma, sublinho. Não mais do que isso. Infelizmente, de mal a pior, porque não existe um fio condutor nas iniciativas.
Ilustração: Google Imagens.
Fonte: DN-Madeira

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

RANKING'S - AS ESCOLAS PÚBLICAS PREPARAM MELHOR PARA A UNIVERSIDADE


Os "ranking's" dos estabelecimentos de ensino constituem a mais desprestigiante afronta aos estabelecimentos públicos. E, convenhamos, embora em menor escala, também aos de iniciativa privada. Felizmente que o Ministério se distancia desta catalogação, mas há quem os promova. Os dados dos exames nacionais, obviamente, são públicos e, portanto, a comunicação social compila-os e divulga-os de forma fria, isto é, descontextualizada. Aquilo que foi uma novidade e até tido por um mero um indicador, hoje, em presença de novos enquadramentos, deve ser considerado uma ofensa, um insulto, porque, desde logo, só se pode e deve comparar o que é comparável.


Como é possível estabelecer uma comparação entre o público e o privado, entre o Norte e o Sul, entre o litoral e o interior? Que legitimidade existe colocando em contraponto, diferentes formas de recrutamento de alunos, por isso mesmo, públicos diferentes, níveis económicos, sociais e culturais distintos, escolas que especializam alunos em exames, em detrimento de uma aprendizagem mais geral e consentânea com a  vida? Como pode ser comparável uma escola pública com 94% dos alunos apoiados pela acção social educativa, melhor dizendo, pobres, com uma outra, privada, sujeita a uma prévia entrevista de selecção e a um pagamento mensal muito próximo dos mil euros? Impossível comparar, ano por ano. Porém, o que se sabe, através de estudos realizados, parecendo um paradoxo, é que os alunos oriundos da escola pública acabam por ter melhores resultados no percurso universitário. Um estudo de 2013 da Universidade do Porto, divulgado pelo jornal Público, dá-nos conta: "(...) analisados os resultados de 2.226 alunos que concluíram pelo menos 75% das cadeiras ao fim de três anos, os provenientes das privadas têm piores resultados. As escolas privadas preparam melhor os alunos para os exames, mas não para terem um bom desempenho na universidade. A Universidade do Porto (UP) analisou o percurso académico de 4280 estudantes admitidos no ano lectivo 2008/09 e concluiu que, entre os 2226 que concluíram pelo menos 75% das cadeiras dos três primeiros anos, os estudantes que provinham de escolas públicas apresentavam melhores resultados académicos do que os provenientes das privadas. (...) As escolas privadas têm grande capacidade para preparar os alunos para entrar, mas o que se verificou é que, passados três anos, estes alunos mostraram estar mais mal preparados para a universidade do que os que vieram da escola pública", adiantou ao PÚBLICO José Sarsfield Cabral, pró-reitor da UP para a área da melhoria contínua. Um paradoxo? Certamente que não. 
Ademais, o que a todos deveria preocupar não é, certamente, as classificações nos exames nacionais, mas a estrutura na qual assenta o sistema educativo. Andam, alguns, em uma quase paranóia anual, porque subiram ou porque desceram uns lugares na "tabela classificativa", não se dando conta do sistema estar ou não adequado aos desafios da formação do presente e do futuro. Felizmente, já tantas vozes se levantam contra este sistema arcaico, portanto, desprovido de sentido. Neste quadro, considero patética a posição da Secretaria Regional da Educação que, ao contrário de ver o sistema e de criticar esta obsessão pelos resultados dos exames nacionais, onde todos os anos há variações substantivas em função de múltiplos factores, prefere assumir que melhorámos aqui e ali. Foi poucochinho, mas melhorzinho! Não conseguem ver a Lua, mas o dedo que aponta para a Lua.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

UMA SEMANA EM NOVA YORK VALE MAIS QUE TRÊS MESES DE AULAS!


Os professores são vítimas do sistema educativo que integram. Existe uma linha hierárquica bloqueadora da autonomia e de qualquer inovação. Só a muito custo e correndo riscos e incompreensões diversas, aqui e ali, sobretudo quando quem dirige a escola defende um paradigma diferente, alcandoram-se a formatos que ajudam a compreender que há outros caminhos possíveis para o conhecimento. Formatos organizacionais e pedagógicos, olhados de forma enviesada pelos governantes, porque saem do seu absoluto controlo, mas que evidenciam inteligência, sabedoria e capacidade para ver que o sistema que profissionalmente servem, se já não consegue responder aos desafios do presente, o que fará no futuro! Tenho é pena que a generalidade dos professores não se levante contra as aberrações do sistema, manifestando o seu inconformismo.

Na passada semana li, na Visão (páginas 61/67), uma deliciosa entrevista com o Arquitecto Álvaro Siza Vieira. Duas passagens cativaram-me: "Tem de haver tempo para pensar" (...) "O prazer de viajar... extraordinário! Um prazer extraordinário, a viagem. É uma aprendizagem e um prazer". Ora, tempo para pensar é o que a escola não incentiva, tampouco proporciona. A escola tem um programa, tem normativos, tem órgãos que os cumprem e tem uma espécie de polícia, a inspecção, que de lupa em punho, entre outros, vasculha sumários e corrige com processos quem sai da norma! Daí que, desde as primeiras idades, PENSAR*, no quadro da filosofia (elas tornam-se mais poderosas) não faça sentido para o sistema, por um lado, porque o pronto-a-vestir é de tamanho único, por outro, porque existem salazarentos resquícios entranhados que defende a existência de iluminados que pensam pelas crianças e jovens. Quanto ao prazer de viajar, em um sentido lato, é extraordinário. No caso da Madeira é o mesmo que dizer que há mais Mundo para além da Ponta de S. Lourenço. E é possível pô-los a viajar, aqui dentro e lá para fora, não apenas fisicamente, mas também através de uma outra estrutura dos meios disponíveis. E sendo assim, o manual das várias disciplinas é curto, muito curto e até extremamente condicionador. O "conhecimento" enciclopédico é desinteressante e não é fonte de prazer quando não é vivido, participado e sentido.
Na semana em curso o Henrique e o Pedro, meus netos, viajaram até Nova York. Justificaram perante a escola que não levantou qualquer problema. Já não foi mau. Disse-lhes antes da partida: desfrutem, porque uma semana, em Nova York, bem aproveitada para múltiplas visitas (antecipadamente programadas), vale mais que três meses de aulas. "É uma aprendizagem e um prazer" na expressão de Siza Vieira. De tal forma que, aproximando-se o dia do regresso, tenho já relatos do que viram e das experiências que fizeram que os leva a dizer que "gostariam de perder o avião de regresso". Como os percebo, enquanto corolário das nossas conversas. Regressam à ilha pequenina, ao manual, às aulas rotineiras, aos testes, às avaliações, àquele mundo limitado próprio de consciências adormecidas pela imposição da rotina de uma máquina industrial que não pensa.
Feliz ficaria, se, no regresso, a escola, relegando para segundo plano o martírio das aulas, eles pudessem partilhar com todos, em inglês falado, com fotos e vídeo, o que viram, o que sentiram, cruzando no todo e de uma forma única, as múltiplas disciplinas que esta viagem proporcionou. Sem a elas se referirem. A vida é isso, é um todo, não são disciplinas! A vida e a escola deveriam ser vistas pelo ângulo da cultura. Mas não. O que acontecerá, certamente, é fecharem-se no "estudo" (estudar para esquecer) para os testes que foram (re)marcados para os próximos dias. A resposta à pergunta do manual está primeiro que a verdadeira contextualização do conhecimento. A hierarquia assim impõe. O professor é tão-só uma peça da máquina trituradora de talentos. Daí que dê total razão ao alerta de Ilídia Cabral, docente da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa: tal como estão, "as escolas tornam-se, para inúmeras crianças e adolescentes, verdadeiras catedrais do tédio". Alguém terá dúvidas? Siza Vieira, o Arquitecto criador, do alto dos seus 85 anos, não tem.

Há algo em comum entre crianças e filósofos: a capacidade de se maravilhar com o mundo. Aqui.

Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

POR ESTA OU AQUELA RAZÃO...


Ao fim de quase quarenta anos ligado à escola inquieta-me que…


… a escola em particular e a educação no seu todo sejam das áreas sobre a qual todos sabem tudo — muitos porque passaram pela mesma enquanto alunos, outros simplesmente porque sim e uns quantos porque a democracia lhes deu a representatividade do povo e sob essa capa de um momento para o outro tornaram-se experts em tudo o que tenha a ver com a mesma, divulgando nos cafés e redes sociais sabedorias e soluções mais ou menos enigmáticas…
Assumo que nutro profundo respeito pelas pessoas que têm opinião e que a expressam frontalmente, pois é na variedade de experiências e opiniões de profissionais de diferentes ofícios, que, de forma livre e descomprometida, as expressam, sem segundas intenções que surgem as soluções, pois têm o dom de apontar, lucidamente, aspetos negativos e positivos face às diferentes situações que surgem na escola, não estando somente para dizer mal e difamar os profissionais da educação (temos nesta terra algumas almas que só sabem dizer mal da Escola, sendo que para elas nesta nada está bem!).

Que sabem realmente sobre a escola alguns dos nossos eleitos/ que tanto escrevem nas redes sociais?

Apesar dos muitos constrangimentos, considero que a abertura da escola de 2º e 3º ciclos no Curral das Freiras foi um marco, existindo um antes e um depois, podendo a freguesia orgulhar-se da sua escola, dos seus alunos, dos seus professores, dos seus órgãos diretivos, dos seus funcionários, da sua Associação de pais/comunidade educativa e do imenso e meritório trabalho desenvolvido, de que os excelentes resultados escolares obtidos nos exames nacionais e a redução das taxas de abandono escolar ou de duplas e triplas retenções são meros exemplos, mas que muito nos motivam.
Acredito que a geração pós escola será indubitavelmente uma geração mais competente, mais exigente, mais participativa, mais competitiva, enfim teremos certamente melhores e mais competentes cidadãos.
Por hora termino citando o presidente Jorge Sampaio “A cidadania é responsabilidade perante nós e perante os outros, consciência de deveres e de direitos, impulso para a solidariedade e para a participação, é sentido de comunidade e de partilha, é insatisfação perante o que é injusto ou o que está mal, é vontade de aperfeiçoar, de servir, é espírito de inovação, de audácia, de risco, é pensamento que age e ação que pensa.” Cujo pensamento influenciou o lema da escola “Por uma Escola de Valores – Com excelência formamos homens e mulheres para e com a sociedade”

NOTA
Texto do Dr. Joaquim José Sousa, Escola B+S do Curral das Freiras, publicada no DIÁRIO das freguesias.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

"O ESTALEIRO DA EDUCAÇÃO"


Assinado pela leitora Pamela Santos li, no Correio da Madeira, um texto subordinado ao título "O estaleiro da Educação". Da sua leitura retive ser cada vez mais evidente que o actual secretário da Educação não consegue ter mão no sistema. Do que tenho lido, que se me afigura preocupante, conduz-me a várias perguntas: afinal, quem tem responsabilidades políticas na Educação? Quem manda naquilo? O secretário ou os quadros intermédios e assessores? Qual a verdadeira VOCAÇÃO e MISSÃO da secretaria? Que princípios e valores a orientam? Que políticas sustentam (se existem) os seus objectivos de curto, médio e longo prazo? Andarão, por ali, resquícios de um passado recente? O que leva a "perseguir" pessoas com processos disciplinares? Chega! A EDUCAÇÃO não é um brinquedo de entretenimento político. É o futuro e a sobrevivência da Região.


Vive-se um quadro que, se pensarmos no futuro, aproxima-se do dramático. Os silêncios, muitas vezes, são ensurdecedores. E é este o caso. Os problemas agudizam-se e a secretaria parece uma "casa dos segredos". O líder do governo vai dizendo umas coisas de circunstância, porém, longe de dominar o que se passa e, mais ainda, distante de uma orientação portadora de futuro. Não existe pensamento acerca do amanhã, apenas a rotina da burocracia que enxameia as mesas, desde o intocável centro de decisão até aos estabelecimentos de educação e ensino. Se antes era mau, agora parece-me péssimo. Não estou a escrever nada de novo. Apenas estou a trazer à colação textos publicados, sentimentos vindos a público, cartas-do-leitor, técnicos de valor que, subtilmente, vão-se distanciando, professores sobrecarregados e desanimados, promessas não cumpridas, sindicatos críticos, manifestações de pais e de alunos à porta da escola, ausência de financiamento, indisciplina por desfazamentos familiares a montante, mas também porque a escola não está pensada para as novas gerações, e, perante tudo isto, o silêncio, como se nada estivesse a acontecer. Como se o Mundo tivesse parado, já não digo há 200 anos, mas há vinte ou dez anos. Como se algumas mexidas nas margens fossem suficientes para resolver as questões nucleares. Aquela carta, entre outras, evidencia a existência de uma tetraplegia governamental que bloqueia movimentos, demonstra uma estrutura conceptualmente estática, porque não desafia, não gosta de enfrentar o risco, que disserta no sentido dos outros saírem do tal paleio da "zona de conforto", mas que se refastela, comodamente, no sofá dos gabinetes. A Educação deve ser engenho, arte, cultura, inclusão, provocação, participação, crítica, responsabilidade, inovação, criatividade, curiosidade, pensamento, experiência, vivência e partilha, justiça, solidariedade, valores, autonomia, tecnologia e, entre tantas palavras que podemos juntar, deve ser democracia e liberdade. A Educação não é, não pode confinar-se a um edifício, currículos, programas, turmas, aula, testes, avaliação, exclusão vs meritocracia, burocracia, conflitos, uniformização, centralização, mercado, estatísticas e prática pedagógica heterónoma. A Educação é muito mais do que isto. É, por isto e muito mais que surgem textos como "O estaleiro da Educação".
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

"O CONSTRANGIMENTO DA MADEIRA É A ILITERACIA"


Conduzida por Maria Catarina Nunes, li uma excelente entrevista publicada, no DN-Madeira, no dia 23 de Janeiro. Pelo seu interesse, deixo aqui um excerto que me provocou uma atenção especial. Aquelas palavras muito nos deixa a pensar sobre o Sistema Educativo. 


Não há páginas de imprensa suficientes para contar uma conversa com Manuel Sobrinho-Simões. É considerado o patologista mais influente do mundo e é dos maiores especialistas em cancro da tiróide. Criou escolas de patologia em diversos países e, em 1989, fundou o Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP). Mais tarde, é também responsável pelo I3S, no Porto, o maior instituto de investigação português em Ciências da Saúde, cujo edifício foi agora escolhido para representar Portugal na Bienal de Veneza. É um conversador nato, e toca em temas que vão muito além da saúde e da investigação. Para si, os livros “são objectos vivos” e falta pensamento crítico aos alunos de medicina. Admite que a educação é a sua grande paixão mas, este ano lectivo, depois de completar 70 anos em Setembro, já não dá aulas na Universidade do Porto porque a reforma chegou. Confessa ter “terror” dela (assim como muitos outros medos) e por isso faz o que chama “uma fuga para a frente”. Foi agora eleito professor emérito da Faculdade do Porto e esteve na Madeira a propósito das conferências de Telesaúde e para falar sobre patologia digital. Com o DIÁRIO também conversou sobre a importância da família, a reforma, a morte ou os afectos.

"A cultura das nossas escolas secundárias e das universidades é a cultura da matéria (...) estão treinados para fazer exames"

(...)

"Como são os estudantes portugueses?

Tive alguns tipos depois da Revolução... Eu era vagamente esquerdista e não me podiam expulsar por ser de direita. Quando eles exageravam punha-os no olho da rua. Era um pânico porque ninguém mandava para o olho da rua na pós-revolução. Hoje os alunos de medicina são muito parecidos: muito bons alunos, bem educados, cumpridores. São excessivamente postos por ordem. Temos um problema: são muito bons alunos, tiveram que decorar muito para entrar em medicina, desenvolveram muitas capacidades de memorização, mas não são tipos que tenham vivido muito. Não contam bem histórias, são pouco narrativos, estão treinados a fazer exames de cruzinha, vêem-se muito aflitos nas provas orais. Mas são bem educados, sensíveis e inteligentes. Têm muita pouca graça.

São demasiado pragmáticos?

E postos por ordem, não estou muito contente. Estamos a seleccionar, no ensino secundário, para Medicina (e se calhar para outras áreas) com base na memorização, na capacidade de responder a perguntas teóricas em vez na base do pensamento crítico, da criatividade. Não sei até que ponto, na Medicina, não é mais importante haver criatividade, pensamento crítico. E gostar de pessoas mais do que de coisas. A nossa cultura das escolas secundárias e das universidades é uma cultura da matéria, sobretudo para estas áreas. Na Medicina era importante também desenvolver gosto pela música, pela dança, pelo trabalho colectivo.

Reflectia-se na prática clínica?

Tenho a certeza que sim. Melhorava a capacidade dos médicos conversarem. Também é fruto do que têm para fazer, têm muita informação, têm um computador com um interlocutor, não têm um treino de conversar com doentes que sejam chatos. Isso e a formação está a tirar qualidade à medicina clínica. Clínica significa inclinar, é o tipo que está sobre uma cama. ‘Clinos’ é cama. Médico é o que está no meio. O médico clínico é o que está no meio, mas que além disso se inclina para alguém. Nada disso se está a fazer hoje. Também porque os portugueses gostam muito de análises. Somos o povo mais medicamentado da Europa do euro. O português adora tomar pastilhas e pingos à noite. Outra coisa horrível é que somos, depois da Grécia, o país da Europa do euro que tem mais aparelhos de TAC por habitante. O português adora fazer TAC. Temos uma ideia muito retórica, o valor da palavra, o valor das análises."
(...)
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

É POSSÍVEL CONSTRUIR UM ESPÍRITO LIVRE?

"A espécie humana tem um longo período de infância e adolescência, para que aconteça o desenvolvimento e a maturação de sistemas vitais. É um processo lento, que requer determinadas condições, contudo, trata-se de uma oportunidade extraordinária para desenvolver competências e valores essenciais, através de experiências biopsicossociais e espirituais, em contextos lúdicos de aprendizagem que desenvolvem a resiliência, o comportamento adaptativo e a criatividade. Estes atributos permitirão aprender a interpretar os factos da vida, dentro da sua relatividade, de forma mais holística possível, transformando-os em variáveis que estimulam e desafiam para viver riscos. Estes serão aceites como factores naturais e fundamentais, para a estimulação individual e a consolidação da autoconfiança, vetores basilares para a autodeterminação e o propósito de ser livre. Contudo, se não construir uma visão clara do que pretende e um inabalável desejo de o atingir, esse propósito não passará de uma miragem, mesmo em liberdade, dificilmente um espírito será livre. Carlos de Andrade, nascido no dia 01 de julho 1967, era um menino com sonhos de uma vida melhor e mais feliz. Português, moçambicano de nascença, madeirense por assimilação. O Carlos de Andrade de hoje é o resultado de um conjunto de experiências e histórias do passado com impacto no presente e no futuro dos que o rodeiam, desde as origens em África, à fuga e pobreza provocada pela guerra; foi refugiado, atleta, estudante, professor, mentor, empresário, funcionário público e é sem dúvida um risk taker e um free spirit. Hoje, é mentor para muitos que procuram um caminho para a felicidade; excelente pai, querido amigo, líder e membro dedicado às suas equipas, que segue inspirando e orientando, sem nunca faltar o dom para o discurso, a boa disposição, a assertividade, a confiança, o bom senso, um bom ouvido e a vontade de mais alcançar e aprender todos os dias, passando pela luta para encontrar uma vida melhor para si e para aqueles que lhe são queridos."

 

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

SOU MÃE E SOU PAI E ESTOU ASSUSTADA


Na edição do DN-Madeira, de 20 de Janeiro, na secção "Cartas do Leitor", assinada por Lurdes Camacho, li o texto que abaixo reproduzo. Não comento, mas, face à ausência de qualquer posição por parte da Secretaria Regional da Educação, julgo que competirá aos partidos políticos com assento na Assembleia, tomarem em mãos a causa da EDUCAÇÃO. Trata-se de um sector onde é evidente um preocupante silêncio, quando o nosso futuro colectivo dela depende. São as questões organizacionais, as de natureza curricular, os programas e está em causa como transmitir conhecimento. Mas não apenas nestes fulcrais aspectos. Convido os leitores a lerem, por exemplo, um texto no blogue Fénix do Atlântico sob o título "A Educação está a arder". Por onde anda o Presidente do Governo?  



"Serve o presente para expor a situação, deveras preocupante, que se vive na Educação na Madeira, porque é que temos tantas crianças sem aulas, tanta desigualdade entre crianças? Temos escolas onde as turmas tem mais professores que alunos, e escolas onde tantos alunos não têm professores, escolas sem funcionários e outras onde os funcionários se atropelam. 
Eu, enquanto cidadã, sempre acreditei e muito nas pessoas da minha terra, sempre achei que eram honestas e se preocupavam com a valorização daquilo que é colocado à nossa disposição, à disposição do nosso desenvolvimento.
Sou mãe de uma aluna do 2.º ano, no início do ano a turma era pequena, mas a minha filha estava a aprender, agora as turmas estão juntas e a minha filha já não quer ir para a escola. A direção da escola mostrou-nos os documentos em que pede que a professora seja substituída, mas não tem resposta. Eu sei que escolas como o garachico, santana, madalena ou curral entre outras também têm turmas juntas, mas está mal, o futuro das nossas crianças não pode ser tratado com tanta irresponsabilidade, alguns meninos sem conhecimentos de português e outros com necessidades educativas especiais e estão em turmas de anos diferentes numa mesma sala, simplesmente porque a secretaria nunca colocou uma Professora para cada turma. 
Mas senhor Secretário e ao mesmo tempo: 
Há escolas na RAM no 1.º ciclo que, com 16 alunos por sala têm 2 professores efetivos e outras com 20 juntam salas. 
Há escolas na RAM que têm professores de informática no 1.º ciclo e outras são proibidas. 
Há escolas da RAM que no 2.º ciclo têm par pedagógico em todas as disciplinas e outras onde faltam professores. 
Há escolas da RAM que no 3.º ciclo têm par pedagógico (20 professores) em turmas de 3 alunos e outras onde alunos não tem aulas por falta de professores. 
Há escolas da RAM em que os alunos não têm professores e a secretaria não os coloca. 
Há uma escola da RAM que tem tantos alunos como professores, mas como o diretor é amigo do SRE está tudo bem. 
Há nas escolas da RAM professores e diretores que por não baterem palmas nem dizerem sim senhor ao SRE são perseguidos “pelo braço punidor/ Inspeção de Educação” do gabinete do secretário da educação. 
Há medo nas escolas senhor secretário, não deixe que isso aconteça. 
As escolas não deviam ser um serviço de igualdade senhor secretario da educação, não trate mal os nossos filhos, nós sabemos que a sua filha está numa turma de privilegiados numa escola pública, mas não se esqueça dos filhos do povo. 
Termino citando Francisco Sá Carneiro que em 1972, ainda que em ditadura nos dizia “O que não posso, porque não tenho esse direito, é calar-me, seja sob que pretexto for.” Sá Carneiro era do PSD, o senhor supostamente também senhor secretário, não é o PSD o partido da Paz, do Pão do Povo e da Liberdade?"
Lurdes Camacho

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

NO FÓRUM DE DAVOS - JACK MA FALOU DE MUDANÇAS NO SISTEMA EDUCATIVO


Vale a pena escutar a intervenção de Jack Ma. Sabe-se que assim é, mas há políticos que, infelizmente, não sabem ou não querem mudar. Numa rápida tradução das legendas do vídeo, no essencial, disse: A EDUCAÇÃO é um grande desafio. Se não mudarem a forma como estão a ensinar, nos próximos 30 anos terão problemas. A maneira como ensinamos, as coisas que ensinamos aos nossos filhos são as coisas dos últimos 200 anos. Não podemos ensinar nossos filhos a competir com máquinas. Eles são mais inteligentes. Os professores devem parar. Transmitir conhecimento. Temos que ensinar algo único. A máquina nunca pode sobrepôr-se. Estas são as habilidades suaves que precisamos de ensinar: valores, o pensamento independente e o trabalho em equipa. Devemos ensinar aos nossos filhos: o desporto, música, pintura para fazer seres humanos diferentes. Tudo o que se ensinar deve ser diferente.

TUDO O QUE ENSINAMOS 
DEVE SER DIFERENTE DAS MÁQUINAS!


quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

EM MACHICO OS ALUNOS PROTESTARAM CONTRA O SISTEMA EDUCATIVO



"Os estudantes da Escola Básica e Secundária de Machico encontram-se, hoje, em greve contra o actual sistema de ensino. Mais de uma centena de alunos aderiram ao protesto espontâneo que dá voz às principais inquietações dos finalistas do 3.º ciclo e secundário: carga horária excessiva, falta de opções curriculares, ‘abandono’ das área criativas e das Artes e um sistema de avaliação redutor baseado quase exclusivamente em testes.


“Estamos descontentes com o método de ensino actual. Estamos a ser todos encaminhados para as Ciências e Matemáticas e estão a cortar toda a nossa criatividade”, declara Marla Viveiros, uma das alunas que lidera este protesto estudantil. Marla, à semelhança de muitos colegas, considera que a actual oferta curricular da escola (direccionada sobretudo para as Ciências e Matemática), aliada a uma carga horária que “não para de aumentar” deixa pouco ou nenhum tempo aos jovens do 9.º e 12º ano para pensar e decidir sobre o que querem fazer no futuro. Por outro lado, os alunos mostram-se descontentes com o próprio sistema de avaliação, baseado quase exclusivamente num único teste por período. “O nosso conhecimento vai muito além dos testes”, defendem. Entre outras reivindicações, os jovens machiquenses reclamam ainda mais aulas práticas. “Como é que é suposto decidirmos o que vamos fazer se não experimentamos fazer nada?”, questionam. Em declarações ao DIÁRIO, os alunos alegam que o protesto iniciado esta manhã contava com uma adesão de “mais de 100 alunos”. Após uma intervenção do Conselho Executivo, que terá chamado ao seu gabinete dois dos ‘cabecilhas’ da manifestação por estarem a perturbar o silêncio em tempo lectivo, muito dos aderentes à greve terão começado a dispersar. (...)"

NOTA

Texto publicado pelo DN-Madeira (jornalista Erica Franco) e aqui reproduzido.

BREVE COMENTÁRIO

"SE O MUNDO MUDA, OS CURRÍCULOS E A ESCOLA TÊM DE MUDAR" - Maria Emília Brederode Santos, Presidente do Conselho Nacional de Educação.

Era uma questão de tempo e este Sistema Educativo rebentaria por onde seria mais natural: os alunos. Interessante é a chamada à responsabilidade dos ditos "cabecilhas". Contava-me um ilustre Amigo com quem tinha longas conversas, que há países que até ostentam estátuas à liberdade por defenderem a democracia. Mas, aquando de manifestações, não querem saber dos motivos que subjazem aos gritos de revolta. Apenas querem saber quem organizou e esses ficam com o destino definido!
Fico feliz por aquela chamada de atenção ter decorrido em Machico, terra de longas lutas pela democracia. E fico feliz por ver que os alunos tomaram consciência do logro deste sistema. Ao invés de ouvirmos, em coro, os professores contra um sistema absolutamente anacrónico, não, foram os alunos "chamados ao tapete" para que tudo continue igual. É a máquina da estupidez a funcionar em pleno.
Sou colaborador da revista A Página da Educação. No último número escrevi subordinado ao título "A máquina, os pingos de chuva e a ferrugem". Referi-me, a páginas tantas, a "uma certa ausência de questionamento sobre a máquina. Há silêncios a mais. Há braços caídos e até mesmo uma sensação de que não vale a pena. É mais fácil manter a rotina do que molhar o fato perante a chuva de críticas que a todo o momento cai". Curiosamente, foram os alunos, a ponta mais fraca, a enfrentar a chuva. Para mim é espantoso aquilo que o Conselho Executivo entende como quebra do "silêncio em tempo lectivo". Trata-se do toca-entra-toca-sai! Tal como na fábrica.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

UM LIVRO DE LEITURA OBRIGATÓRIA NÃO APENAS PARA PROFESSORES E TREINADORES


Do meu distinto Amigo Gustavo Pires recebi, ontem, o notável livro "Agon - Homo Sportivus", seu autor em parceria com o Professor António Cunha. No prefácio de um outro Amigo que quase todos os dias tenho presente, o Doutor Manuel Sérgio, leio: "Uma pequena introdução a um grande livro". Ainda não iniciei a leitura, apenas folheei as 300 páginas de sumo a avaliar pelo índice que começa em Tai Kung (Século XI aC - Estrategas e Estrategistas) até às Estratégias e Estratagemas dos tempos actuais. É um livro, de acordo com o Filósofo Manuel Sérgio, que obriga a um "faiscar de pupilas, de muita admiração e respeito" quando escrito por aqueles dois autores.


Tenho por Gustavo Pires, Catedrático da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa, uma admiração que vem de longa data. Temos uma Amizade recíproca. Comungamos de idênticos pontos de vista sobre a Educação Desportiva. A sua luta, incompreendida, ficará para "memória futura", da mesma forma que a sua persistente e profunda investigação em matérias de Olimpismo, com vários trabalhos publicados, um dia servirão para corrigir erros estratégicos cometidos e que fazem de Portugal um país sempre distante do topo. Faço notar que as duas vertentes estão interligadas: a educação desportiva, enquanto bem cultural, e o olimpismo que alia a cultura à educação. 
Parabéns Amigo Gustavo, extensivo ao António Cunha, Mestre em Ciências do Desporto, por este livro que Manuel Sérgio considera de extremo "rigor e originalidade".

domingo, 14 de janeiro de 2018

TIREM-ME DESTE FILME!


No âmbito do I Encontro "Ambientes Inovadores de Aprendizagem", o secretário Regional da Educação falou do "Projecto Cap3r (capacitar a aprendizagem promovendo estratégias de robótica, realidade aumentada/virtual e impressão 3D). Fiquei estarrecido com o anúncio de aquisição de 50 óculos! Espero que alguns fiquem pela secretaria da Educação, melhorando a visão da realidade do sistema. Como vulgarmente se diz e seguindo o desabafo de um professor com larga experiência, com quem me cruzei, "por amor da santa, tirei-me deste filme". E porquê? Apenas por uma pergunta que dá aso a  muitas outras: este projecto faz parte de quê? Trata-se, digo eu, de mais uma fase orgásmica do sistema, pois não se integra de forma consistente em um novo paradigma da educação, consubstanciado em uma diferente organização dos estabelecimentos de ensino, em uma nova perspectiva curricular, programática e pedagógica. 


Ora, quando não existe uma preocupação pela estrutura do pensamento, sobre aquilo que, efectivamente, se deseja, é óbvio, que o sistema tende a (sobre)viver dessas fases orgásmicas em sentido figurado, enquanto efervescência de sentimentos que depressa passam. Momento de desejo, excitação, plateau, orgasmo e resolução. Lá virá outra, cheia de entusiasmo, a que se seguirá o repouso político. O trabalhinho fica feito. Lamento que assim seja. 
O sistema precisa de uma revolução face à qual não existe coragem para a fazer. Mexer no sistema com determinação e a consciência que são necessários quinze, vinte ou mais anos para que ele funcione com absoluta normalidade e capacidade de mudança a todo o momento, é difícil e não está ao alcance de qualquer. Joga com muitas variáveis. É, por isso, que a Região precisa de políticos com essa ambição, que saibam de todos os domínios do sector, que tenham engenho e a arte de produzir, capazes de seguir um processo e, sobretudo, determinados a relegarem impulsos de circunstância. Com frontalidade e de forma muito séria, os mentores do actual sistema assemelham-se a crianças a quererem subir degraus de três em três e estatelam-se. Eu sugeria, entre outros, a leitura deste texto, AQUI
Preferível seria, depois de mais de dois anos de mandato, que o secretário da Educação da Madeira, negando-se aos impulsos, apresentasse, publicamente, um documento profundo, fundamentado e actual, compaginado e de forma integrada com outros sectores da governação, que determinasse os caminhos a percorrer, passo a passo, onde ficasse evidente a capacidade de ruptura e inovação susceptível de projectar a Escola do Futuro. Esse documento não existe. Não foi apresentado na Assembleia Legislativa, tampouco publicitado por iniciativa do governo. Existe, sim, a repetição do passado, salpicado aqui e ali com iniciativas desconjuntadas. E vêm falar de "ambientes inovadores na aprendizagem"? Realmente, aquele professor tem toda a  razão: "tirem-me deste filme".
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 6 de janeiro de 2018

HÁ UM DÉFICE DE ATENÇÃO SAUDÁVEL


É preciso olhar com atenção para as práticas educativas globais

Por
DN-Madeira. 06 JAN 2018 


Pensar a adolescência de hoje é pensar no contexto e na forma como a integramos nos hábitos da vida atual. Tudo começa na infância. Basta observar alguns contextos que envolvem adultos e respetivas crianças. Existe um mundo criado para os adultos onde as crianças são distraídas com diferentes estímulos que as obriga a estar permanentemente ativas acompanhando o ritmo tantas vezes frenético dos pais.
São raras as situações em que observamos os adultos a interagir no mundo criativo das crianças permitindo-lhes usar o seu imaginário ou simplesmente partilhar momentos de contemplação. A falta de tempo do “nada”, essencial ao crescimento e desenvolvimento saudável, tornou-se um problema de adultos impingido às crianças.
Para além desta falha básica no ato de crescer os espaços educativos, ao tentar compensar com dinâmicas criativas pensadas mais para o coletivo do que para o individual, centram-se demasiado nos resultados comparando médias e níveis de crescimento. Desvaloriza-se a relação entre os níveis de maturidade e desenvolvimento de competências individuais que, ainda que obedeçam a padrões, têm uma dimensão individual significativa. Tudo o que sai da norma é alvo de análise e tentativa de enquadramento no padrão esperado com uma tendência marcante para considerar perturbação muito do que seria apenas nível de maturidade e tentativa de ajustamento aos infinitos estímulos propostos.
É preciso olhar com atenção para as práticas educativas globais e para a forma como nas últimas décadas as crianças têm sido desrespeitadas nas suas necessidades. Este modelo, que tem vindo a dar jeito aos adultos e ao estilo consumista que entra na vida das famílias e silenciosamente vai pervertendo as relações e destruindo o mundo imaginário, não está a resultar.
Quando chega a idade da adolescência e se associam a ela os primeiros desenhos que provocam preocupação é que alguns olham para trás e relembram esboços que, redesenhados no tempo certo, poderiam facilitar o crescimento dando mais segurança e consistência às experiências futuras.
Quanto mais rica tiver sido a infância mais deslumbrante será a adolescência e mais gratificante o ato de crescer. Riscos? Faz parte do processo. Erros? Estranho é não os cometer.
Ter quem nos ouça é sempre um privilégio, mas para ouvir é preciso estar desatento e desligado dos estímulos diariamente oferecidos por todos aqueles que o que mais desejam são pessoas formatadas à imagem de tudo o que lhes pretendem oferecer. A eterna conexão ao sistema atual não é sinal de vitalidade.
Há um deficit de atenção saudável que famílias, educadores e técnicos de saúde precisam de refletir.

NOTA
Artigo de opinião da autoria da Psicóloga Manuela Parente, publicado na edição de hoje do DN-Madeira e aqui reproduzido com a devida vénia.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

"10 SEGUNDOS PARA O FUTURO. O MUNDO EM 2077". OPORTUNIDADE PARA OS GOVERNANTES REPENSAREM O SISTEMA EDUCATIVO


Este primeiro programa de uma série de quatro, deixou-me completamente pregado ao sofá. Emocionante. Permitiu-me, por extensão, reflectir sobre o Sistema Educativo que, teimosamente, continua, parece que alegremente, a repetir o passado longe de se constituir como uma fonte prospectiva do futuro. Esta série deveria ser, "obrigatoriamente", vista por governantes, professores, responsáveis pelos estabelecimentos de ensino, motivo de reflexão que coloque em causa todo o sistema organizacional, os currículos, os programas e toda, toda a organização pedagógica. Estamos face à inteligência artificial, porém, o sistema educativo continua lá para trás na era industrial. Que pobreza!


A série da RTP, ontem iniciada, é absolutamente fascinante ao mesmo tempo que é geradora de uma enorme preocupação. Como será o futuro daqui por sessenta anos? "As próximas décadas vão sofrer a maior e mais veloz transformação de sempre. Na tecnologia, na ciência, no ambiente, nas relações interpessoais. Vivemos numa espécie de grande acelerador de ciência, em que o ritmo das descobertas não pára de surpreender. Nas últimas décadas acumulou-se mais conhecimento científico do que em toda a história da Humanidade. Em 2077 esse conhecimento científico terá duplicado várias vezes", leio na presentação desta fenomenal série de quatro programas. Estamos, ainda, convicto estou, na fase embrionária, que tal como Tofller sublinhou nos primórdios dos anos 80, jamais será possível meter o futuro nos cubículos convencionais de ontem. 

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
NANOTECNOLOGIA
FUSÃO HOMEM/MÁQUINA 
GENÉTICA

"(...) Abandonámos as cavernas. Inventámos a roda, a locomoção a vapor, a electricidade, a internet. Construímos automóveis, aviões, foguetões. Lançámo-nos no Espaço. Criámos os mercados, a medicina, o armamento. Recriámos vida… Mas com uma insatisfação absoluta e permanente e uma vontade de alcançar sempre mais (...) Estamos no ponto de partida de uma mudança tecnológica exponencial. Nas próximas décadas viveremos a desmaterialização da tecnologia. Os computadores abandonarão as secretárias para se instalar nos olhos, nas paredes e em tudo o que nos rodeia. Os chips estarão integrados em praticamente tudo à nossa volta, transmitindo informação vital. A qualidade e a esperança média de vida aumentarão espantosamente e o envelhecimento será retardado. Teremos capacidade de escolher genes para os nossos filhos e criar novas formas de vida.
Em 2007, um smartphone tinha mais potência do que os computadores da NASA que levaram o homem à Lua em 1969. Em 2077 é provável que controlaremos os objectos à nossa volta através do pensamento. É unânime a opinião de que a revolução em curso é a maior e mais rápida de todas, com a intercepção da genética, da nanotecnologia e da inteligência artificial. As consequências são inúmeras e transversais, com grande impacto na saúde. No entanto, a ascensão da máquina lança desafios sem precedentes, até a possibilidade de extinção da própria Humanidade". (todo o vídeo aqui)
Este primeiro programa de uma série de quatro, deixou-me completamente pregado ao sofá. Emocionante. Permitiu-me, por extensão, reflectir sobre o Sistema Educativo que, teimosamente, continua, parece que alegremente, a repetir o passado longe de se constituir como uma fonte prospectiva do futuro. Esta série deveria ser, "obrigatoriamente", vista por governantes, professores, responsáveis pelos estabelecimentos de ensino, motivo de reflexão que coloque em causa todo o sistema organizacional, os currículos, os programas e toda, toda a organização pedagógica. Estamos face à inteligência artificial, porém o sistema educativo continua lá para trás na era industrial. Que pobreza!
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

CURRÍCULO ESCOLAR DEVE SER RICO SEM PENALIZAR ARTES E CIDADANIA


A nova presidente do Conselho Nacional de Educação, Maria Emília Brederode Santos, defende um currículo escolar rico, em que as artes e a educação para a cidadania não sejam penalizadas por outras áreas. "Defendo um currículo rico. Tenho a sensação de que o currículo escolar está um bocadinho espartilhado, centrado em certas disciplinas que ainda bem que estão a ser trabalhadas, mas que não pode ser à custa de outras áreas como a educação para a cidadania ou a educação para as artes", explicou em entrevista (...).


Maria Emília Brederode Santos considera que não existe qualquer contradição nesta aposta nas áreas transversais, até porque, defende, "não há melhor maneira de aprender português do que através do teatro e da expressão dramática, por exemplo".
"Tanto quanto possível defenderei um currículo mais alargado e mais rico, sobretudo porque a maior parte dos meninos terá pouco acesso a essas áreas", frisou.
Do Conselho Nacional de Educação (CNE) gostaria que tivesse uma visão mais prospetiva, mais ligada ao que pode ser o futuro.
"Estamos a viver uma mudança de era que ainda vai acelerar mais na nossa própria relação com o trabalho. Será que faz sentido ter uma época de formação mais prolongada, depois uma época de trabalho e depois uma época de descanso? Não faz mais sentido uma educação permanente?", questionou, considerando que estas são questões sobre as quais o CNE deve pensar.
Na primeira reunião plenária sob a sua presidência, explicou, houve uma reorganização das comissões permanentes que estudam matérias relacionadas com a educação com a intenção clara de não estarem tão presas ao sistema escolar e mais ligadas "à pessoa que está por detrás dos alunos".
Assim, adiantou, a intenção é ter uma comissão que tratará das crianças e jovens dos 0 aos 15 anos, outra dos 15 aos 24 anos e outra dos 24 em diante, dando assim a perspetiva de educação permanente "porque todos nos desenvolvemos ao longo da vida".
Uma das questões que a nova presidente afirma que gostaria de o CNE fosse chamado a acompanhar prende-se com a iniciativa governamental de autonomia e flexibilidade curricular das escolas em que se dá às escolas um tempo para usar como entendem.
"Tenho muita curiosidade de ver como é que as escolas vão agarrar nesta possibilidade de gerir, como entenderem, 25% do tempo. Gostava que o CNE acompanhasse isto, de ir para o terreno, de ver como as escolas estão a trabalhar, de falar com os vários parceiros da educação. Gostava de o fazer, de começar a preparar desde já", disse.
A necessidade de uma aposta na educação de adultos será também um dos pontos que gostaria de ver analisada pelo Conselho Nacional de Educação.
"Gostava que a oferta de educação de adultos fosse o mais diversificada possível. Desde os analfabetos que ainda existem, aos imigrantes que precisam de aprender melhor português, à reconversão profissional, as atualizações tecnológicas. Uma oferta diversificada que respondesse as todas as expectativas dos adultos", disse.
Questionada sobre os resultados do último relatório do Conselho Nacional de Educação O estado da Educação 2016, a responsável destacou a questão da retenção escolar. Segundo o estudo, os alunos portugueses continuam a ser dos que mais chumbam na Europa. "Embora Portugal tenha feito avanços extraordinários em educação, ainda tem um nível de retenção muito elevado que começa muito cedo. No 2.º ano de escolaridade já há 5% de meninos reprovados e quando chegam aos 15 anos 40% já não estão no ano de escolaridade correspondente ao ano da sua idade e isto é demasiado e revelador de uma certa cultura", disse.
Maria Emilia Broderode Santos destaca a importância desta análise anual feita pelo CNE, por permitir relacionar as coisas, como por exemplo a ligação que se pode fazer para analisar a retenção das crianças e os métodos de ensino.
Professores cada vez mais velhos e aulas pouco práticas numa escola ainda dominada pela "cultura da retenção" e com um aumento de casos de abandono precoce caracterizaram o "Estado da Educação" em 2016.
As aulas expositivas são o método seguido por todos os docentes e não apenas pelos mais velhos: esta opção "não se co-relaciona com a idade dos professores, mas sim com práticas enraizadas nos diferentes países", sublinha o relatório.
Maria Emília Brederode Santos, nomeada para o cargo em Outubro substituindo David Justino, presidente do Conselho Nacional de Educação desde 2013, desempenhou as funções de presidente do Instituto de Inovação Educacional do Ministério da Educação entre 1997 a 2002, tendo ainda sido representante do Ministério da Educação na Comissão Nacional para a Educação em matéria de Direitos Humanos entre 1998 e 2004 e directora pedagógica do programa televisivo e da revista Rua Sésamo (da RTP).
Fonte: Público por indicação de Livresco.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

FALTA MUITO TPC POLÍTICO


Em complemento ao texto ontem aqui publicado, li a mensagem de hoje do secretário regional da Educação, dirigida aos jovens: desejamos "jovens activos, participativos, para que possam ter uma palavra a dizer na construção do futuro". Senhor Secretário Regional, importa-se de repetir? É que não podem existir jovens "activos e participativos" quando é o próprio sistema educativo que, desde início, coarcta tal meritório desígnio. O que hoje existe é a repetição de ontem, que por sua vez repetiu anteontem, é a existência de uma cadeia hierárquica de cega obediência que não possibilita, genericamente, é claro, ser activo, inovador, criativo e, por extensão, participativo. Nem por parte dos professores, muito menos por parte dos alunos. 


Tantas vezes o digo, no ensino básico, na idade das perguntas o sistema quer, apenas, as respostas do manual. O manual deixou de ser um meio para tornar-se em um fim. Por outro lado, tome-se consciência que este é um sistema heterónomo que não deixa muitas possibilidades para que a diferença organizacional e pedagógica faça o seu caminho e tenha êxito. A padronização e a centralização matam, repito, esse meritório desígnio. Portanto, aquelas são palavras ditas, no espaço do politicamente correcto, porém, sem um substrato que conduza à sua concretização. Quando manifestamos aquele desejo, obviamente, que temos de ser consequentes, eu diria, através do TPC (trabalho para casa) político que implica a reinvenção do sistema educativo. Ora, um sistema travestido de democrata, onde, lamentavelmente, impera a norma, a subserviência e o concomitante medo, obviamente que o cumprimento do programa, a sensação patológica da angústia (de professores e alunos) não permite o espaço necessário para uma formação estruturada nos princípios e nos valores que conduzem a seres activos e participativos. O sistema, por mais pinceladas de cor, assemelha-se a uma espiral cinzenta para dentro, não a uma espiral verde que parte do aluno (centro) para fora. Portanto, o sistema não liberta para a acção e para a participação, antes convida a entrar no rebanho da repetição e do histórico convencimento salazarista, assente no princípio que os jovens não precisam de pensar porque alguém pensa por eles. O problema é esse. Salvam-se alguns, como em todas as épocas e mesmo com os piores sistemas, a maioria, no entanto, fica pelo caminho na tal participação na "construção do futuro".
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

OH ROTINA QUE TANTO MAL FAZES ÀS CRIANÇAS E AOS ADOLESCENTES


A 20 de Setembro de 2009, em nome do grupo parlamentar do PS na Assembleia Legislativa da Madeira, apresentei um Projecto de Decreto Legislativo Regional sobre o Regime Jurídico do Sistema Educativo Regional. Tratava-se de um ponto de partida, não de chegada. Foi chumbado pela maioria PSD e contou com a aprovação dos restantes grupos parlamentares. O extenso documento foi objecto de muitas consultas, entre investigadores, educadores e professores de todos os níveis, conselhos executivos, sindicatos, análises comparadas com outros sistemas educativos e, naturalmente, uma revisão da literatura existente. Entretanto, passaram-se oito anos, duas legislaturas, e os valores, relativamente ao número de alunos por turma, continuam distantes do aceitável. Pelo contrário, a partir das recentes declarações do secretário da Educação e apesar dos números serem referenciais, as médias apresentadas assemelham-se à história de dois amigos em que um comeu dois frangos, porém, a média estatística foi de um frango por cada. Um exemplo: tenho um neto, no 2º ciclo, cuja turma tem 25 alunos, mas a média regional é de 22!



NÚMERO DE ALUNOS POR TURMA*


PROPOSTA DO PS-MADEIRA
SECRETARIA DA EDUCAÇÃO
Creche
10
12
Pré-escolar
18
20
1º ciclo
18
21
2º e 3º ciclos
16
22
Secundário
14
22

Ora, o que está aqui em causa é a (re)organização do sistema que tarda, uma outra concepção da rede de estabelecimentos de educação e ensino e, tão importante quanto isso, a determinação do que se pretende atingir com o sistema educativo. Este aspecto não está, de todo, clarificado. Desde sempre o que o sistema tem pretendido é que as crianças e jovens vão ultrapassando as sucessivas etapas, porém, com que objectivo e de que forma, tal pouco tem interessado. Para que serve o currículo estipulado e para que servem os extensos programas com repetidas particularidades, tais interrogações não têm feito parte das preocupações estruturantes do sistema. Muita burocracia, muitas grelhas para preencher, muitas circulares, muitos normativos, muito big-brother, muitas reuniões ditas "pedagógicas", de departamento, de grupo e de turma, mas, afinal, tudo converge para uma pescadinha de rabo na boca. O sistema é circular! Obediência cega tornou-se exigência e quem sair fora do padrão estipulado pode ser visado. Adiante.
O conceito de turma e de aula não é discutido. Talvez porque dê muito trabalho PENSAR um sistema preparado e adequado aos novos tempos. Disse o experiente investigador e pedagogo José Pacheco respondendo a uma sua interrogação: "(...) se eu dou aula, preparada ao pormenor, e eles não aprendem, talvez não aprendam porque eu dou aula". Pois, é isso mesmo. Mudar o conceito de aula e de turma, alterar as preocupações de natureza pedagógica, onde no centro deve estar o aluno e não o "magister dixit" que fala, fala e fala, partir à descoberta para estruturar o conhecimento, utilizando toda a tecnologia pessoal ou da escola, gerar o princípio que a escola não pode nem deve confinar-se às ditas "salas de aula", a uma campainha, disciplinas, programas e testes, eu sei, dá muito trabalho! Só que, lá vem a propósito George Gusdorf: "o mais alto ensinamento do mestre não está no que diz, mas no que não diz". 

O Ensino Básico deveria ser, por isso, a grande explosão do pensamento crítico visando a estruturação do conhecimento secundário e universitário. Deveria ser, antes de mais, a explosão da cultura geral, a capacidade para cruzar toda a informação disponível, a competência para ler, compreender, escrever e elaborar textos com pensamento e qualidade. 

O Ensino Básico não é nada disto, por maiores que sejam as intenções das instituições e dos projectos de natureza avulsa que invadem os estabelecimentos de educação e ensino. O sistema chegou a um ponto que, grosso modo, se preocupa muito mais com a avaliação do que com o verdadeiro conhecimento. O manual continua a prevalecer relativamente à capacidade de PENSAR. Para o sistema, desde o primeiro dia do ano escolar, a grelha de avaliação, com tantas colunas e percentagens, vale mais do que a estrutura, o alicerce a partir do qual poderão ser erigidas as colunas e vigas dos patamares superiores do conhecimento. Para o sistema, os relatórios, muito enfeitados de palavras e números, mesmo que vão, logo de seguida, direitinhos para o arquivo morto, são mais importantes que as sementes que deveriam ser lançadas no tempo certo. 
Depois, tarde de mais, quando já é muito difícil corrigir percursos, quando o desânimo rouba a esperança, vêm os apoios e mais aulas, no quadro da mesma mentalidade pedagógica. Não sabem Português, pois bem, mais Português; não sabem Matemática, pois bem, tomem lá mais Matemática. E ninguém pára para reflectir, desde a estrutura e debilidades da sociedade a montante da escola, até à organização pedagógica vigente. É isso José Pacheco, "(...) se eu dou aula, preparada ao pormenor, e eles não aprendem, talvez não aprendam porque eu dou aula". O secretário que pense nisso! E que pense nas causas das 107 ocorrências criminais nas escolas, noticiadas na edição de hoje do DN-Madeira.

Nota
*A proposta (número de alunos por turma), constituía um primeiro passo para uma outra visão e enquadramento das aprendizagens.
Ilustração: Arquivo próprio.